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Enquanto todas as atenções estão voltadas para os problemas do Banco Master, há muito mais vilania do que aquela percebida por leitores ávidos de manchetes espalha brasas. O sistema financeiro virou um vespeiro devido ao aparente descompromisso de atores possivelmente compromissadíssimos. Após passar pela porta giratória que separa o serviço público da iniciativa privada, o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, vice-chairman do Nubank, é hoje o maior dos favorecidos pela negligência do Banco Central na regulamentação das fintechs. Queira-se ou não, o ex-nº 1 da autoridade monetária, resistindo, inclusive, à pressão dos 10 maiores bancos do país, está no epicentro da onda de suspeições em torno da boa vida dessas engenhosas instituições financeiras. Uma boa vida tão grande que permitiu o entrelaçamento de muitas delas com o crime organizado.
À frente do Banco Central, Campos Neto relutou o quanto pode em regulamentar as fintechs, mesmo com todos os indícios, já àquela altura, que debaixo desse angu financeiro amontoavam-se caroços. A primeira dessas fintechs, instituições que funcionavam como bancos sem serem bancos, foi autorizada a operar em 2018, um ano antes de Campos Neto assumir o cargo. Legado de Ilan Goldfajn, então à frente da autoridade monetária. Mas foi sob a administração de Campos Neto que o enxame começou a ganhar forma e tamanho. Em 2019, quando tomou posse, o Brasil chegou a 533 fintechs. Em dezembro de 2024, quando o bastão passou às mãos de Gabriel Galípolo, eram mais de três mil. Esse número cresceria de qualquer maneira? Talvez. Mas com os devidos antibióticos a colônia de bactérias que acabaria por contaminar a reputação do próprio sistema financeiro poderia ser controlada.
Essas vespas acumularam dinheiro como poucos, pois deitaram e rolaram na assimetria regulatória, que as deixava praticamente livres de compromissos de aportar reservas, seguir resoluções, vender outros serviços como os bancos de verdade etc. Muito apartamentinho de quarto e sala virou fintech, enquanto as casas dos donos eram verdadeiras mansardas. Acumulação de capital não volta; vira concentração de renda, a não ser que seja constatado crime. Hoje não há sequer um cadastro confiável do número de instituições que estão na fronteira de serem fintechs quanto mais na ilegalidade. Talvez venham a virar bancos no nome, com compromissos perfunctórios, conforme ocorreu até agora, devido à estranha desregulamentação do BC.
Em 2020, o RR teve acesso a um relatório encomendado por uma das seis maiores instituições financeiras do país sobre os desafios do sistema bancário na década. Eram 60 páginas, tendo como consultores um ex-diretor do BC e um técnico da CVM. Àquela altura, o segundo maior motivo apontado para a insônia dos bancos que honravam o sistema era a assimetria regulatória das fintechs. Eram os primórdios do “vou me dar bem” elidindo as regras. O uso dessas empresas para práticas ilegais ainda estava na adolescência.
Uma dúvida que ninguém consegue tirar: por que o Nubank – poderia se chamar adequadamente “Nobank” – não foi considerado uma instituição bancária logo na partida? Na verdade, o Nubank nunca quis ser banco e, sim, continuar fintech. Seu período de maior ascensão patrimonial foi durante o período de 2022 e 2024. Um crescimento obsceno. Em maio de 2022, ultrapassou o Itaú como o banco mais valioso do Brasil e com maior número de clientes. Campos Neto estava lá sentado na cadeira de autoridade monetária e bradando que sua principal agenda era aumentar a competitividade bancária. Conseguiu, mas por uma via transversa e controversa, deixando a sanha das fintechs avançar a passos largos.
Roberto Campos Neto exerce hoje os cargos de vice-presidente do conselho de administração e chefe global de políticas públicas do Nubank, função que assumiu em 1.º de julho de 2025. É um craque. Merece as melhores cadeiras no setor privado. Mas numa pandemia financeira como a atual, todo mundo tem de ser ouvido. Principalmente quem deixou a cavalgada das fintechs correr solta. Até para que Campos Neto possa se livrar da pecha de ter sido um árbitro premeditadamente parcial, uma espécie de sócio oculto da fintech titânica, agora banco, da qual é declaradamente o manda-chuva. Por muito, muito menos, comentaristas, fofoqueiros e suspeitos tocaram piano na PF, gravando suas digitais por ocasião da debacle dos bancos Bamerindus, Nacional e Econômico.
O que se diz em petit comité no setor de mineração é que a Atlas Critical Minerals abriu conversas com fundos de investimento internacionais na busca por um aporte de capital. A venda de uma participação acionária surge no radar com o objetivo de viabilizar os projetos da empresa na exploração de minerais críticos, notadamente terras raras, grafite de alta pureza e outros insumos estratégicos. Em janeiro, a companhia, controlada pelo investidor brasileiro Marc Fogassa, realizou um IPO simbólico na Nasdaq, precificando sua oferta inicial a cerca de US$ 8 por ação e levantando US$ 9,6 milhões. A operação serviu como um termômetro para dimensionar o apetite dos investidores por uma colocação de papéis à vera. Os projetos da Atlas no Brasil se concentram em Minas Gerais e Goiás, com foco em terras raras — essenciais para ímãs de alta performance, veículos elétricos e aplicações industriais estratégicas —, grafite de grau nuclear, titânio, cobre e urânio, além de uma frente de minério de ferro no Quadrilátero Ferrífero, que começou a gerar receita em 2025 e é vista como uma fonte de caixa inicial para sustentar iniciativas de maturação mais longa.
No varejo farmacêutico, há uma boa dose de ceticismo em relação à reestruturação da Ultrafarma, do empresário Sidney Oliveira. Há cerca de duas semanas, a companhia anunciou que fechará suas sete farmácias e concentrará sua operação em uma nova “megaloja-conceito”. Quando e onde essa megaloja será aberta, não se sabe. Até agora, a empresa não revelou o local e o prazo do projeto, o que ajuda a alimentar dúvidas no setor. Pode até haver um excesso de má vontade entre os demais players do varejo de medicamentos, mas, no mercado, a percepção é que, em vez de uma reorganização efetiva de seu modelo de negócio, a Ultrafarma estaria adotando apenas procedimentos cosméticos para responder circunstancialmente a pressões de ordem fiscal, regulatória e reputacional. Em agosto do ano passado, cabe lembrar, Oliveira foi preso sob a acusação de participar de um esquema de pagamento de propina a auditores da Secretaria de Fazenda do Estado de São Paulo e de ressarcimento indevido de créditos de ICMS.
A Ultrafarma se notabilizou nas últimas décadas por uma política agressiva de preços, com descontos superiores à média do varejo farmacêutico, o que sempre levantou ilações de seus concorrentes. A investigação deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) no ano passado colocou foco sobre a empresa e suas práticas. No setor, há dúvidas sobre a capacidade da Ultrafarma de manter a estratégia de preços que adotava antes da ofensiva do MP-SP. O RR encaminhou uma série de perguntas à empresa. A Ultrafarma limitou-se a responder mediante release encaminhado a toda a mídia, no qual confirma o projeto de concentrar sua “operação física em um único espaço de grande porte, que será instalado na Zona Norte de São Paulo, com mudança prevista para acontecer em curtíssimo prazo. Com cerca de 3 mil metros quadrados, a nova superloja contará, além da tradicional venda de medicamentos e serviços, com uma Ótica Ultrafarma e uma farmácia de manipulação”. Perguntada especificamente sobre seu modelo de negócios, sua política de preços e as acusações sobre sua participação em um suposto esquema de propinas, a companhia não se manifestou.
Algumas coisas talvez não mudem mesmo. Segundo informações que circulam no mercado, Sidney Oliveira já confidenciou a pessoas próximas que pretende manter a compra de horários em emissoras de TV abertas para veicular programas próprios, historicamente o principal pilar da estratégia de marketing da Ultrafarma. Rede TV e SBT sempre concentraram a maior parte dessas verbas. Por sinal, conforme dito pela própria companhia no release encaminhado à imprensa, foi em um jantar na casa de Íris Abravanel, viúva de Silvio Santos, com a presença de Luiza Helena Trajano e Luciano Hang, “conhecido como “Véio da Havan” (Sic), que a ideia de fechamento das farmácias e abertura de uma megaloja-conceito “começou a tomar forma”.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) atua nos bastidores para prorrogar por mais 60 dias os trabalhos da CPI do INSS, em um movimento que acirra a guerra de nervos entre o Congresso e o Palácio do Planalto em pleno ano eleitoral. A comissão já reúne assinaturas suficientes para estender as investigações, e caberá a Alcolumbre dar o aval formal ao pedido. No ambiente político, a leitura é de que a manutenção da CPI interessa ao Senado como instrumento de pressão sobre o Executivo. A apuração, que investiga um esquema bilionário de descontos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas, tem insistido em avançar sobre áreas sensíveis ao governo Lula. Integrantes da comissão avaliam que a CPI não deve se limitar à burocracia do INSS e mira também relações políticas e empresariais orbitando o poder. Nesse contexto, a investigação passou a triscar os calcanhares do presidente ao tocar em personagens ligados ao seu entorno, incluindo referências recorrentes a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em linhas de apuração que envolvem contratos, entidades e operadores investigados. No Planalto, a prorrogação é vista como um gesto hostil do Congresso, capaz de manter o tema vivo no noticiário durante a campanha eleitoral e, com isso, manter um instrumento de barganha contra o governo. Afinal, não é para isso que serve uma CPI?
A Petlove não se dá por vencida. Segundo informações apuradas pelo RR, os advogados da empresa avaliam entrar na Justiça contra a fusão entre a Petz e a Cobasi. A ação judicial poderá contemplar cenários distintos: revisão dos termos do acordo junto ao Cade, obrigações suplementares mais rigorosas ou, no limite, a anulação da aprovação do negócio. Procurada pelo RR, a Petlove não quis se pronunciar. A judicialização do caso surge como último expediente após as derrotas sofridas no âmbito administrativo. O Cade negou o recurso da Petlove contra o M&A. A companhia contesta as condições impostas pelo próprio órgão antitruste para a aprovação da fusão. Petz e Cobasi serão obrigadas a vender 26 lojas em São Paulo, na prática uma punição que terá, com o perdão da imagem, o tamanho de uma pulga para a dupla: as unidades em questão respondem por pouco mais de 3% do faturamento combinado das duas redes de pet shops. Além disso, a Petlove alega que os termos do acordo permitem a transferência dos ativos a um ou mais compradores por meio de contratos distintos, o que abre a possibilidade para que a venda das lojas se dê em momentos diferentes. Ou seja: Petz e Cobasi ainda poderão pagar o pedágio aplicado pelo Cade em “prestações”.
O RR apurou que a Polícia Federal investiga a existência de uma rede de apoio que teria financiado o então foragido ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques. De acordo com uma fonte da PF, há evidências de que Vasques vinha recebendo regularmente recursos de dentro do Brasil, que ajudaram a custear sua breve passagem pelo Paraguai e sua frustrada tentativa de fuga para El Salvador. O ex-nº 1 da PRF foi preso no último dia 26 de dezembro em Assunção quando embarcava para o país da América Central com documentos falsos. A PF trabalha com a hipótese de que não se tratou de uma ação isolada, mas de uma estrutura minimamente organizada, montada para garantir a subsistência de Vasques fora do país e facilitar sua movimentação internacional. Bolsonarista de carteirinha, o ex-diretor da PRF foi condenado pelo STF por 24 anos e 6 meses de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Procurada pelo RR, a Polícia Federal não se manifestou.
Como se não bastasse a oposição das empresas do setor, agora o diretor geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Sousa, tem contra si o TCU. Há uma crescente pressão dos ministros do Tribunal de Contas da União pela substituição de Sousa. Os integrantes da Corte têm empilhado críticas à administração do órgão regulador, notadamente no que diz respeito à gestão e à distribuição dos recursos da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais). As cobranças, que antes se limitavam aos bastidores, agora já são feitas, inclusive, à luz do dia. Não reunião plenária o presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, disse textualmente: “Meu Deus, tudo o que acontece neste setor mineralógico do Brasil é escandaloso. Todo processo tem faltas”. A agência tem notórios problemas financeiros, que ameaçam até mesmo a realização de leilões de concessões no setor – conforme informou o RR . No entanto, intramuros, os ministros do TCU defendem que as insuficiências operacionais vão além da escassez de verbas e refletem falhas e inconsistências administrativas.
Há rumores no mercado de que a BlackRock tem atuado intensamente na ponta compradora de ADRs da Axia (ex-Eletrobras). A ofensiva da maior gestora de recursos do mundo, com mais de US$ 14 trilhões em ativos, seria uma das principais razões para a alta de 14% dos papéis acumulada nos últimos dias. O que a BlackRock farejou? Nas bolsas, há uma forte expectativa de que a Axia aumente a voltagem da sua política de dividendos em 2026. No ano passado, a empresa aprovou a distribuição recorde de R$ 8,3 bilhões a seus acionistas. Relatórios recentes de casas de análise já revisaram para cima as estimativas de lucro e de geração de caixa para 2026, criando um pano de fundo favorável para dividendos extraordinários ou aumento do payout. O gatilho mais imediato é a alta do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) – o preço da energia elétrica no mercado de curto prazo no Brasil -, que tem impulsionado as margens das geradoras com maior exposição ao mercado livre. Soma-se a isso o histórico recente da companhia, que vem utilizando reservas de lucro e instrumentos societários para devolver capital aos acionistas. Como sempre, o BlackRock sabe muito bem onde está pisando.
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