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Destaque
Produtores e exportadores de café já sentem no ar um aroma de anti-tarifaço
9/10/2025Assim como os oráculos buscavam prever o futuro a partir da borra no fundo de xícaras, produtores e traders de café no Brasil tentam vaticinar os próximos passos do governo norte-americano interpretando os sedimentos deixados pela aproximação entre Lula e Donald Trump. O telefonema entre ambos na última segunda-feira tem alimentado informações cruzadas e rumores de um anti-tarifaço.
Segundo uma fonte da área de comércio exterior, o setor já trabalha com a possibilidade de o governo dos Estados Unidos retirar a sobretaxa de 40% imposta ao Brasil ou até mesmo, em uma reviravolta ainda mais radical, zerar a tarifa de 10% que incide sobre todas as importações de café. O gravame passou a ser aplicado no início deste ano, com o retorno de Trump à Casa Branca.
Há enormes pressões internas para que o governo norte-americano volte ao regime de alíquota zero. Grandes grupos de torrefação e redes de cafeteria não estão dispostos a reduzir margens para arcar com os custos de importação do café, notadamente o brasileiro. Tampouco querem – e podem – correr o risco de repassar o imposto ao consumidor, sob ameaça de quem o fizer perder expressiva fatia de mercado.
Um fato em especial aumenta ainda mais a fervura interna por um meia-volta, volver de Trump. Todos os demais países produtores de café, a começar por Vietnã e Colômbia, encontram-se na entressafra. Já o Brasil está exatamente no período pós-colheita. Com disponibilidade de oferta. Ou seja: os maiores compradores de café dos Estados Unidos não têm para onde correr. É comprar no Brasil ou não comprar de ninguém. Ressalte-se que o café brasileiro responde por um terço de todo o consumo no mercado norte-americano (24 milhões de sacas/ano).
Pode até ser que produtores e exportadores brasileiros estejam olhando para os resíduos na xícara com excesso de otimismo. Mas não chega a ser um absurdo a ideia de Donald Trump não apenas voltar atrás no tarifaço ao Brasil, mas na própria taxa de importação do café.
No limite, Trump estaria fazendo um favor a si mesmo. A tributação já causa um estrago nos Estados Unidos. Em setembro, a Starbucks anunciou 900 demissões. Se um gigante com mais de 17 mil cafeterias e receita de US$ 24 bilhões por ano apenas dentro dos EUA começou a cortar cabeças, o que dizer das centenas de pequenas redes existentes no país.
Destaque
Exportadores de café devem suspender embarques para os EUA
31/07/2025O setor cafeeiro traça uma estratégia defensiva para enfrentar o impacto do tarifaço de Donald Trump, inicialmente previsto para entrar em vigor amanhã e agora postergado para o dia 6. Segundo uma fonte da área de comércio exterior, a maior parte dos exportadores deverá interromper os embarques do produto nos próximos dias. O intuito é ganhar tempo. A não ser nos casos em que o importador se comprometer a assumir os custos da sobretaxa, os traders vão segurar o café à espera de mais um adiamento ou mesmo da suspensão da alíquota de 50% e de algum avanço nas tratativas entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos. É a decisão possível para o momento, ainda que com seus inexoráveis danos colaterais.
A medida inevitavelmente provocará um efeito cascata na cadeia da commodity, chegando até o campo. Cabe lembrar que o setor está na fase final da colheita, ou seja, grande parte da safra ainda se encontra nas mãos dos produtores, o que vai acarretar um custo maior de estocagem não previsto.
Em seus estudos sobre o impacto do tarifaço de Trump, produtores e exportadores de café trabalham com dois timings distintos. No curtíssimo prazo, caso o gravame de 50% seja efetivamente adotado, o processo de acomodação será doloroso. No entanto, passado o maremoto inicial, a aposta é que a médio e longo prazo os Estados Unidos não conseguirão sustentar a sobretaxa, ainda que o café tenha sido mantido no índex do governo Trump mesmo após a retirada de outros itens – como suco de laranja, celulose, petróleo e componentes da aviação – anunciada ontem.
Não há excedente de grãos no mundo. Todos os 180 milhões de sacas que o planeta produz anualmente são consumidos e, o mais importante, têm mercados definidos e cadeias comerciais muito bem amarradas com contratos de longo prazo. Da mesma forma que o Brasil não conseguirá da noite para o dia um comprador substituto para o produto que eventualmente deixe de ser embarcado para o mercado norte-americano, os Estados Unidos também terão grande dificuldade de recomposição de seus estoques. Um terço de todo o café consumido na terra de Trump sai das lavouras brasileiras, algo como oito milhões de sacas por ano.
Não se trata apenas de buscar novos fornecedores globais, por si só uma tarefa complexa. Há ainda uma questão de inadequação do produto. Não é exagero dizer que, em grande parte, o paladar do consumidor norte-americano está moldado pelo café brasileiro.
Por esses motivos, é sintomático que o próprio secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, já tenha declarado que o governo poderá rever as tarifas impostas a mercadorias não produzidas internamente. É o caso do café.
De toda a forma, nesse contexto conturbado, não há espaço para cafeomancia. Até o momento, a borra de café deixada na xícara por Donald Trump não permite qualquer exercício de futurologia. A lógica de Trump é não ter lógica. E, para além da questão econômica, o presidente norte-americano não dá sinais de recuo em sua ofensiva para interferir na dinâmica política e institucional do Brasil – vide as sanções anunciadas ontem contra o ministro Alexandre de Moraes, com base na Lei Magnitsky.
Por mais que a sobretaxa norte-americana sobre o café não pareça ser sustentável a médio e longo prazos por uma série de fatores, desde já o setor discute saídas para mitigar ou mesmo contornar os efeitos da avalanche tarifária trumpista. De acordo com a fonte do RR, em conversas reservadas, produtores e exportadores falam na possibilidade de triangulação dos embarques. Ou seja: de usar países vizinhos não atingidos pelos desvarios alfandegários de Trump para acessar o mercado norte-americano. Esse movimento exigiria algum contorcionismo. Nada que, em maior ou menor medida, já não seja feito no comércio internacional.
Em tom de blague, a fonte do RR lembra, inclusive, da célebre história do trader Marc Rich, fundador da Marc Rich & Company, que mais tarde daria origem à Glencore. No fim dos anos 70, Rich utilizou-se de um complexo sistema de empresas registradas em jurisdições offshore para ocultar a origem do petróleo. Com essa prática, conseguiu driblar sanções impostas pelos Estados Unidos e exportar grandes volumes do produto do Irã para o mercado norte-americano.
Não é o caso de se chegar a tanto. Mas, mantidas as tarifas impostas pelo governo Trump, se, na próxima safra, o Paraguai embarcar três ou quatro milhões de sacas de café para os Estados Unidos, não será difícil saber de onde saiu o produto. O país vizinho não produz sequer 20 mil sacas por ano.
Negócios
São Paulo deve receber primeira cafeteria da Juan Valdez no Brasil
13/03/2025A Juan Valdez, maior rede de cafeterias da Colômbia, prepara seu desembarque no Brasil. A empresa deverá abrir sua primeira loja no país, mais precisamente em São Paulo, até junho. Hoje, cerca de 25% do seu faturamento vêm da operação internacional – são mais de 130 lojas na Argentina, Costa Rica, Equador, Paraguai e Peru. A chegada da Juan Valdez ao Brasil tem dois componentes simbólicos. Primeiro pelo fato de a Colômbia ser uma concorrente histórica do Brasil no mercado de café. Além disso, a decisão de investimento chama a atenção também pelo timing. Ela se dá no momento que a Starbucks, agora sob a gestão do Mubadala, busca reequilibrar sua operação no país, após o fechamento de lojas causado pela debacle financeira da SouthRock, antiga responsável pela marca no mercado brasileiro.
Empresa
Que cheirinho de M&A é essa no café da Nestlé?
29/05/2024
Agronegócio
Experimento da Embrapa promete aumentar a produtividade da cafeicultura brasilera
8/04/2024O RR apurou que a Embrapa vai anunciar nesta semana os primeiros resultados de um novo experimento tecnológico com potencial de ampliar ainda mais o peso do Brasil no mercado internacional de café. Os dados do estudo, realizado em oito regiões diferentes de Minas Gerais, indicam a possibilidade de um significativo salto de produtividade para as próximas colheitas. De acordo com a mesma fonte, os testes com 16 tipos de arábica demonstraram a possibilidade de uma produção de 33 sacas por hectare – a atual média nacional é de 26,7 sacas por hectare. A Embrapa utilizou pés de café com características agronômicas superiores, com maior resistência a pragas e doenças, como ferrugem e nematóide.
O Brasil já é líder mundial no plantio de café, tanto no volume quanto na produtividade. Os novos avanços tecnológicos devem não apenas aumentar essa distância para os principais concorrentes internacionais como dificultar o ingresso de outros países no clube dos produtores da commodity, tanto para variedade arábica como também para a robusta. A Embrapa é o Brasil que deu muito certo.
Economia
Novas regras da UE para o café beneficiam o Brasil
15/09/2023O setor cafeeiro do Brasil tem tudo para ser um dos grandes beneficiados com a nova legislação da União Europeia para a compra de produtos ligados ao desmatamento. É o que crava a publicação especializada Econotimes, de Seul. O veículo debruçou-se sobre a nova edição do Coffee Barometer, documentário elaborado por um consórcio de ONGs globais. As novas regras da EU exigirão que importadores de commodities façam um rigoroso rastreamento para comprovar que o produto não contribui para o desmatamento. Segundo o Coffee Barometer, uma parte dos países produtores de café não está preparada para atender às imposições da Europa. A tendência é que países compradores redirecionem suas compras para produtores com sistemas de rastreabilidade mais confiáveis, como é o caso do Brasil.
OBS RR: A produção mundial de café está dispersa em aproximadamente 70 países. No entanto, 85% estão concentrados no Brasil, Vietnã, Colômbia, Indonésia e Honduras. Praticamente a metade das exportações brasileiras de café tem como destino a União Europeia, especialmente Alemanha, Itália, Bélgica, França e Espanha. O Ministério da Agricultura e representantes do setor têm feito seguidas reuniões para analisar a nova legislação da UE, leia-se a Lei da EUDR (Due Diligence Europeu), que exige maior transparência na cultura do café. O governo está investindo cerca de R$ 85 milhões na “Plataforma AgroBrasil + Sustentável”, sistema que fornecerá e integrar dados relacionados à rastreabilidade do grão.
Destaque
Contratos em aberto ameaçam o setor cafeeiro no Brasil
13/02/2023A ameaça de safras com “inconsistências contábeis” em cadeia paira sobre o setor cafeeiro no Brasil. O risco em questão vem da crescente exposição dos players centrais – produtores, tradings e bancos – a contratos mercantis de entrega futura em aberto. Segundo uma fonte do setor, o estoque atual soma cerca de 10 milhões de sacas ou aproximadamente US$ 1 bilhão – o equivalente a pouco mais de 25% das exportações brasileiras do produto no ano passado. Essa cifra tem causado apreensão no mercado, especialmente nas instituições financeiras, a ponta final onde está pendurada toda a estrutura de crédito que faz a roda girar. Como o nome sugere, essa modalidade de contrato prevê a entrega física do café a futuro com base em projeções de produção e preço para os anos subsequentes. Esse tipo de operação, existente apenas no Brasil e na Colômbia, carrega riscos consideráveis e coloca toda a indústria sobre o fio da navalha. Hoje há um razoável grau de alavancagem, que deixa o setor à mercê do imponderável. Uma eventual repetição das condições climáticas adversas registradas no país em safras recentes pode afetar consideravelmente a capacidade de entrega do café e cumprimento do contrato, criando um efeito dominó nos balanços das tradings e, sobretudo, dos bancos.
O compliance das grandes trading companies não permite que elas trabalhem com um risco excessivo. Essas multinacionais são obrigadas a fazer operações de hedge para o risco de preço e do não recebimento do produto. Ainda assim, não deixa de ser uma potencial bomba relógio: as tradings carregam o hedge para a frente e vão lançando sucessivamente em seus balanços a entrega do café a futuro. Com isso, a ameaça maior recai sobre as instituições financeiras. Não por acaso, diante do excessivo volume de contratos em aberto no país, já circulam rumores no setor de que bancos poderão brecar o crédito a tradings.
A preocupação dos agentes do mercado cafeeiro no Brasil tem sido alimentada pelo alerta que vem da Colômbia. A modalidade dos contratos mercantis de entrega a futuro criou um rombo no setor no país vizinho. Neste momento, há algo em torno de US$ 200 milhões em acordos não honrados. Essa cifra tende a ser ainda maior. O volume em questão corresponde apenas a exportações firmadas no âmbito da Federação de Cafeicultores da Colômbia, uma espécie de “grêmio cafeeiro” com vinculações paragovernamentais. A Federação responde por aproximadamente um terço das vendas internacionais de café da Colômbia ou algo como US$ 1,2 bilhão. Significa dizer que os contratos mercantis em aberto representam cerca de 18% das vendas feitas pelos membros da instituição. Em tese, a Colômbia tem um hedge natural. Em razão da ligação da Federação com o governo, muito provavelmente o Tesouro colombiano entrará em ação para cobrir as perdas. No Brasil, esse colchão estatal não existe.
O contrato mercantil para entrega física de café a futuro é um “produto” made in Brazil. A modalidade foi copiada do mercado de petróleo. Só que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Na indústria petrolífera, a imprevisibilidade é muito menor. Cada produtor tem suas reservas quantificadas e auditadas, com a garantia de que terá óleo para entregar. Além disso, um ponto fundamental: não tem seca ou geada a dois ou três mil metros de profundidade.
Xícara pela metade
23/11/2020O RR levantou que o serviço do cafezinho foi adiado para 2022. As exportações brasileiras da commodity estão com seus fluxos de embarque atrasados pela falta de disponibilidade de containers e menor frequência de navios atracando nos portos brasileiros. A situação é consequência direta da queda das importações brasileiras e do aumento relativo de compras internacionais de cargas a granel, que não usam containers. Como os produtores de café já venderam mais de 65% da produção da colheita 2020/21, o pepino está em mãos dos exportadores, que compraram café para exportação e estão com o produto estocado a espera de container e navios.
Café abre ainda mais o apetite tributário do governo
22/10/2020O desempenho da cafeicultura brasileira desponta como um estimulante a mais para as discussões dentro do governo sobre a criação de um imposto sobre as exportações de commodities – ver RR edição de 30 de setembro. A premissa é que há riqueza demais no café com baixa contribuição fiscal. O cafeicultor brasileiro está prestes a saborear uma das safras mais rentáveis da história, graças à combinação de uma colheita recorde com o câmbio extremamente favorável.
De acordo com o executivo de uma das maiores tradings do mundo ouvido pelo RR, o mercado já trabalha com uma projeção para a próxima safra de até 65 milhões de sacas para o café arábica e algo entre 17 e 20 milhões de sacas para o conilon, ou seja, uma produção total de até 85 milhões de sacas. A se confirmar, será a maior colheita da história da cafeicultura brasileira. Os números, ressalte-se, são bem superiores à terceira estimativa divulgada pela Conab em setembro, da ordem de 61,6 milhões de sacas. Não é de se estranhar.
Há algum tempo, as projeções oficiais do governo andam descalibradas – o próprio RR chamou atenção para o fato na edição de 22 de setembro do ano passado. Os ganhos dos produtores com a safra recorde de café serão potencializados pelo efeito do câmbio. O Brasil vive um momento de alta competitividade no mercado global. Hoje, na comparação com a Colômbia, nosso maior concorrente, o dólar vale 25% a mais para o produtor brasileiro de café.
Em relação a outros importantes exportadores de arábica, como El Salvador, Costa Rica, Honduras, Guatemala, México e Nicarágua -, na média o ganho cambial dos cafeicultores brasileiros é quase 50% superior. Essa performance do setor cafeeiro é um convite ao governo não apenas levar adiante a ideia de taxação das commodities, mas também de analisar essa hipótese caso a caso, criando regimes diferentes para cada produto. Não custa lembrar que, por décadas, as exportações de café foram tributadas com o recolhimento da “Cota de Contribuição”, instituída nos anos 60 pela Instrução 205/61 da antiga Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc). Os recursos provenientes de cotas, ressalte-se, têm destino definido pela lei que cria a contribuição. Já o imposto sobre exportação é arrecadação fiscal na veia. Cai direto na conta do Tesouro.