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A MBRF, gigante brasileiro da proteína animal, enfrenta o que já pode ser considerada sua primeira grande crise internacional desde a fusão entre Marfrig e BRF. A companhia se mobiliza – segundo o RR apurou, inclusive com o apoio do Itamaraty – na tentativa de mitigar o impacto das investigações contra sua operação na Turquia. Ao lado de outras 12 empresas, a Banvit, sua subsidiária local, é apontada como participante de um esquema de manipulação de preços no setor avícola. A MBRF tem motivos para se preocupar. A acusação surge como um fator de risco não apenas à posição do grupo na Turquia, mas também a sua expansão no estratégico mercado halal – produtos que seguem as normas do Islã. A principal ameaça vem da rigorosa legislação do país. A Justiça turca nomeou administradores de fiscalização para a Banvit e as demais investigadas, com base no artigo 133 do Código de Processo Penal do país. Esse dispositivo permite a indicação de trustees quando há fortes indícios de que crimes tenham sido cometidos no âmbito das atividades de uma empresa e quando a medida é considerada necessária para esclarecer os fatos. Trata-se, digamos assim, de uma “intervenção temporária” na empresa. O risco é o “temporário” virar “definitivo”. O mesmo Artigo 133 não se limita a essa espécie de auditoria externa. A norma permite que a Justiça imponha dois níveis distintos de controle: submeter as decisões da administração à aprovação do trustee ou, em um degrau acima, transferir ao administrador judicial poderes efetivos de gestão, inclusive sobre participações societárias e valores mobiliários da companhia. Em outras palavras, a supervisão pode começar como fiscalização e evoluir para a tomada do negócio pelo Estado.
A Banvit foi comprada pela então BRF em 2021. Tem como sócio minoritário o Qatar Investment Authority, fundo soberano do país asiático, com 37% do capital. Com a fusão entre BRF e Marfrig, a companhia se tornou um braço ainda mais estratégico, por conta dos planos de expansão do empresário Marcos Molina, controlador da MBRF, no mercado halal. No ano passado, a Banvit faturou cerca de US$ 560 milhões. Além de dominar mais de um quarto das vendas de frango na Turquia, a empresa exporta aproximadamente 12% da sua produção para mercados como Iraque, Catar e Emirados Árabes. Junto com as fábricas na Arábia Saudita e nos próprios Emirados, forma um tripé estratégico para a MBRF no que diz respeito ao suprimento dos países de maioria muçulmana. Nesse contexto, a acusação das autoridades turcas lança incertezas em relação a um desses pilares. Até porque a investigação contra a Banvit deixou de estar restrita à esfera antitruste e já enveredou pelo campo criminal. A ofensiva envolve suspeitas de coordenação de preços, restrição de oferta, manipulação de mercado e prejuízo ao consumidor. Procurada pelo RR, a MBRF não se pronunciou.
O passado recente é motivo adicional de apreensão para a MBRF. A Turquia vem ampliando o uso de administradores judiciais em empresas privadas, notadamente estrangeiras. O número é expressivo. O TMSF (Tasarruf Mevduatı Sigorta Fonu), o fundo estatal turco que atua como garantidor de depósitos e administrador judicial de ativos apreendidos, controlava, no fim de 2025, exatas 1.056 companhias dos mais variados portes. Um ano antes, eram 675, ou seja, um aumento de 56% em apenas 12 meses. Ressalte-se que o rol de motivos para a tomada da gestão dessas empresas é um balaio dos mais sortidos, com ilícitos de maior e menor gravidade. Vai de fraude, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, contrabando, organização criminosa a práticas de concorrência desleal, a base das acusações contra a Banvit.
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