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O fantasma dos Correios vai perseguir o presidente Lula durante toda a campanha eleitoral. Segundo informações filtradas pelo RR, internamente a direção da estatal trabalha com projeções para este ano de um prejuízo acima dos R$ 5 bilhões, não muito distante, portanto, do rombo registrado em 2025, da ordem de R$ 5,8 bilhões. O número deixa claro que as medidas emergenciais adotadas pela empresa vão demorar muito para surtir efeito – se é que surtirão. Além do empréstimo de R$ 12 bilhões, o pacote inclui fechamento de unidades deficitárias, venda de imóveis e um Programa de Demissões Voluntárias (PDV). Todas essas iniciativas, no entanto, surgem como de baixo alcance. É o caso do próprio PDV: até o momento, cerca de 2,5 mil funcionários aderiram ao plano, bem abaixo da meta de 10 mil desligamentos.
A Aegea enfrenta uma crise dentro da crise. A erosão reputacional provocada pela demora na divulgação das demonstrações financeiras de 2025 parece ter sido a gota que faltava para transbordar o copo das tensões societárias na empresa. Segundo informações que circulam no mercado, a Itaúsa, dona de 13% do capital, defende mudanças no management da companhia. Na linha de tiro estariam o próprio CEO, Radamés Andrade Casseb, e o vice-presidente Administrativo Financeiro, André Pires de Oliveira. A insatisfação dos Setúbal com os rumos da Aegea não vem de hoje, de acordo com uma fonte próxima à empresa. Seria uma conta de juros compostos, um acúmulo decorrente, sobretudo, do crescente nível de alavancagem da companhia – a relação dívida líquida/Ebitda chegou a 3,8 vezes no fim do ano passado. A crise de credibilidade deflagrada nas últimas semanas, a partir dos sucessivos adiamentos na apresentação dos resultados, fez o copo extravasar. Na Itaúsa, prevalece o entendimento de que a Aegea precisa tomar decisões mais agudas como resposta à desconfiança do mercado em relação aos rumos e, em última instância, à própria governança da empresa. É uma cobrança que aumenta o grau de tensionamento interno. A ofensiva sobre a gestão executiva, notadamente sobre Casseb, já cria, por si só, uma zona de fricção com a Equipav, maior acionista da Aegea, com 52%. O CEO da holding de concessões de saneamento é egresso da Equipav e homem de confiança dos acionistas do grupo, as famílias Toledo e Vettorazzo. Nesse contexto, o fiel da balança para eventuais mudanças na direção da Aegea pode vir a ser o GIC, fundo soberano de Cingapura, dono de 35% da empresa.
Procuradas pelo RR, Aegea e Equipav não se manifestaram até o fechamento desta matéria. Também consultada, a Itaúsa limitou-se a reproduzir o Fato Relevante no qual informou ao mercado ter feito um ajuste contábil de R$ 700 milhões em seu próprio balanço por conta de “revisões” e “reavaliações de estimativas” nas demonstrações financeiras da Aegea. O valor em si é um grânulo de areia para o conglomerado dos Setúbal – como, aliás, o grupo fez questão de enfatizar no Fato Relevante, ao classificar o ajuste contábil como “imaterial para a holding, que encerrou o exercício de 2025 com um patrimônio líquido de R$ 89 bilhões”. No entanto, a crise de desconfiança do mercado em relação à Aegea já gerou uma perda bem material: a empresa de saneamento se viu obrigada a adiar seu IPO para 2027. É um duro revés para Equipav, GIC e Itaúsa. O trio trata o IPO como uma peça central para viabilizar o plano de investimentos da empresa, uma fatura de R$ 45 bilhões em desembolsos até 2033. É uma conta grande demais para ser fechada apenas com emissão de dívida.
Não bastassem os danos tangíveis, a crise da Aegea carrega um forte impacto simbólico para a empresa e seus acionistas. Os seguidos adiamentos da divulgação do balanço provocaram no mercado uma onda de ilações sobre o compliance da companhia, até mesmo com especulações sobre a existência de possíveis inconformidades contábeis ou riscos de ordem legal. Até mesmo ossadas do passado foram exumadas. Entre os investidores não faltou quem lembrasse que a Aegea já esteve no centro de situações delicadas. Em 2021, por meio de um acordo de leniência firmado com o MPF, a empresa comprometeu-se a indenizar a União em R$ 439 milhões pelo pagamento de propina a agentes públicos entre 2010 e 2018. A Aegea só tornou público o acordo em fevereiro deste ano.
O desmonte do conglomerado têxtil construído por José de Alencar não se limita ao território brasileiro. A Coteminas avalia a venda ou, em um cenário mais radical, o fechamento da sua fábrica de La Banda, na Argentina. A operação tem sofrido um gradativo esvaziamento. No mês passado, segundo informações filtradas pelo RR, houve aproximadamente 60 demissões. A unidade industrial chegou a ter 1,2 mil funcionários. Hoje, são menos de 400. A fábrica tem operado de forma errática, com episódios de paralisação ao longo dos últimos dois anos. Procurada pelo RR, a Coteminas não se pronunciou.
A eventual saída da Argentina é mais um entre os tantos remendos que a Coteminas, asfixiada por uma dívida de R$ 2 bilhões, terá de fazer. O plano de recuperação judicial aprovado pelos credores no fim do ano passado prevê a venda de ativos em Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pará. Não deve estar sendo fácil para o empresário Josué Gomes da Silva enfrentar o desmantelamento da velha Coteminas deixada por seu pai.
A prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, provocou uma descarga elétrica no entorno do ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha. Segundo o RR apurou, ao longo do dia de ontem interlocutores de Ibaneis se movimentaram intensamente, nas mais diversas frentes, para auscultar a eventual disposição de Costa de firmar um acordo de colaboração com a Justiça. O esforço incluiu contatos com advogados, operadores do meio jurídico e autoridades com acesso aos bastidores da investigação, em uma tentativa de antecipar possíveis desdobramentos do caso. Nomeado por Ibaneis para o cargo, Costa comandou o BRB durante praticamente todos os dois mandatos do ex-governador. Era um colaborador da sua mais estrita confiança. Investigações da Polícia Federal apontam que o ex-presidente do BRB teria recebido imóveis no valor total de R$ 140 milhões para facilitar a compra do Master pelo banco estatal.
O cenário econômico e político está colocando em campos diametralmente opostos duas-figuras chave, em maior ou menor medida ligadas diretamente ao próprio presidente Lula: os mandatários do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do BNDES, Aloizio Mercadante. Neste momento, não há na órbita do governo personagens mais antagônicos do que ambos. Galípolo e Mercadante personificam, em suas missões, um dos trade off da gestão Lula a poucos meses da campanha eleitoral: de um lado, a necessidade de combate à carestia, diante de um repique inflacionário já presente; do outro, a obrigação de turbinar a atividade econômica e, mais do que isso, impedir uma quebradeira de pessoas jurídicas e físicas – um quesito determinante para o escrutínio das urnas. Ao falar sobre juros, Galípolo – que, a rigor, não é apenas Galípolo, mas todo um colegiado – tem repetido de forma monocórdica a palavra “cautela”, um jeito suave de dizer que não será possível cumprir a agenda de redução da taxa de juros que estava prevista para este ano. O próprio mercado já assimilou a ideia de que a queda dos juros ficou para outro tempo que não este ano, ainda que, curiosamente, a estimativa impressa no Boletim Focus seja de uma Selic de 12,5% para dezembro. Vai entender… São os mesmos agentes financeiros que, nas últimas quatro semanas, elevaram a projeção para o IPCA deste ano de 4,1% para 4,7%. Do lado de Mercadante, por sua vez, caberá a tarefa de abrir ainda mais as torneiras do BNDES exatamente para aliviar os efeitos do ciclo contracionista imposto pela política monetária. Alguns números já estão sobre a mesa. Somente no âmbito da Nova Indústria Brasil (NIB), o banco despejará mais R$ 70 bilhões ao longo deste ano.
Antagonismos entre presidentes da autoridade monetária e do principal agente de fomento do Estado brasileiro não são exatamente uma novidade. Um exemplo marcante – e mais agudo – é o confronto entre Henrique Meirelles e Carlos Lessa no Lula I. Lessa chegou a acusar publicamente Meirelles de querer acabar com o BNDES. Galípolo e Mercadante não chegam nem perto disso. A dissonância entre ambos diz respeito à tarefa que cada um tem de cumprir. Daqui até o fim do ano, um trabalhará irremediavelmente na contramão do outro. As missões de ambos se anulam. Enquanto o Banco Central busca retirar recursos do sistema para conter a inflação, o BNDES reintroduz essa liquidez por meio de crédito direcionado.
Ontem, Lula disse que vai chamar Gabriel Galípolo para baixar os juros. Ainda que proferida em tom de brincadeira, a declaração pode ser etiquetada como mais uma das típicas bravatas do presidente. De certa maneira, do ponto de vista político, com a saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda, Galípolo ficou em uma posição ainda mais confortável para fazer o que tem de ser feito sob a ótica da autoridade monetária. De toda a forma, sem entrar no mérito da discussão se seria ou não possível reduzir os juros ao longo dos próximos meses, o fato é que a política restritiva by the book do Banco Central está por trás de dados críticos da economia. O Brasil encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, um recorde histórico, com dívidas que somam cerca de R$ 213 bilhões. Esse estrangulamento se traduz diretamente no aumento das recuperações judiciais. Em 2025, 2.466 empresas entraram em RJ, o maior nível da série histórica para um único ano, com crescimento de 13% em relação a 2024. Da pessoa jurídica para a física, o quadro também é delicado. Segundo levantamento da Serasa Experian, 73 milhões de brasileiros estão inadimplentes – o equivalente a um em cada dez adultos no país. Entre as famílias endividadas, 29,6% têm débitos negociados já em atraso, segundo Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Para um presidente da República que disputa a reeleição são números que têm o efeito de um derramamento de césio 137.
À medida que a eleição se aproximar, a colisão das missões de Galípolo e Mercadante deverá ganhar maior relevo político. Esse desencontro tende a se irradiar no entorno de Lula e a amplificar possíveis pressões dentro do PT. O partido foi condicionado historicamente a ver nos juros altos a origem de boa parte dos males da economia brasileira – no que, de certa forma, não está muito errado. Quanto mais restritiva for a atuação do Banco Central, maior a pressão para que o BNDES amplie sua atuação. Bem, o banco de fomento não é independente. Está na jurisdição de mando de Lula. Não é o caso do BC.
O BRB trata como de difícil recuperação uma parcela dos ativos herdados do Banco Master — em especial as participações em renda variável, como Oncoclínicas e Ambipar. Dentro do próprio banco, esses ativos são considerados destroços financeiros, dada a quase impossibilidade de capitalização e de saída. A Oncoclínicas, que chegou a ser avaliada em cerca de R$ 11 bilhões no IPO em 2021, viu seu valor de mercado encolher para algo próximo de R$ 2 bilhões–R$ 3 bilhões recentemente — uma destruição de mais de 70% do valuation. No mesmo período, a companhia passou a operar com alavancagem elevada (dívida líquida/Ebitda na casa de 3,5x a 4x) e forte pressão de caixa, o que reduz drasticamente o apetite de potenciais compradores. A Ambipar seguiu trajetória semelhante: após atingir um pico de valor de mercado superior a R$ 30 bilhões em 2021, passou a negociar em patamares abaixo de R$ 10 bilhões, acumulando uma queda superior a 60% desde o auge. Mais do que a desvalorização em si, pesa a perda de liquidez e a mudança de percepção de risco: são empresas que saíram da categoria de growth para ativos pressionados por estrutura de capital e execução, o que implica descontos adicionais em qualquer tentativa de venda.
Essa percepção ajuda a explicar a engenharia montada com a Quadra Capital. A estrutura, de cerca de R$ 15 bilhões, separa de forma implícita o que ainda pode ser monetizado do que já é visto como problema. Apenas R$ 4 bilhões entram como dinheiro novo, via cotas seniores de um FIDC. O restante permanece sob risco do próprio BRB, na forma de cotas subordinadas — ou seja, depende da performance dos ativos para se converter em caixa. O desenho privilegia direitos creditórios, que, ainda que carreguem inadimplência, ao menos têm fluxo e tese de cobrança. Já as participações acionárias seguem outro regime: dependem de mercado, de comprador e de valuation — três variáveis hoje em xeque tanto no caso da Oncoclínicas quanto da Ambipar.
O acordo entre Palmeiras e Nubank já provoca um efeito dominó no mercado de naming rights de arenas esportivas no Brasil. O Corinthians está fazendo marcação cerrada sobre a Hypera com o objetivo de reajustar o contrato da Neo Química Arena. Hoje, o grupo farmacêutico paga aproximadamente R$ 21 milhões por ano. O Corinthians almeja o dobro. Nos bastidores, dirigentes alvinegros falam até na possibilidade de rompimento da parceria caso a Hypera não concorde com a renegociação. Como ocorre costumeiramente no futebol, o corre-corre dos cartolas corintianos mistura preocupação efetiva com o business e com o valuation da Arena Itaquera com a surrada tática de jogar para a galera. O Corinthians passou a tomar uma goleada do arquirrival no campeonato dos naming rights. O Palmeiras receberá do Nubank cerca de US$ 10 milhões por ano.
O governo de Mato Grosso vem cortejando a chinesa FM World com o objetivo de convencê-la a instalar uma fábrica de equipamentos agrícolas no estado. A empresa está colocando os pés no Brasil devagarinho, com a abertura de uma concessionária na cidade de Sinop (MT). O governo do Mato Grosso já acenou com contrapartidas – de incentivos fiscais a infraestrutura – para estimular que a companhia internalize sua produção, ao menos de parte da demanda estimada no mercado brasileiro. Fundada há 30 anos, a FM World detém cerca de 60% das vendas de maquinário agrícola de pequeno e médio portes na China. Além disso, o grupo opera em mais de 50 países e conta com um parque industrial superior a 1 milhão de metros quadrados, com forte verticalização da produção — cerca de 80% dos componentes são fabricados internamente. É um índice que faz brilhar os olhos das autoridades do Mato Grosso, vislumbrando a possibilidade de replicar um pouco dessa estrutura com a montagem de um cinturão de fornecedores no estado.
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