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Não há soberania nacional, garantia de suprimento bélico ou preservação de tecnologias sensíveis que justifiquem a permanência da Imbel sob controle do Estado. Por qualquer ângulo que não seja o seu simbolismo para o Exército, a empresa já deveria ter encontrado uma solução pela via do mercado. A própria discussão nos Ministérios da Defesa e da Fazenda sobre a adoção de contratos de gestão, a exemplo do modelo cogitado para os Correios, como forma de reduzir sua dependência do Tesouro somente reforça que a companhia não anda mais com seus próprios pés. Se dependesse da avaliação técnica da equipe do Ministério da Fazenda, a solução poderia ser a sua simples privatização. Até porque existem candidatos manifestos. Segundo o RR apurou, nos últimos meses dois grupos da área de defesa levaram ao governo o seu interesse na compra da Imbel, inclusive com planos de investimento previamente definidos. No entanto, não encontraram um terreno favorável ao avanço nas conversas. Há também a dificuldade de formação de preço. Qual é o valor intangível que a empresa tem para o Exército?
Qualquer solução para a Imbel depende de uma articulação consensual com o estamento militar. Em contato com o RR, o Exército fez questão de ressaltar que a estatal “representa a capacidade fabril de produtos de defesa, os quais, muitas vezes são negados, tanto por empresas, como por governos”. A Força diz também que a companhia “funciona, ainda, como ‘braço fabril’ do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército”. Hoje, a instituição compra da estatal armamentos, explosivos, munições e equipamentos de comunicações e eletrônica. Perguntado sobre a possibilidade de privatização da Imbel, o Exército enfatiza que “a empresa, na condição atual, tem como responsabilidade assegurar a manutenção das capacidades das Forças Armadas, tendo como foco a política pública de servir ao Estado, ao invés de objetivar somente o lucro”. Há um fundo de verdade em todas as afirmações da Força. Mas, sem recursos, a Imbel é incapaz de cumprir esses objetivos. Os investimentos na companhia deveriam ser muito superiores. Porém, se praticamente todo o orçamento do Exército é alocado ao custeio de pessoal, sobram migalhas para vitaminar a companhia.
Haveria formas e formas de vender a Imbel. E certamente todas passam pela preservação dos interesses estratégicos das Forças Armadas. O desenho da operação poderia — e deveria — incorporar salvaguardas contratuais explícitas. A venda do controle seria condicionada à celebração de contratos de longo prazo com o Exército, prevendo garantias mínimas de fornecimento, cláusulas de prioridade em situações de emergência, metas de investimento em P&D e manutenção de determinadas capacidades industriais consideradas estratégicas. Para os próprios investidores, um contrato estruturado com as Forças Armadas funcionaria como âncora de receita e mitigador de risco, reduzindo a incerteza típica do setor.
Hoje, há uma espécie de dilema de Tostines aplicado à Imbel: a estatal é dependente do Tesouro porque produz e fatura pouco ou produz e fatura pouco porque é dependente do Tesouro. Por uma lógica perversa, a garantia das verbas do erário pode estar por trás da ociosidade das fábricas, estagnação produtiva, dificuldade de desenvolvimento de novas tecnologias e equipamentos e falta de competitividade no mercado externo. O regime de empresa estatal federal dependente do Tesouro impõe uma série de amarras. Além da subordinação a recursos sujeitos a contingenciamentos, bloqueios, atrasos de liberação, essas companhias não controlam o próprio fluxo de caixa. Assim como suas congêneres, casos da Embrapa, Hemobrás, Conab, Codevasf, entre outras, a Imbel não tem previsibilidade plurianual. Indexada ao Orçamento da União, quando muito consegue enxergar no máximo um horizonte de 12 meses. Para uma indústria intensiva em capital – ao menos deveria ser -, essa incerteza é um tiro de canhão. Trava contratações de matéria-prima em maior escala e a possibilidade de um planejamento industrial de longo prazo – o que, em grande parte, ajuda a entender a ociosidade de suas cinco fábricas. O desenvolvimento de armas, munições e congêneres exige ciclos longos de P&D e alta capacidade de investimento contínuo. A Imbel não tem nem uma coisa nem outra.
A Imbel está presa a um círculo vicioso: recebe poucos recursos e entrega de volta ainda menos. Entre 2020 e 2024, os repasses do Tesouro à empresa somaram R$ 661 milhões. Já o faturamento da empresa no mesmo intervalo foi inferior: R$ 648 milhões. Ou seja: em uma conta meramente ilustrativa, para cada real recebido do erário, a Imbel gerou apenas R$ 0,98 em vendas. Ano após ano, a empresa apresenta indicadores financeiros esquálidos, proporcionalmente muito aquém das cifras movimentadas pela indústria de defesa. Em 2024, último dado disponível, a estatal teve uma receita de apenas R$ 166 milhões, alta de 8% em relação ao exercício anterior, e um lucro de R$ 9 milhões, queda de 90% em comparação a 2023.
No Ministério da Defesa e no Alto-Comando do Exército ricocheteiam discussões em relação ao futuro da Imbel. A ideia mais debatida é justamente sua transformação em empresa estatal não dependente do Tesouro e a consequente assinatura de um contrato de gestão com a Pasta da Defesa. Segundo uma fonte do RR, a solução poderia até passar pela criação de um híbrido de public company com golden share. Um ornitorrinco concebido com finalidade específica. Em contato com o RR, o Exército confirmou que a proposta do contrato de gestão “foi tratada em 2025, porém ainda não houve evolução do tema”. E ainda que haja, a essa altura essa é uma solução que não soluciona, dado o gap tecnológico, produtivo e comercial da Imbel.
Na prática, a Imbel é um conglomerado industrial heterogêneo e de escala limitada, com linhas que vão de armas leves a explosivos e insumos químicos, passando por munição de grosso calibre e equipamentos de comunicações/eletrônica. A quase totalidade da sua produção é absorvida pelas Forças Armadas. Exportações? Sabe-se que no passado a companhia vendeu armamentos para Botsuana, África do Sul, Estados Unidos e Austrália. Hoje, no entanto, não há qualquer dado sobre a inserção da estatal no mercado internacional de defesa.
A própria relação do Exército com a Imbel é um tanto quanto esquizofrênica. Ainda que por vias oblíquas, a estatal suga recursos do Ministério da Defesa que poderiam ser investidos diretamente no aparelhamento da Força. Ou seja: ambos disputam a mesma fonte pagadora. De toda a forma, apesar do atraso tecnológico e das restrições financeiras, o debate sobre a Imbel não pode ignorar que ela dispõe de ativos industriais associados à Base Industrial de Defesa que, ao menos em tese, possuem relativo valor estratégico. O que, aliás, se comprova pelo interesse de investidores privados. A venda do controle ajudaria, inclusive, a desatar outras amarras que vão além da questão orçamentária. Quando surgem oportunidades de exportação, que já são raras, a estatal por vezes esbarra em níveis intermediários da burocracia, que vão do Itamaraty à Pasta da Defesa até chegar ao próprio Palácio do Planalto. A decisão final é quase sempre política.
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