André Esteves está diante da oportunidade de montar um grande quebra-cabeças na área de energia, encaixando fontes renováveis e combustíveis fósseis em um único mosaico empresarial sob sua liderança. A primeira peça veio com a entrada do BTG no capital da Cosan, mediante o aporte de R$ 4,5 bilhões. Agora, o banco estaria se movimentando para se associar também à Raízen, joint venture entre o próprio grupo de Rubens Ometto e a Shell. De acordo com uma fonte próxima a Ometto, a instituição financeira teria manifestado interesse em participar da reestruturação de capital da empresa, que envolveria uma injeção de recursos de até R$ 10 bilhões. O BTG joga esse jogo em uma posição privilegiada. Duplamente privilegiada: como o investidor que pode aliviar a compressão financeira da Raízen e como acionista indireto da companhia, dada a recém-adquirida participação societária de 23% na Cosan. Se, de um lado, Ometto está cada vez mais indexado a André Esteves; do outro a Shell também vê com bons olhos o ingresso do BTG no capital da Raízen. A companhia precisa de um aporte para fazer frente a um endividamento superior a R$ 50 bilhões. De acordo com a mesma fonte, a Shell resiste a colocar dinheiro novo no negócio e já deixou claro que não pretende assumir uma posição majoritária no capital. Ou seja: as portas estão escancaradas para a chegada de um investidor – os anglo-holandeses, inclusive, já contrataram o banco Lazard para conduzir as negociações, conforme informou o Valor Econômico no último dia 3 de novembro. Consultado pelo RR, o BTG não se pronunciou até o fechamento desta matéria. Também procurada, a Raízen não quis comentar o assunto.
Nesse desenho, o banco de André Esteves passaria a ter um pé tanto na controladora, a Cosan, quanto na controlada, a Raízen, com forte poder de influência nas duas companhias. Não é só. O puzzle energético de Esteves ganharia contornos de uma grande arquitetura empresarial com a sua terceira peça: a Eneva, da qual o BTG é o maior acionista, com 48% – contabilizando-se sua participação direita e os papéis em poder do Partners Alpha, fundo que reúne sócios do banco. A eventual coabitação da Cosan, Raízen e Eneva sob uma mesma estrutura de mando colocaria Esteves em uma posição de centralidade no setor de energia, tamanha a abrangência e capilaridade das três empresas reunidas. Além das usinas de álcool e açúcar, a Cosan atua na distribuição de gás, por meio da Compass, dona, entre outras, da Comgás. A Raízen, por sua vez, está na bioenergia e é dona de uma das maiores redes de postos do Brasil. Já a Eneva reúne 38 ativos em exploração e produção, que se somam a térmicas e complexos solares. Ou seja: o encaixe dessas três peças criaria um conglomerado com atuação, de forma integrada, em E&P, revenda de combustíveis, concessões de gás, etanol de primeira e segunda geração, biogás, biodiesel e termelétricas flexíveis. Ressalte-se que, no passado recente, o BTG tentou articular a fusão da Eneva com a Vibra, sem sucesso. Desta vez, a possibilidade de ter um pé em cada barco lhe colocaria em uma posição de força para costurar por dentro essa associação com Cosan e Raízen. Com um ingrediente adicional: o acordo de acionistas firmado por ocasião da capitalização da Cosan garante a permanência de Rubens Ometto como controlador da empresa até 2030. A partir dessa data, há brechas para que o BTG e a Perfin Investimentos, que também aportou recursos na companhia, assuma uma participação majoritária.