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A saída do Novo Mercado, no mês passado, é apenas a ponta do iceberg da reestruturação de capital da Kora Saúde. A parte ainda submersa esconde um segundo movimento, que poderá levar à transferência do controle da empresa. Livre das amarras normativas impostas pelo segmento especial da B3, a HIG Capital já se articula para negociar uma parcela ou mesmo a totalidade da sua participação societária. A prioridade dos norte-americanos, donos de 62,4% da companhia, é a venda da Kora para um grupo do setor.
No passado recente, Rede D’Or e Hapvida chegaram a demonstrar interesse pela empresa. Apenas a título de referência: com base na atual cotação do papel em bolsa, seu valor de mercado gira em torno de R$ 680 milhões. Há ainda um Plano B. O que se diz em petit comité no setor é que a HIG cogita também a possibilidade de um acordo com os credores, com a conversão de dívida em participação acionária, no limite envolvendo até mesmo o repasse do controle da companhia.
Ressalte-se que já houve um ensaio nessa direção. Em dezembro do ano passado, a Kora levantou R$ 250 milhões a partir de uma capitalização de credores, notadamente a Lumina Capital, de Daniel Goldberg. O RR entrou em contato com a Kora, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
A Kora Saúde tem negócios bastante atrativos. São 17 hospitais em cinco estados, com mais de dois mil leitos.
Mas também carrega algumas comorbidades financeiras. Em 2024, registrou um prejuízo de R$ 168 bilhões. No ano anterior, já havia fechado com perdas de R$ 158 milhões. Ainda no ano passado, seu Ebitda caiu 4% em relação ao exercício anterior, totalizando R$ 437 milhões. Em tempos mais prósperos, há coisa de quatro ou cinco anos, o Ebitda da empresa chegou a subir 147% em 12 meses.
Mas o que mais fragiliza a saúde da Kora é o seu elevado nível de alavancagem. Mesmo com o reperfilamento do passivo realizado em dezembro, a relação dívida líquida/Ebitda ficou na casa de seis vezes. Seria ainda pior se no fim do ano passado a companhia não tivesse renegociado uma rolagem de R$ 1,7 bilhão em debêntures e dívidas bancárias. Pelo acordo, os debenturistas concederam um waiver para o não cumprimento do limite de alavancagem previsto na emissão dos papéis – uma relação dívida líquida/Ebitda de quatro vezes em 2024 e de 3,5 vezes neste ano.
A repactuação no ano passado serviu, sobretudo, como uma arrumação de casa da HIG – a arrumação possível para o momento – antes de passar o negócio adiante. Tocar a gestão da Kora daqui para a frente dependerá de expressivos aportes que os norte-americanos não estão dispostos a fazer.
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