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A ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, foi escalada para destravar a concessão do canal de acesso do complexo portuário Itajaí-Navegantes. Segundo informações que circulam em Brasília, nos últimos dias ela fez uma série de gestões junto a ministros do TCU na tentativa de reduzir resistências ao projeto – o julgamento do processo na Corte está previsto para amanhã. O governo trata a concessão como uma peça razoavelmente relevante. Sem as obras de dragagem, não há possibilidade de o Ministério dos Portos e Aeroportos deslanchar a licitação do próprio Porto de Itajaí. A ideia inicial era realizar o leilão ainda neste ano, mas a operação já foi empurrada para 2027. Além disso, a oferta do canal de Itajaí é vista como uma ponte para a concessão de acessos em outros portos, como Santos, Bahia e Rio Grande. O projeto em Santa Catarina prevê contrato de 25 anos e investimentos superiores a R$ 311 milhões, com obras de dragagem e infraestrutura para permitir que o complexo receba navios de até 400 metros e alcance calado de 16 metros a partir do quarto ano. Hoje, as limitações de profundidade e a instabilidade da dragagem reduzem a competitividade de Itajaí, especialmente em cargas conteinerizadas.
A Atlas Critical Minerals, do empresário Marc Fogassa, tem mantido conversações com mineradoras norte-americanas dispostas a se associar aos seus projetos de terras raras no Brasil. O que se ouve no setor é que, entre os interessados, estaria a MP Materials. A companhia opera a mina de Mountain Pass, na Califórnia, considerada o principal depósito em terras raras dos Estados Unidos. As tratativas envolveriam tanto participação no capital quanto contratos de offtake, pelos quais o comprador garantiria antecipadamente a aquisição futura da produção. A Atlas tem cerca de 54 mil hectares em direitos de pesquisa e lavra em terras raras, em Alto do Parnaíba (MG) e Iporá (GO). Em janeiro, fez um IPO na Nasdaq, levantando US$ 9,6 milhões. Foi uma operação mais simbólica do que financeira, mas suficiente para a empresa colocar seus ativos na vitrine internacional. Além de terras raras, a companhia tem licenças para explorar grafite, titânio, urânio, cobre, níquel, minério de ferro, ouro, diamante e quartzito no Brasil.
Procurada pelo RR, a Atlas não se manifestou.
As sondagens à Atlas ocorrem em meio às tratativas diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos em torno de um possível acordo para a produção e beneficiamento de minerais estratégicos. No caso específico das terras raras, os norte-americanos têm empreendido uma ofensiva para reduzir a dependência da China – as importações de compostos e metais de terras raras pelos Estados Unidos subiram 169% em 2025. No Brasil, o movimento mais agudo foi a investida da USA Rare Earth sobre a Serra Verde, em Goiás, anunciada em abril: uma aquisição de US$ 2,8 bilhões. A Atlas ainda está em estágio muito anterior ao da Serra Verde – sequer entrou em fase operacional. Mas tem exatamente o tipo de ativo que Washington tenta mapear: terras raras em jurisdições aliadas, potencial de desenvolvimento fora da China e possibilidade de integração futura com cadeias de separação, refino e ímãs permanentes.
O Grupo Ultra está recalibrando o plano de investimentos e revendo sua estratégia em relação à Hidrovias do Brasil. O rumo das águas mudou desde que o conglomerado empresarial assumiu o controle da companhia, em 2025. A tese original era usar a Hidrovias como plataforma logística para capturar o avanço do transporte fluvial no país. Mas a combinação entre menor volume transportado e atraso nas novas concessões hidroviárias esfriou a ambição inicial. Este segundo item é crucial. Em janeiro de 2025, o Ministério de Portos e Aeroportos falava em fazer cinco concessões hidroviárias em dois anos, começando pelo Rio Paraguai. Também estavam no radar obras em eclusas e estruturas hidroviárias do Norte ao Sul do país. Mas, em fevereiro de 2026, o governo publicou decreto suspendendo o início dos estudos para concessões nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, após pressão de povos indígenas e comunidades tradicionais. Sem a possibilidade de novos ativos, a conta da Hidrovias do Brasil não fecha.
A reprogramação dos investimentos da companhia deve se dar sobre uma base de cifras rasas. A Hidrovias havia confirmado para 2026 um plano de R$ 270 milhões, sendo apenas R$ 79 milhões à expansão. E este valor, já reduzido, ainda deverá sofrer novas podas até o fim do ano. Além de questões conjunturais, o fraco desempenho da empresa mudou o cálculo do Ultra. No primeiro trimestre de 2026, a Hidrovias reportou prejuízo líquido de R$ 34 milhões, contra perda de R$ 2 milhões um ano antes. A receita líquida caiu para R$ 445 milhões, recuo de 20% na comparação anual, enquanto o Ebitda ajustado ficou em R$ 182 milhões, queda de 23%. Para o Ultra, isso muda a equação: antes de acelerar novos desembolsos, será preciso preservar caixa, dar prioridade a corredores mais rentáveis. Procurado pelo RR, o Grupo Ultra não quis se manifestar.
Após um período de hibernação, a Daki retomou seus planos de expansão territorial. A plataforma de delivery de supermercados tem feito estudos para entrar em três novas cidades até o início de 2027. Há um bochicho no mercado de que Brasília é uma das escolhidas. Atualmente, a empresa atua em São Paulo, Santos e Belo Horizonte. A Daki conhece a dor e a delícia do setor. Fundada em 2021 por Ralf Wenzel, alcançou o status de unicórnio em menos de um ano. Posteriormente, viu seu valuation cair de US$ 1,2 bilhão para US$ 800 milhões. Faltou fôlego também para manter a jornada internacional – a empresa encerrou suas operações nos Estados Unidos, México, Peru, Chile e Colômbia. A frustrada investida no exterior consumiu uma parcela significativa dos mais de US$ 400 milhões que a Daki havia levantado até 2022, junto a investidores como Tiger Global, GGV Capital, Balderton Capital, Monashees e Kaszek, entre outros. A indigestão internacional acabou provocando efeitos colaterais no Brasil. O projeto de ampliação do número de cidades no Brasil foi colocado no congelador há cerca de dois anos. Somente agora está sendo retirado de lá.
Os grandes players privados do saneamento têm feito pressão junto à ANA para derrubar ou, ao menos, desidratar a proposta de criação de uma contabilidade regulatória nacional para os serviços de água e esgoto. A norma pretende padronizar a forma como concessionárias e prestadores reportam custos, receitas, ativos, investimentos, depreciação e demais informações econômico-financeiras. Na visão da agência, o modelo aumentaria a transparência, permitiria comparações entre operadores e daria mais instrumentos para fiscalizar tarifas, eficiência e equilíbrio dos contratos. As empresas, no entanto, enxergam a medida como uma intervenção excessiva sobre contratos já licitados e regulados por regras próprias. O argumento central dos investidores é que a contabilidade societária, baseada em CPC/IFRS, e os mecanismos previstos nos contratos de concessão já seriam suficientes para acompanhar a saúde financeira dos projetos. Também há temor de aumento relevante de custo de compliance, duplicidade de obrigações e abertura de informações consideradas estratégicas. Nos bastidores, concessionárias alegam que a proposta pode criar uma nova camada de risco regulatório, afetando revisões tarifárias, indenizações, cálculo de base de ativos e discussões sobre reequilíbrio econômico-financeiro. As empresas defendem ainda que a nova norma altera a forma de reconhecer custos, ativos, depreciação, investimentos e base regulatória, o que pode afetar o cálculo de reajustes, revisões tarifárias, indenizações ao fim dos contratos e pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro.
A Trafigura, uma das maiores tradings do mundo, com receita de US$ 250 bilhões, enxergou uma luz em meio à grave crise no mercado livre de energia no Brasil. A empresa se movimenta para comprar carteiras de contratos ou mesmo o controle de comercializadoras que atuam nesse segmento no país. Segundo informações filtradas pelo RR, há conversações com a Tradener, que atravessa uma delicada situação financeira. A empresa foi à Justiça para suspender execuções de contratos no valor total de R$ 5,4 bilhões e evitar seu desligamento da CCEE, na prática uma tentativa de ganhar tempo para renegociar obrigações com credores e contrapartes. Outro alvo seria a Electra, igualmente com dificuldades de cumprir acordos para a entrega de energia. Procuradas pelo RR, Trafigura e Electra não quiseram comentar o assunto. A Tradener, por sua vez, informou ter ingressado “com medida cautelar perante a 27ª Vara Cível e Empresarial de Curitiba/PR, com o objetivo de assegurar a continuidade de suas operações e proteger o atendimento aos seus clientes enquanto negocia, de forma ordenada, uma solução com suas contrapartes”. A empresa afirma que “o mercado livre de energia atravessa um período de instabilidade sem precedentes, causado por uma combinação de fatores estruturais: mudanças regulatórias nos modelos setoriais, expansão da energia solar em ritmo muito superior ao planejamento oficial do setor e restrições crescentes na capacidade de entrega das fontes renováveis ao sistema”. Perguntada especificamente sobre as conversas com a Trafigura, a Tradener não se manifestou.
O que está em marcha é uma ofensiva oportunística da Trafigura. A trading de Cingapura está criando uma estrutura de comercialização de energia no Brasil – a cargo do ex-Light Pedro Vidal – justamente no momento em que o mercado livre enfrenta um apagão. Para muitos, o cenário atual já pode ser classificado como uma crise estrutural. O problema ganhou escala, sobretudo, entre comercializadoras de médio porte, que operavam altamente alavancadas e expostas a contratos de longo prazo fechados antes da derrocada dos preços de energia. Muitas passaram a enfrentar dificuldades simultâneas: inadimplência de clientes, chamadas adicionais de garantias financeiras na CCEE, descasamento entre compra e venda de energia e perda de capacidade de honrar contratos. Aos casos da Tradener e da Electra somam-se, por exemplo, os pedidos de recuperação judicial em série da IBS Energy, Gold e 2W. Onde muitos enxergam apenas breu, a Trafigura vê uma avenida reluzente. A trading vislumbra a possibilidade de encurtar etapas e montar uma posição relevante nesse mercado a partir da aquisição de um combo fechado de ativos – licença, equipe, sistemas, cadastro na CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), carteira de clientes, relacionamento com consumidores livres etc. Os asiáticos chegam com voltagem de sobra para conquistar espaço no mercado livre de energia, que já responde pela compra a venda de mais de 40% da eletricidade consumida no país – na indústria, esse índice já chega a 95%.
Ao se referir ao buraco contábil de R$ 5 bilhões da Aegea como um “susto” – em entrevista publicada ontem pelo Pipeline, do Valor Econômico -, o presidente da Itaúsa, Alfredo Setubal, valeu-se de um malabarismo semântico. Para os Setúbal, a crise da empresa de saneamento teve a força de um abalo sísmico, gerando fissuras na relação entre a Itaúsa, detentora de 13% do capital, e os demais acionistas, a Equipav e o GIC, fundo soberano de Cingapura. O que se diz no mercado é que a holding dos Setúbal quer distância do negócio e estaria apenas aguardando a primeira janela de oportunidade para se desfazer da sua participação. Além de ter sido obrigada a fazer um ajuste em seu próprio balanço da ordem de R$ 700 milhões, a Itaúsa se viu arrastada para a crise de credibilidade da Aegea, agravada pelas suspeições de inconsistências contábeis que se espalharam pelo mercado.
As perdas financeiras se somam a um abalo reputacional: independentemente de maior ou menor participação na gestão e responsabilidade sobre a governança da Aegea, o tratamento sanitário que precisou ser dado às demonstrações contábeis da companhia respingam sobre a imagem da Itaúsa. Logo após a republicação do balanço, os Setúbal, inclusive, teriam cobrado mudanças na gestão da Aegea – conforme o RR informou (Leia aqui). A empresa reapresentou suas demonstrações financeiras e reduziu em cerca de R$ 5 bilhões o patrimônio líquido consolidado, de R$ 11,4 bilhões para R$ 6,4 bilhões. O problema, para os Setúbal, não é apenas o tamanho da baixa. É o que ela revela — ou pode revelar — sobre a qualidade dos controles, a governança e a confiabilidade dos números da Aegea.
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