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A decisão do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de não disputar as eleições de 2026 está longe de ser um consenso dentro do próprio PT. Embora o auxiliar de Lula sustente que permanecerá no cargo para reforçar a gestão e a campanha à reeleição do presidente, sua ausência nas urnas tem gerado incômodo entre lideranças partidárias em São Paulo. Com a visibilidade potencializada pelo cargo de ministro, dirigentes do PT entendem que Padilha pode vir a ser o segundo ou terceiro maior puxador de votos da legenda para a Câmara. O primeiríssimo, tudo leva a crer, será José Dirceu, que voltará a disputar uma eleição depois de 24 anos. Padilha reúne ainda um valioso ativo político, notadamente junto a prefeitos: está à frente do cobiçado orçamento da Saúde.
A guerra no Irã desponta como uma ameaça aos planos expansionistas da MBRF no Oriente Médio. O conflito coloca sob o risco o processo de IPO da Sadia Halal, subsidiária criada pela companhia para consolidar suas operações no mercado de proteína halal na região. A oferta de ações está originalmente prevista para o ano que vem e, segundo o RR apurou, emissários do empresário Marcos Molina, controlador da MBRF, já têm feito sondagens junto a investidores e fundos soberanos do Oriente Médio. Com a escalada bélica na região, toda essa arquitetura pode ser varrida para longe. O aumento do risco geopolítico na região, por si só, já altera a percepção de valor em relação à Sadia Halal, impondo um fator de reprecificação do ativo que não estava sobre a mesa. Ressalte-se que a empresa de Molina, resultado da fusão entre a Marfrig e a BRF, está razoavelmente indexada a investidores soberanos do Oriente Médio. Para começar, a Saudi Agricultural and Livestock Investment Company (SALIC), fundo ligado à família real da Arábia Saudita criado para garantir a segurança alimentar do país, tem uma posição na MBRF a partir de derivativos financeiros. Por sua vez, a própria Sadia Halal é uma associação com a Halal Products Development Company (HPDC), subsidiária do fundo soberano saudita PIF, um potentado com quase US$ 1 trilhão em ativos e controlador da própria Salic. Ou seja: está tudo junto, misturado e na linha de fogo do Oriente Médio. Consultada pelo RR, a MBRF não se pronunciou, alegando estar em período de silêncio devido à proximidade da divulgação de seus resultados de 2025.
A Sadia Halal foi idealizada para ser o passaporte da MBRF para o mercado halal – leia-se as regras do Islã que definem o que é permitido para consumo. A empresa de US$ 2,07 bilhões reúne fábricas e centros de distribuição na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, além das distribuidoras no Catar, Kuwait e Omã e do negócio de exportação direta de aves, bovinos e produtos processados para clientes da região MENA. Também integram o pacote a participação na Addoha Poultry Company, produtora de frango resfriado em Dammam, e a nova planta de processados em construção em Jeddah, considerada peça central da estratégia industrial da companhia no Golfo. A Sadia Halal herdou ainda uma rede comercial robusta, com cerca de 111 mil entregas mensais para mais de 17 mil pontos de venda, além de participação de mercado de aproximadamente 36% nos países do Conselho de Cooperação do Golfo.
Em tempo: a MBRF já teve um cartão de visitas dos impactos da guerra. No início de março, uma comitiva de mais de 100 empresários brasileiros do varejo, liderada pela empresa, precisou antecipar em um dia sua saída da Arábia Saudita após os ataques no Oriente Médio. Segundo relatos, o grupo teve de reorganizar a volta ao Brasil depois que a aeronave inicialmente negociada foi requisitada pelo governo saudita, levando Marcos Molina a fretar um voo para Londres. Parte da delegação ainda permaneceu na capital britânica aguardando conexão comercial para o Brasil.
A Sadia Halal está irremediavelmente exposta às turbulências geopolíticas e bélicas da região. O projeto foi concebido para capturar crescimento e eventualmente acessar o mercado de capitais saudita, mas a escalada militar envolvendo o Irã introduz uma nova camada de risco para investidores. Em um cenário de instabilidade logística e tensões no Golfo, a pergunta que começa a circular no mercado é se a Sadia Halal ainda conseguirá chegar ao IPO com a mesma narrativa de expansão que sustentou sua criação.
Informação de cocheira: a chinesa LONGi Green Energy avalia instalar uma fábrica no Brasil. O foco seria a produção de equipamentos para usinas fotovoltaicas e também para projetos de hidrogênio verde, ampliando a presença da companhia no país. A empresa já atua no mercado brasileiro, com forte presença no suprimento de módulos fotovoltaicos. Entre outros empreendimentos de peso, os chineses forneceram mais de um milhão de módulos para o complexo Sol do Sertão, um investimento de R$ 1,5 bilhão da Essentia Energia, leia-se Pátria, na Bahia. O projeto de ter uma operação industrial no país se daria na esteira da iminente onda de investimentos em data centers, que exigirá um aumento expressivo da oferta de energia — sobretudo de fontes limpas — para sustentar a expansão da infraestrutura digital. O movimento também dialoga com a estratégia global do grupo de diversificar sua base produtiva para além da Ásia. A LONGi tem sete fábricas na China, além de unidades de produção no Vietnã e na Malásia. O grupo é um dos maiores fabricantes de equipamentos de energia da Ásia, com faturamento na casa dos US$ 14 bilhões por ano.
Fernando Haddad tem dado demonstrações sucessivas de que pretende manter sua influência no governo Lula, ainda que de fora para dentro. Prestes a emplacar Dario Durigan, secretário executivo do Ministério da Fazenda, como seu substituto à frente da Pasta, Haddad trabalha também para aninhar Anelize Almeida no comando da Advocacia-Geral da União (AGU). O assunto tem sido conduzido diretamente junto ao presidente Lula. Anelize ocupa o posto de procuradora-geral da Fazenda Nacional, indicada pelo próprio ministro em 2022. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas para que ela ascenda à chefia da AGU, é preciso antes que Jorge Messias deixe o cargo. Indicado por Lula para o STF, Messias já bateu o recorde de chá de cadeira: aguarda há quase quatro meses pela sua sabatina no Senado.
Circula à boca miúda no mercado que a BlackRock tem atuado de forma intensa na ponta compradora de ações da SLC Agrícola. Nos bastidores, a gestora norte-americana é apontada como uma das principais responsáveis pela demanda e consequentemente pela valorização do papel – nos últimos cinco pregões, a alta acumulada passa de 8%. O apetite da BlackRock está ancorado em uma tese clássica: exposição a commodities agrícolas em um cenário de preços ainda elevados e oferta global pressionada. Soma-se a isso o fato de a SLC negociar a múltiplos considerados descontados em relação a pares internacionais, o que reforça o apelo para investidores globais. A entrada da BlackRock também dialoga com a estratégia de alocação em mercados emergentes, em meio à busca por ativos com geração de caixa em dólar. E, last, but not least, a empresa de propriedades agrícolas vem de uma boa safra de resultados. Em 2025, registrou lucro de R$ 565 milhões, alta de 17,3% em relação ao ano anterior. O Ebitda, por sua vez, subiu 30% no mesmo intervalo de comparação, chegando a R$ 2,6 bilhões.
A Petrobras vai acelerar a campanha de exploração na Margem Equatorial. Segundo o RR apurou, a direção da companhia inseriu no planejamento a perfuração de três poços adicionais no bloco FZA-M-059, na Foz do Rio Amazonas. O pedido de extensão das operações de sondagem foi encaminhado ao Ibama em janeiro. É importante ressaltar que não se trata de uma nova licença, o que provavelmente empurraria a análise apenas para 2027, mas, sim, de uma ampliação da autorização já concedida pelo Instituto em outubro do ano passado. Faz toda a diferença. Na prática, esse movimento permitirá à estatal manter operação permanente no Amapá.
Consultado pelo RR, o Ibama confirmou que a Petrobras solicitou o acréscimo de três poços. O Instituto informa que “solicitou informações adicionais ao empreendedor (confirmação da sonda a ser utilizada, a definição de um cronograma para o desenvolvimento das atividades e se haveria alteração na análise de risco já realizada)”. O Ibama disse ao RR que “ainda aguarda a apresentação das informações requeridas”. O órgão acrescenta que, “em caso de descoberta, se for de interesse da Petrobras produzir petróleo na área do bloco FZA-M-59, esta deverá elaborar um projeto de desenvolvimento da produção, que terá de passar por um novo processo de licenciamento ambiental, de rito trifásico, com elaboração de novo Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima), realização de audiências públicas e demais ritos cabíveis”. Também procurada, a Petrobras não se manifestou até o fechamento desta matéria.
De acordo com uma fonte da Petrobras, a decisão da diretoria causou surpresa dentro da própria área técnica da empresa. Nessa fase preliminar, a atividade de perfuração se baseia em simulações sísmicas, e o grau de incertezas ainda é muito grande. Em condições normais de temperatura e pressão, novas perfurações ocorrem apenas após o avanço das pesquisas no(s) poço(s) já abertos e a consequente obtenção de resultados que justifiquem a expansão da campanha exploratória. No setor em questão, mudanças de padrão como essa sempre causam certo receio por trazerem a reboque um aumento de riscos em todos os sentidos, a começar por acidentes. Em janeiro, não custa lembrar, a Petrobras chegou a interromper os trabalhos de perfuração na região após identificar um vazamento no poço Morpho.
A pisada no acelerador da Petrobras se justifica por uma combinação de fatores, globais e internos. O rush na campanha exploratória da Margem Equatorial é um reflexo direto do cenário geopolítico cada vez mais incerto. A perspectiva de conflitos prolongados em regiões estratégicas para o mercado internacional de petróleo — especialmente no Oriente Médio — tem levado governos a reforçar suas apostas na expansão de reservas próprias. A tensão em torno do Irã e o risco recorrente de instabilidade no Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, estão no centro das preocupações das grandes nações petrolíferas, assim como das corporações do setor. O presente aponta para um futuro de guerras longevas, quase permanentes, no Oriente Médio. Portanto, a ampliação das reservas domésticas é uma exigência do nosso tempo, condição fundamental para o reposicionamento do Brasil no tabuleiro energético internacional. Hoje, o país está na 15ª posição do ranking das maiores reservas globais, com 15,9 bilhões de barris. Essa mesma preocupação tem levado a estatal a buscar também oportunidades para exploração e produção em águas profundas em países africanos, como Namíbia, Gana e Costa do Marfim.
No front interno, a decisão de intensificar a campanha exploratória tem forte componente político. Lula ganha um novo “pré-sal” para os palanques eleitorais. Ao mesmo tempo, injeta combustível aditivado em uma pauta do interesse de governadores, parlamentares e candidatos do Norte e do Nordeste, que poderão levar para suas respectivas campanhas a promessa de um novo ciclo de investimentos, royalties e geração de empregos nas duas regiões. O avanço das operações no Amapá será, por exemplo, um presente, com laço e tudo, para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Não é só pelos US$ 6 milhões. Ao recorrer à Justiça dos Estados Unidos para pedir o reembolso da referida cifra por taxas pagas durante o “tarifaço” imposto no governo Donald Trump, conforme anunciado ao mercado, a Eucatex tem em mente uma conta bem mais ampla. No cálculo dos Maluf, acionistas controladores, o processo é menos uma disputa pontual por valores desembolsados e mais um movimento estratégico para proteger a posição da empresa no mercado norte-americano, hoje o principal destino de suas exportações. Cerca de 75% das vendas externas da fabricante de painéis de madeira seguem para os Estados Unidos, o que torna qualquer distorção tarifária um fator potencialmente relevante para sua competitividade.
O pedido de ressarcimento está amparado em decisões recentes da Justiça americana que consideraram ilegais determinadas tarifas aplicadas no período. Ao levar o caso adiante, a Eucatex busca também estabelecer um precedente que possa abrir caminho para compensações futuras e evitar cobranças semelhantes adiante. Em disputas comerciais desse tipo, a criação de jurisprudência costuma ter impacto muito maior do que o valor inicial da ação.
Lula convidou o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, para integrar o núcleo central de sua campanha à reeleição. No Palácio do Planalto, a avaliação é que Fávaro tornou-se uma peça valiosa, tanto pelo setor em que milita quanto por questões de ordem geográfica. Desde o início do mandato, o ministro tem cumprido a tarefa hercúlea de tentar reduzir a distância entre o governo e o agronegócio. Ao mesmo tempo, desponta como um importante aliado de Lula no Centro-Oeste, região em que o bolsonarismo nada de braçada e mantém forte hegemonia eleitoral. Fávaro carrega outros handicaps que serão úteis para o presidente durante a campanha. Sob a sua gestão, o valor do Plano Safra cresceu 51%. A abertura de novos mercados para produtos brasileiros e os sucessivos planos safra também reforçam a narrativa de que a gestão Lula gerou ganhos para o agro.
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