Jorio Dauster - Relatório Reservado

Artigos: Jorio Dauster

Quo vadis, Donaldus? I

14/04/2025
  • Share

A frase latina “Quo vadis?” significa “Para onde vais?” e consta de um antiquíssimo relato apócrifo segundo o qual, fugindo da perseguição promovida pelo Imperador Nero, São Paulo encontra Jesus ressuscitado e pergunta para onde ele vai, recebendo como resposta: “Vou a Roma para ser crucificado de novo”. No entanto, com o tempo, a carga religiosa da citação foi se esvaindo e a pergunta passou a ser dirigida a todos aqueles que parecem sem rumo – motivo pelo qual podemos empregá-la nos dias de hoje para indagar aonde quer chegar o imperador Donaldus, que, pelo jeito, mudou seu trono de Roma para Washington.

As dúvidas universais sobre os reais propósitos dessa personificação do presidente norte-americano se tornaram mais agudas em virtude da recente reviravolta ocorrida na questão do tarifaço. Segundo os áulicos de Donald Trump, tratou-se simplesmente de mais uma cartada do mestre, que já obtivera o resultado desejado ao trazer à mesa de negociação dezenas de “ass kissers” (tradução literal vedada para alminhas delicadas), com a óbvia exceção da atônita nação de camponeses que atende pelo nome de China. Mas somente um “imbecil” do porte do czar das tarifas, Pete Navarro, segundo a caracterização pública dele feita por Elon Musk, não veria que o presidente de fato “amarelou” diante dos trilhões de dólares que evaporaram no curso de poucos dias em todas as bolsas de valores do planeta.

E, sem dúvida, quando bilionários como Sam Altman e Musk, embora adversários declarados, vieram a público condenar a festa do Dia da Libertação, não restou alternativa a Trump senão proclamar como vitória uma pausa de 90 dias enquanto aplicava a todos os países uma taxa de 10% (exceção feita, cumpre repetir, do inimigo n° 1). Pior ainda, numa notinha lançada sem fanfarras, uma obscura repartição pública anunciou mais recentemente a eliminação de tarifas sobre celulares e dezenas de outros produtos eletrônicos, incluindo aqueles provenientes da China e com efeito retroativo. Xi Jinping e os tech-bilionários devem ter soltado gargalhadas de abalar os alicerces da Casa Branca!

Não surpreende que os mercados financeiros tenham recuperado ao menos parte do que haviam perdido na semana anterior ao que Tio Sam chama de flip-flop, mas o saldo final está longe de representar um alívio permanente. Em primeiro lugar, porque Trump perdeu definitivamente o que restava de confiança entre amigos e inimigos no mundo todo, mas também no seu próprio país, como já o demonstram as pesquisas de opinião pública. Em segundo lugar, e mais importante, porque a suspensão da aplicação dos tarifaços é, mais uma vez, temporária, permanecendo assim a ameaça mafiosa de que a loja ainda pode ser arrebentada com bastões de beisebol ou decepada a cabeça do cavalo de estimação. Em terceiro lugar, como consequência dos fatores já indicados, porque permanece ou mesmo se agrava o clima generalizado de incerteza que os empresários e financistas odeiam – e que tornam inviável qualquer investimento de peso em qualquer lugar.

Com isso, a reindustrialização dos Estados Unidos pretendida pelo presidente fica ainda mais distante, sendo substituída por ações como aquela tomada pela Apple ao encher enormes aviões de carga na Índia para importar 1,5 milhão de celulares antes da imposição das tarifas que incidiriam sobre aquele país. Imaginem, como é previsível, que outros setores que necessitam de importações maciças façam o mesmo para acumular estoques nesses 90 dias. Só a indústria de roupas importa quase US$ 100 bilhões anualmente de países como Bangladesh, Camboja, Índia, Indonésia e Paquistão, todos mortalmente atingidos pelo tarifaço.

Ora, é bem possível que nesses próximos três meses o valor das compras externas dos Estados Unidos registre um aumento excepcional, mas já podemos também prever qual será a narrativa falsa da Casa Branca: como tais compras terão de pagar o pedágio de 10%, Trump dirá que a receita derivada da aplicação das tarifas teve um crescimento formidável, demonstrando como era correta e brilhante sua estratégia! E não faltarão os aplausos dos vassalos desmiolados.

A chantagem tarifária perturba gravemente todas as cadeias de suprimento em nível global, mas terá impactos de curto prazo na economia real sobretudo dentro dos próprios Estados Unidos devido à suspensão de facto das importações provenientes da China (com as vergonhosas exceções que já surgiram). É óbvio ademais que as incertezas sobre o futuro aumentam a probabilidade de recessão e inflação também em escala planetária. Mas há riscos ainda maiores para os Estados Unidos de que trataremos em outro artigo.

Jorio Dauster é colaborador especial do Relatório Reservado

 

#Donald Trump #Estados Unidos #Política Externa

Eleitores de Trump merecem uma boa dose de schadenfreude?

7/04/2025
  • Share

Embora eu infelizmente não fale alemão, há uma palavra naquele idioma que sempre me encantou por expressar um sentimento humano que não encontra equivalente em nenhuma outra língua e ao qual talvez só sejam imunes os santos: schadenfreude. Literalmente, a alegria malévola sentida diante do infortúnio sofrido por outrem. Impossível desconhecer que tal sentimento transparece no noticiário sobre as perdas gigantescas sofridas pelas chamadas big techs devido ao derretimento das bolsas norte-americanas provocado pelo tarifaço de Trump.

Esse júbilo maldoso do qual – cumpre confessar – muitos de nós participamos se dirige em particular àqueles bilionários que acorreram sorridentes à posse de Donald Trump no Capitólio, tais como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, que já viram evaporar algumas dezenas de bilhões de seus patrimônios.  Mas, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg, o estrago tem grande amplitude: as perdas no mercado já excedem US$ 200 bilhões para os 500 indivíduos mais ricos do mundo.

No entanto, todos parecem esquecer que os mercados de ações norte-americanos são também um refúgio para investidores de todo o planeta e, em especial, o abrigo antes considerado inexpugnável para a poupança da classe média do país. É difícil encontrar dados sólidos sobre os valores envolvidos, mas basta assinalar que, no ano passado, mais da metade das famílias norte-americanas tinham seus recursos aplicados em fundos mútuos, no valor de US$ 71 bilhões. Não é difícil imaginar quão dolorosas serão para os cidadãos atingidos as perdas já ocorridas e aquelas que ainda podem vir por aí caso sejam mantidas as tarifas em vigor – como Trump acaba de confirmar. Se a isso se somar uma aceleração da inflação e uma recessão econômica, o padrão de vida presente e futuro de boa parte da população do país estará seriamente ameaçado.

E, então, vem a pergunta que não pode ser calada: quantos dos vitimados votaram em Trump sem acreditar que ele faria tudo que proclamava durante a campanha? Esses também merecerão uma boa dose de schadenfreude?

#Donad Trump #Economia #Estados Unidos

Bye, bye, Elon Musk

4/04/2025
  • Share

Avolumam-se em Washington os rumores de que Elon Musk deverá abandonar sua participação direta no governo de Donald Trump dentro de algumas semanas. Contrariando a expectativa de muitos observadores em todo o mundo, esse “divórcio” não resulta de um choque entre dois ególatras arrogantes, pois o presidente, além de ter feito o papel ridículo de garoto-propaganda ao comprar um veículo da Tesla nos jardins da Casa Branca, continua a louvar publicamente e em reuniões ministeriais o grande financiador de sua campanha eleitoral.

Como sói acontecer, já vão sendo montadas nos bastidores duas narrativas para justificar tal fato de forma positiva. A primeira tem a ver com a circunstância de que Musk, cujo nome suscitaria fortes resistências caso precisasse ser levado ao Senado por conta de uma nomeação formal, vem comandando o DOGE (Departamento de Eficiência Governamental) e executando sua razzia na administração federal como “empregado especial do governo”. E essa condição esdrúxula tem um prazo-limite de 130 dias, que vence em fins de maio ou começo de junho. No passado, fontes ligadas à Casa Branca diziam que a restrição seria contornada, mas agora essas bazófias parecem estar sendo esquecidas.

A outra versão risonha é dada pelo próprio Musk, que afirmou à FOX News já haver praticamente encerrado a missão de cortar US$ 1 trilhão do déficit governamental. Assim, ele e Trump poderão dizer que o grande general venceu a guerra em tempo recorde e se retira triunfante do campo de batalha.

Mas a realidade é bem mais complexa. Entre os ministros de Trump, auxiliares mais próximos na Casa Branca e líderes do Partido Republicano já vinha crescendo há algum tempo a preocupação com a imprevisibilidade e independência decisória de Musk até na eliminação de agências governamentais. Na população em geral, mesmo antes do tarifaço, as pesquisas de opinião pública também mostravam uma queda na aprovação de Trump e de Musk, porém muito mais acentuada no caso do bilionário, que já conta com uma alta percentagem de entrevistados insatisfeitos com as cruéis medidas que implementou. Essa insatisfação tem reflexos contundentes nos atos de vandalismo contra os carros da Tesla, seus revendedores e até postos de recarga das baterias, sem falar no boicote que se propaga no Canadá e na Europa.

No entanto, a ideia de que Musk é um perigo para o Partido Republicano só se cristalizou no dia 1º de abril, quando a juíza Susan M. Crawford foi eleita para a Suprema Corte de Wisconsin e manteve no órgão uma maioria liberal de 4 a 3. Acontece que Musk participou de forma intensíssima na campanha de seu adversário, não com uma inédita doação de US$ 25 milhões, mas postando frequentes mensagens na conta do X e fazendo numerosas aparições públicas em que previa horrores para aquela unidade da federação caso seu candidato perdesse. A vantagem de 10 pontos percentuais da vencedora foi vista como um alerta para os republicanos em todo o país.
No mesmo dia, dois republicanos ganharam as eleições especiais na Flórida para a Câmara de Deputados, mas em distritos conservadores onde Trump vencera com uma margem de mais de 30%. As maiorias agora registradas foram, surpreendentemente, inferiores a 20%, acendendo de vez o sinal vermelho nas hostes trumpistas e novas esperanças num combalido Partido Democrata.

Mas tudo isso são apenas as primeiras escaramuças numa guerra que tem dia marcado para ocorrer: em 3 de novembro de 2026, daqui a somente um ano e meio, um total de 468 assentos no Congresso (33 no Senado e todos os 435 na Câmara de Deputados) estarão sendo disputados nas urnas de todo o país. Nesse momento será definido o êxito ou fracasso da administração Trump – e as primeiras fichas já começam a aparecer na mesa, inclusive mediante a oportuna despedida de Musk.

#Elon Musk #Jorio Dauster

A loucura de Trump: uma falácia bem exitosa

11/03/2025
  • Share

Jorio Dauster, colaborador especial

A enxurrada de declarações estapafúrdias e fantasiosas que flui diariamente da Casa Branca, bem como as reviravoltas frequentes nas questões tarifárias, têm levado muitas pessoas a dizer, perplexas: “Esse Trump é doido de pedra!” Doce e ledo engano, estão sendo induzidas a confundir astúcia com demência.

Não há dúvida de que o presidente dos Estados Unidos revela traços de personalidade perturbadores que são objeto de especulação por psiquiatras de todo o mundo. A opinião geral dos especialistas é de que ele apresenta diversos sintomas do transtorno de personalidade narcisista, uma conhecida condição psiquiátrica que se caracteriza pela arrogância, falta de empatia e necessidade de admiração, combinada em seu caso com um espírito vingativo dirigido a todos que supostamente o perseguem. Mas daí à loucura existe uma larga faixa em que Trump vem operando com sucesso há décadas.

Vejamos de início a questão dos pronunciamentos sensacionalistas e carregados de fake news. Com sua experiência de showman na televisão, Trump passou a utilizar as redes sociais em 2009, tendo tuitado cerca de 57 mil vezes nos doze anos seguintes! Desse total assombroso de mensagens, muitas delas de caráter racista e homofóbico ou propagando teorias conspiratórias, aproximadamente oito mil foram postadas durante sua campanha para a presidência nas eleições de 2016 e mais de 25 mil durante os quatro anos de seu primeiro mandato, quando foram suspensas as entrevistas diárias da porta-voz de imprensa da Casa Branca e os tuítes passaram a ser declarados como manifestações oficiais. Não é de admirar que, no momento em que o Twitter (pré-Musk) suspendeu Trump da plataforma em 8 de janeiro de 2021 na esteira do ataque ao Capitólio, ele tinha aproximadamente 90 milhões de seguidores.

A maestria de Trump na manipulação das redes sociais voltou a ficar evidente na campanha em que derrotou uma adversária mais chegada às formas tradicionais de fazer política, sobretudo mediante o uso da televisão. Para dar apenas um exemplo, a narrativa fictícia de que imigrantes haitianos comiam os cachorros e gatos de estimação na cidade de Springfield, Ohio, embora desmentida de forma cabal e reiterada, se transformou numa das principais bandeiras trumpianas na cruzada para deportar os “malignos invasores” do país. Não surpreende, pois, que ele continue a se valer de um recurso valiosíssimo desde que voltou ao poder ao declarar recentemente, por exemplo, que Musk havia descoberto haver “milhões e milhões de pessoas com mais de 100 anos recebendo benefícios previdenciários”.

Mas, para nós brasileiros, o mais interessante, por assim dizer, é que seus métodos foram obedientemente copiados aqui por Jair Bolsonaro e seu gabinete do ódio. conquistando um domínio valiosíssimo das redes sociais. Como toque pessoal, Bolsonaro substituiu as conferências de imprensa pelas comunicações diretas com seus eleitores no famoso “cercadinho” situado em frente ao Palácio da Alvorada. Além das extravagâncias e invencionices proclamadas a cada manhã, o ex-presidente também aproveitava aquelas ocasiões para hostilizar os representantes da imprensa escrita, falada e televisiva que eram contrários a seu governo, tornando o local perigoso para os profissionais que precisavam se misturar aos apoiadores inflamados que compareciam para festejar um mito.

Donald Trump deverá continuar a utilizar uma ferramenta que pode fazê-lo parecer louco, mas que serve de fato a propósitos políticos friamente ponderados e testados ao longo do tempo. O objetivo consiste em criar uma cortina de fumaça, sustentada paradoxalmente pela própria mídia que se vê obrigada a comentar o conceito estrambótico do dia e verificar sua autenticidade, deixando assim de analisar com a devida profundidade as ações e omissões efetivas do governo. E a patuleia que o idolatra acreditará em suas palavras como se tivessem origem divina sem conhecer os questionamentos e desmentidos posteriores.

Já as cambalhotas na área do comércio internacional, parte integral do que chamo de diplomacia da chantagem, são mais fáceis de entender embora também possam parecer tresloucadas à primeira vista. Seu propósito é desequilibrar o “inimigo”, colocando-o numa situação de total incerteza porque se mantém erguida sobre sua cabeça a espada de Dâmocles da aplicação efetiva das tarifas punitivas. Assim, Trump espera obter concessões adicionais ao se aproximar cada data fatal, buscando humilhar os líderes com os quais se defronta quando eles demonstram publicamente o desejo de buscar soluções amigáveis. Esses gestos de “rendição”, por sua vez, minariam o apoio interno de que os chefes de Estado visados necessitam para reagir à altura com medidas retaliatórias.

Há, portanto, uma lógica perversa e poderosa na aparente loucura, mas às vezes o feitiço vira contra o feiticeiro: Pierre Trudeau (que estava nas cordas) e Claudia Sheinbaum, com suas firmes respostas às ameaças de Trump, foram capazes de mostrar que estão prontos a atender a certas exigências do parceiro agressivo sem, contudo, comprometer a soberania de suas nações e sem abandonar a possibilidade de aplicar tarifas retaliatórias. E nunca alcançaram níveis tão altos de popularidade.

#Donald Trump #Estados Unidos

Estados Unidos ou Lojas Americanas?

6/03/2025
  • Share

Muitos acadêmicos e comentaristas buscam encontrar paralelos históricos ou enquadramentos doutrinários a fim de explicar as ações de Donald Trump no seu primeiro mês e meio na Casa Branca. Mas um bom número deles já entendeu que a explicação básica é surpreendentemente comezinha: Mr. Donald age como o gerente de uma cadeia de lojas que, a seu ver, encontrou o negócio em situação pré-falimentar devido aos erros do antecessor e deve, por isso, executar as medidas de recuperação que se encontram em qualquer manual para empresários encrencados: cortar gastos fechando lojas menos eficientes e/ou despedindo parte significativa da força de trabalho; renegociar aluguéis e o custo dos serviços; obrigar os grandes fornecedores a baixar o preço de seus produtos ou oferecer maiores prazos de pagamento – e por aí vai.

E ele entende bem disso. Embora nunca tenha pedido falência pessoal, Trump recorreu à recuperação judicial (o chamado Chapter 11 nos Estados Unidos) para quatro de seus negócios: Taj Mahal, em 1991; Trump Plaza Hotel, em 1992; Trump Hotels and Casinos Resorts, em 2004; e Trump Entertainment Resorts, em 2009 – sem dúvida, deixando uma legião de credores e investidores bem infelizes. Nesses casos, as empresas – essencialmente cassinos em Atlantic City – se mantêm vivas, mas a participação de Trump passou a ser irrelevante.

No entanto, uma tentativa fracassada de recuperação judicial leva a empresa à falência por várias razões: falta de planejamento competente para lidar com a crise, dispensa de funcionários estratégicos, reação dos supridores às exigências agressivas em matéria de preços, escolha errada das lojas a permanecerem abertas etc. – fatores que, na ponta, se refletem na deterioração da qualidade do serviço oferecido aos fregueses.

Acontece que um país – sobretudo a maior potência mundial nos últimos cem anos – não pode ser administrado como um simples negócio. Ao longo dos últimos séculos foi sendo construída a chamada “ordem internacional”, um complexo conjunto de regras, instituições e acordos capazes de disciplinar as interações entre nações soberanas cujo objetivo final consiste em evitar conflitos e proteger os direitos humanos. Significativamente, parte importante dessa estrutura foi criada desde a Segunda Grande Guerra por inspiração dos Estados Unidos para garantir sua posição hegemônica no mundo. E essas conquistas da humanidade, que ultrapassam de muito o horizonte de um gerente de lojas, estão sendo hoje desprezadas por Trump, como demonstrado pela retirada do país da OMS e do Acordo de Paris.

Na área do comércio internacional, relevante elemento da ordem global, a diplomacia da chantagem instituída por Trump escolheu como arma predileta a imposição de tarifas. Ignora, assim, que dois séculos e meio atrás o próprio Adam Smith já caracterizava essas tentativas de substituir a demanda de importações pelo aumento da produção interna como uma forma de “beggar thy neighbor” (ou, em tradução vulgar, “que se dane meu vizinho”). Como esses vizinhos não estão dispostos a serem empobrecidos em favor do parceiro agressivo, a tendência é que se trave uma guerra tarifária como aquela vista com trágicos resultados durante a Grande Depressão da década de 1930. E, em última instância, semelhantemente ao que acontece com os fregueses numa cadeia de lojas mal administrada, são os cidadãos do país que terminarão pagando mais caro por produtos essenciais de consumo.

Como já vimos que reina o caos na mente e na administração de Trump, com mudanças de postura a cada 24 horas, devemos aguardar para ver o que, de toda a algaravia produzida na Casa Branca, é mera bazófia ou se reflete em medidas concretas. Até lá, a única certeza é que nos meios políticos e econômicos mundiais já se instalou um clima de grande incerteza, senão de pânico, que afeta negativamente todas as decisões públicas e privadas. Para os amantes da distopia, é recomendável a leitura (ou releitura) de “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, “1984”, de George Orwell, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury.

 

#Donald Trump #Estados Unidos

Gold Card: uma oportunidade de ouro para a bandidagem internacional

27/02/2025
  • Share

Seria ridículo se não fosse um risco imenso para os Estados Unidos e para o resto do mundo: enquanto expulsa do seu território os “soldados” dos cartéis, gangues de assaltantes e organizações terroristas, Donald Trump anuncia que concederá a cidadania norte-americana a seus chefes em todo o planeta pela irrisória quantia de US$ 5 milhões, quando esses senhores do crime comandam atividades variadas que rendem anualmente bilhões e bilhões de dólares.

Evidente que será implementado algum sistema de triagem para as centenas de milhares de candidatos a esse precioso cartão, mas as incursões da dupla Trump-Musk contra o FBI, a CIA e outras agências de inteligência já prejudicarão esse esforço. Além das fraudes facilitadas pela IA, sem dúvida há milhões de bandidos nos quatro continentes não fichados que buscarão para sempre a proteção da cidadania norte-americana.

Assim, não se surpreendam até mesmo se, em breve, a polícia do Rio de Janeiro tiver de enfrentar “americanos” nas vielas das comunidades que margeiam a Avenida Brasil e a Linha Amarela.

#Donald Trump #Estados Unidos #Jorio Dauster

A primeira salva de tiros

21/02/2025
  • Share

Não por coincidência, algumas horas depois que Jair Bolsonaro e outras 33 pessoas foram denunciadas pela Procuradoria Geral da República por organização criminosa com o objetivo de levar o país a uma ruptura democrática, o grupo Trump Media & Technology Group (TMTG), do qual o presidente norte-americano é sócio majoritário, entrou com um processo contra Alexandre Moraes num tribunal federal da cidade de Tampa. A empresa juntou-se ao Rumble, uma plataforma de vídeo baseada na Flórida, a fim de impedir as tentativas do juiz da Suprema Corte brasileira de alegadamente forçar tal plataforma a censurar contas pertencentes a um usuário brasileiro baseado nos Estados Unidos. Deixo aos juristas a incumbência de analisar tal processo que, segundo um excelente advogado de Washington, meu amigo, seria inválida à luz da doutrina estabelecida e, de todo modo, não exerceria efeitos no Brasil.

O que nos interessa é entender por que o próprio New York Times teria definido a ação como “incomum” e “extraordinária”. E o motivo é óbvio: trata-se do primeiro gesto concreto de Donald Trump, usando um instrumento que lhe pertence pessoalmente, contra a figura brasileira que simboliza toda a reação nacional contra as comprovadas tentativas do ex-chefe de Estado de subverter o resultado das urnas nas eleições de 2022. Nesse sentido, sem dúvida significa que frutificaram os apelos de Bolsonaro e seus seguidores, em particular do filho Eduardo, no sentido de mobilizar o atual ocupante da Casa Branca em seu favor, esforço que anteriormente estava concentrado sobretudo nas mãos de Elon Musk e Steve Bannon.

De certo só temos que se trata da primeira salva de tiros, mas certamente outras virão no curso do julgamento que em breve terá início no Supremo Tribunal Federal. E o importante é que o governo se prepare para lidar com esses gestos de caráter pessoal ao mesmo tempo em que deverá ser chamado a responder a incursões a nível de Estado, como, por exemplo, a imposição de tarifas a produtos exportados pelo Brasil. No entanto, em ambos os casos é altamente recomendável que o presidente Lula deixe de comentar as ações de Trump em falas informais, só reagindo, com o necessário e sopesado vigor, diante de decisões concretas que nos afetem materialmente. Para tal, poderia mirar-se no exemplo de Claudia Sheinbaum, que reage com dignidade, mas também com sobriedade a ameaças reais à soberania do México, em especial depois que Trump, em 20 de janeiro, designou os cartéis de traficantes de drogas como organizações terroristas. Ao longo do delicado processo que se anuncia, Lula deve contar com a experiência do Itamaraty, que sem dúvida está amplamente qualificado a servir de porta-voz quando necessário e contribuir na redação dos textos que guiariam as manifestações presidenciais.

#Donad Trump #Jair Bolsonaro #PGR

Uma limpeza racial na Faixa de Gaza

11/02/2025
  • Share

Como a Jordânia e o Egito recebem bilhões de dólares de assistência anualmente dos Estados Unidos, supostamente em troca das bases militares mantidas nesses países, Donald Trump os tem, como dizem os de lá, “by the balls” e exercerá ao máximo o que já chamei de diplomacia da chantagem. Difícil crer que seus dirigentes possam ceder diante da importância que os árabes dão historicamente à solução dos dois Estados, dos imensos problemas internos de cunho político, econômico e social que adviriam da absorção por ambos de dois e meio milhões de palestinos e pela resistência de seus próprios povos a tal imposição imperialista dos Estados Unidos. Porém a ameaça de suspensão total e imediata das “mesadas” pode ser um golpe mortal para esses dirigentes.

Teremos de ver se eles sustentam as negativas já feitas. No entanto, o que parece impensável é o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos, certamente com o apoio das israelenses, para impor violentamente a saída de Gaza dessa imensa população composta por tantas mulheres e crianças. Na história moderna, isso só encontra paralelo no deslocamento de milhões de judeus pelos nazistas como parte do que as vítimas não sabiam ser uma solução final. O que Trump está proclamando, com o endosso alegre de “Bibi” Netanyahu e da ultradireita de Israel, é uma limpeza racial e o extermínio de um povo.

#Faixa de Gaza #Jorio Dauster

Donald Trump e a “diplomacia” da chantagem

5/02/2025
  • Share

A partir de hoje o RR passa a contar com as análises de um “colaborador especial”: o embaixador Jorio Dauster. Jorio é diplomata de carreira. Foi secretário do consulado brasileiro em Montreal e nas embaixadas de Praga e Londres . Também na capital inglesa, chefiou o escritório do então poderoso Instituto Brasileiro do Café, do qual viria a ser presidente. Jorio foi ainda negociador-chefe da dívida externa, no governo Collor, e embaixador do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas. Ocupou também a presidência da Vale. Em sua coluna de estreia, Jorio desconstrói o uso da chantagem como instrumento “diplomático, expediente que está no centro a política externa de Donald Trump no espocar do seu segundo mandato.

 

Jorio Dauster

Nenhum país pode impunemente fazer política externa chantageando seus aliados. Depois do que aconteceu com México e Canadá, de que vale um acordo comercial negociado com os Estados Unidos e aprovado pelos congressos dos três países como o USMCA, sucessor do NAFTA? Quem acreditará em qualquer outro acerto com Trump se as normas internacionais, desenvolvidas ao longo de séculos para oferecerem certa segurança no relacionamento entre nações independentes, podem ser rasgadas ao bel-prazer de um suposto estadista que, no dia seguinte, trombeteia publicamente a humilhação imposta a seus vizinhos? Mas é preciso ficar claro que não se trata de gestos ocasionais ou tresloucados. Trump assumiu a presidência com o propósito declarado de torpedear um arranjo internacional que fora promovido pelos próprios Estados Unidos quando era de longe o país hegemônico a fim de substituí-lo por uma (des)ordem internacional em que aquilo que resta de poder norte-americano possa ser explorado sem amarras formais. A saída do Acordo de Paris e da Organização Mundial de Saúde, bem como o desmonte da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), são outros sinais do que vem pela frente. E a Europa já sabe que será o próximo alvo.

#Donald Trump #Jorio Dauster

Todos os direitos reservados 1966-2026.

Rolar para cima