Até quando o BC vai se sentar em cima da operação BRB-Master?

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Até quando o BC vai se sentar em cima da operação BRB-Master?

  • 28/08/2025
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BRB e Master tornaram-se protagonistas involuntários de uma versão bancária da Divina Comédia de Dante. No papel de Caronte, o Banco Central. Ainda que não seja por deliberada intenção, mas por omissão, o BC age como se quisesse carregar a associação entre as duas instituições financeiras diretamente para o inferno. Se, neste momento, há um fator de risco nessa operação, ele não está em nenhuma das partes.

147 dias já se passaram desde que o BRB anunciou a compra de 49% das ações ordinárias e de 100% das ações preferenciais do Master sem que o BC tenha dado seu veredito. E sem qualquer horizonte de quando o fará – o Cade, por exemplo, chancelou o acordo em 81 dias; a Assembleia Legislativa do Distrito Federal, por sua vez, também já deu seu aval no último dia 19 de agosto.

A demora do BC ultrapassa o tempo gasto pela autoridade monetária para apreciar outras negociações no setor bancário. Apenas a título de comparação, vamos a alguns exemplos. A aprovação da venda do Conglomerado Alfa para o Banco Safra demorou 139 dias. A autorização para a compra da Avenue Holding pelo Itaú Unibanco saiu em 82 dias. A transferência dos ativos do Credit Suisse no Brasil para o UBS, no âmbito de uma operação de abrangência global, recebeu o nihil obstat do BC em apenas 60 dias.

Proporcionalmente, no entanto, talvez nada supere a venda em pele de fusão do Unibanco para o Itaú. O BC aprovou o negócio em 107 dias, praticamente em regime de fast track se levarmos em consideração as delicadas circunstâncias que cercavam a operação. O próprio Master já conheceu esse lado mais resoluto e menos procrastinador do Banco Central. No ano passado, o BC autorizou a aquisição do Banco Voiter em apenas 49 dias.

O RR encaminhou uma série de perguntas de perguntas ao Banco Central, mas a instituição não quis se manifestar.

O que chama mais atenção é que BRB e Master já atenderam a todos os requerimentos do Banco Central. Segundo o RR apurou, o BC solicitou informações adicionais sobre 21 tópicos da operação, todas já fornecidas entre julho e o início de agosto.

As duas instituições também já cumpriram uma série de recomendações, orientações e exigências para a aprovação do negócio. Desde o anúncio do acordo, por exemplo, o Master recebeu dois aportes de capital do seu acionista controlador, Daniel Vorcaro, cada um no valor de R$ 1 bilhão.

O próprio Vorcaro vendeu cerca de R$ 1,5 bilhão em ativos de sua propriedade (entre os quais participação societária de 15,2% na Light e de 8,1% na Méliuz e um imóvel do Hotel Fasano) para injetar recursos no banco. Ao todo, os ajustes feitos pelo Master desde o anúncio da operação com o BRB somam algo em torno de R$ 23 bilhões.

A demasiada demora na análise da operação pelo Banco Central, os excessivos óbices colocados no percurso e mesmo as informações desencontradas que saem de dentro do próprio órgão regulador têm contribuído apenas para aumentar a percepção de fragilização do negócio e, no limite, do próprio BRB e do Master.

É como se o BC, ao postergar a solução, estivesse concorrendo para que as previsões menos favoráveis sobre o acordo se transformassem em uma profecia autorrealizável. Os movimentos erráticos do órgão regulador causam insegurança e surgem como um fator de depreciação dos ativos do BRB e do Master, além de fomentar toda uma narrativa contrária à operação que vem sendo alimentada desde a primeira hora por interesses difusos e motivações inconfessáveis.

Essa máquina difamatória elevou artificialmente a associação entre o BRB e o Master à enésima potência em termos de percepção de risco sistêmico e impacto sobre o setor bancário. E o BC pouco ou nada tem ajudado a conter esse jogo de intrigas.

Vide o próprio noticiário. Segundo levantamento exclusivo feito pelo RR, desde o anúncio da operação, em 28 de março deste ano, os 40 veículos jornalísticos de maior audiência do país publicaram até o dia de ontem 13.249 menções ao acordo entre BRB e Master.

Desse total, 38% fazem menção a risco sistêmico, o que mostra o quanto essa ideia está entranhada. Entre as citações, 22% delas trazem algum tipo de ilação sobre irregularidades. E 52% se referem a exigências e questionamentos do próprio BC, a uma aludida resistência do órgão regulador e consequentemente a dúvidas sobre a aprovação ou não do negócio.

Ou seja: se existe uma percepção de risco permeando a entrada do BRB no capital do Master, o BC tem sua cota de contribuição.

Para além do impacto direto sobre BRB e Master, a morosidade na análise da associação trava o surgimento de um novo player do setor bancário e, mais do que isso, de um novo perfil de competidor.

Uma vez juntos, BRB e Master formarão uma espécie híbrida, um banco comercial composto por capital público e privado com forte atuação no middle market, especialmente no financiamento de empresas de médio porte, e uma expressiva operação na área digital, por meio notadamente do Will Bank, instituição controlada pelo Master que soma nove milhões de contas cadastradas.

Guardadas as devidas proporções, um modelo de negócio que carrega algumas similaridades com players bancários da Europa que combinam investidores mistos. Apenas a título de exemplo, pode-se citar o ProCredit Bank AG, da Alemanha, que reúne acionistas privados, como o Zeitinger Invest, e públicos, como o KfW (Kreditanstalt für Wiederaufbau), um dos maiores bancos de fomento do mundo.

Na Suíça, há os chamados bancos cantonais, como o Banque Cantonale Vaudoise, o Banque Cantonale de Genève e o Basler Kantonalbank (BKB), da Basileia, nos quais também coabitam sócios privados e estatais, em sua maioria a própria administração pública dos respectivos cantões.

Não deixa de ser curioso. Na contramão do desmonte dos bancos estatais, iniciado no governo FHC com as privatizações do setor, a associação entre BRB e Master desponta com um movimento capaz de dar a uma instituição financeira pública maior poder de competição e punch comercial para deslocar mercado em nichos estratégicos.

De fato, há muito em jogo. Com a palavra, o Banco Central.

#Banco Central

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