Arquivo Notícias - Página 84 de 1964 - Relatório Reservado

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Dormindo com os inimigos

5/01/2026
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É impossível derramar uma só lágrima pela figura política de Nicolás Maduro, um ditador incompetente que empobreceu seu povo e fraudou a eleição de 2024 que o tiraria pacificamente do poder. Mas o vasto e letal ataque militar norte-americano na madrugada de sábado, que o sequestrou juntamente com sua esposa em Caracas, é a prova definitiva de que a política externa mafiosa de Donald Trump tem um caráter ostensivamente imperialista e só obedece à lei da selva. Na América Latina, vista por ele e seus áulicos como um mero quintal dos Estados Unidos, voltamos aos tempos das canhoneiras com a repaginação da doutrina Monroe, agora intitulada Donroe sem que isso seja uma homenagem ao Pato Donald.

Pouco importa a Trump que todo esse violento desrespeito às normas éticas e legais jogue por terra o sistema multilateral construído sob a liderança dos próprios Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pouco importa a ele que a campanha contra a Venezuela venha sendo cinicamente conduzida sob o pretexto duvidoso de que Maduro é um narcotraficante ou, segundo a definição agora imposta por Washington, um narcoterrorista. Isso porque a essência de suas ações se fundamenta em dois pilares: em primeiro lugar, o desejo de enxotar a China do continente americano (na verdade, da Groenlândia à Patagônia) como parte da Segunda Grande Guerra Fria em que as duas potências disputam a hegemonia mundial; em segundo lugar, a fome por matérias estratégicas, do petróleo às terras raras.

No caso da Venezuela sem dúvida o objetivo central é o petróleo, embora as enormes reservas lá existentes sejam de uma variedade betuminosa, difícil de extrair e processar.

 No entanto, pelas declarações feitas na conferência de imprensa concedida em Mar-a-Lago, deduz-se que todas as instalações no setor petrolífero venezuelano que pertenciam a empresas norte-americanas e foram nacionalizadas por Chavez serão devolvidas a seus antigos donos. Tudo indica que eles receberão as compensações devidas e que os investimentos a serem feitos para recuperá-las deverão ser pagos de alguma forma pela Venezuela, talvez como parte dos royalties a que o Governo faria jus nas vendas externas futuras do petróleo produzido nessas instalações.  O mais notável é que tudo isso (e certamente muito mais) deverá ser garantido pelo fato de que Trump pessoalmente (remember Gaza?) dirigirá essas operações durante um período de transição não explicitado.

Mas o problema é o seguinte: como fazer isso na prática, como garantir o controle físico dessas numerosíssimas instalações espalhadas pelo país sem a presença de uma vasta tropa de ocupação territorial? Ora, essa opção parece de todo inviável diante da oposição dos próprios apoiadores de Trump no MAGA, que jamais admitiriam ver, como no passado, aquelas fileiras de caixões cobertos com a “Star and Stripes” trazendo militares mortos em conflitos no exterior para serem enterrados com todas as honras de praxe no cemitério de Arlington.

Não sendo assim, é óbvio que será necessária a colaboração maciça de venezuelanos para tornar efetivas a retomada e a exploração das propriedades confiscadas há 50 anos, para garantir as compensações financeiras, para viabilizar a venda e exportação do petróleo etc., etc., etc.

Até as declarações de Trump no sábado, a grande favorita para executar essas penosas funções era Maria Corina Machado, recente ganhadora do Nobel da Paz e líder da oposição, que teria podido ser a vencedora do pleito eleitoral de 2024 caso não houvesse sido arbitrariamente desqualificada pelo Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela cumprindo as ordens de Maduro. Mas, para surpresa geral, Trump disse, então, que ela não tinha “o apoio ou o respeito dentro do país”, fazendo com isso que todos os olhos se voltem para aqueles que, até sexta-feira, se identificavam como companheiros de luta de Maduro contra as ações imperialistas do atual ocupante da Casa Branca.

Esse tipo de reviravolta não surpreende no caso de Trump, famoso pelos TACOs (Trump always chickens out), como aliás ocorreu ao abandonar o pretexto Bolsonaro para violar a soberania brasileira quando entendeu finalmente que isso constituía um tiro no pé. Mas traz à lembrança outras desastrosas experiências norte-americanas de tentar governar outros países, como aconteceu no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão e em várias instâncias na própria América Latina, frequentemente gerando conflitos, instabilidade interna e um crescente sentimento de antiamericanismo.

Mais complicado ainda será encontrar, dentre os antigos seguidores entusiastas de Maduro, aqueles que se disporão a enfrentar a opinião pública, ao menos certos segmentos militares, as cortes de justiça e o Congresso a fim de defender os interesses norte-americanos sob o controle pessoal de Trump, que declara abertamente a intenção de comandar todas as ações futuras no país por tempo indeterminado. A história já nos trouxe alguns exemplos não muito distantes no tempo, como a “quinta coluna” proclamada pelas forças fascistas de Franco durante a guerra civil espanhola ou as ações de Vidkun Quisling, que chefiou nominalmente o governo da Noruega como Ministro-Presidente depois de o país ter sido ocupado pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial (tendo seu sobrenome se transformado num substantivo comum que significa traidor ou colaborador).

Correm rumores de que já haveria negociações em curso no tocante ao day after Maduro com a vice-presidente Delcy Rodríguez, que recebeu da suprema corte do país a ordem de assumir interinamente a presidência “para garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação”. Aliás, a ausência de Maduro foi interpretada como “temporária” pelo tribunal, permitindo que a vice assumisse o cargo por até 90 dias, período que pode ser prorrogado pelo Parlamento. Como ela própria já havia declarado que Maduro era o real presidente da nação, podemos fazer uma tênue ideia dos imensos problemas que precisarão ser superados para que a Venezuela não entre em colapso total após o atentado majestático de Trump à sua soberania.

Vale, por fim, uma séria advertência: Trump colocou claramente a América Latina em quarentena e está disposto a instalar em todos os países da região regimes subordinados a ele, aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, aos conceitos de extrema direita advogados pelo movimento MAGA.

Não se iludam os que creem que Lula conseguiu “encantar” Donald Trump, que os dois agora são amiguinhos. Nas eleições presidenciais deste ano todo o poder da Casa Branca será posto a serviço de seus adversários – de preferência a um deles para evitar a dispersão de forças.

#Donald Trump #Nicolás Maduro

Cosan não consegue zarpar do Porto São Luís

5/01/2026
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A Cosan tem encontrado dificuldades para se desfazer do projeto do Porto São Luís, no Maranhão. As negociações esbarram no principal: o fator preço. Segundo o RR apurou, as ofertas apresentadas até o momento estão abaixo, inclusive, do valor que o grupo desembolsou para comprar o ativo em 2021 – R$ 720 milhões. O principal candidato é a trading chinesa Cofco, que enxerga no empreendimento uma saída logística para o escoamento de grãos, notadamente da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins Piauí e Bahia). No entanto, os asiáticos têm sido um osso duro de roer à mesa de negociações, aproveitando-se da complexa situação financeira da Cosan para achatar os valores da operação. A venda do projeto é mais um capítulo do plano de alienação de ativos do grupo de Rubens Ometto para o abatimento do seu passivo – a dívida líquida é de R$ 18 bilhões. Além de utilizar os recursos para o pagamento de obrigações financeiras, a Cosan se livraria da necessidade de construção do porto, orçada em aproximadamente R$ 1 bilhão. Procurada pelo RR, a empresa não quis se pronunciar.

#Cosan

Crise da Cotribá acende alerta de risco sistêmico no agro gaúcho

5/01/2026
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A crise da Cotribá deixou de ser apenas um problema empresarial e entrou no radar político do Rio Grande do Sul. Segundo informações apuradas pelo RR, o próprio governador Eduardo Leite passou a atuar nos bastidores em busca de uma saída negociada para a cooperativa, diante do risco sistêmico que o colapso da empresa pode representar para o agronegócio gaúcho. A articulação envolve conversas com o Judiciário, instituições financeiras e lideranças do setor produtivo para tentar construir uma solução que preserve ativos, contratos e a capacidade operacional mínima da cooperativa.
Leite tem sido alertado de que um colapso desordenado da Cotribá pode gerar um efeito dominó sobre o crédito rural, cooperativas menores, revendas agrícolas e a renda de milhares de produtores no interior do Estado — especialmente às vésperas de um novo ciclo de safra. A preocupação do Palácio Piratini se explica pelos números envolvidos. A Cotribá é uma das maiores cooperativas agroindustriais do Estado, com mais de 10 mil produtores associados, atuação em cerca de 40 municípios, capacidade de armazenagem superior a 1,5 milhão de toneladas de grãos e papel central no escoamento da safra de soja, milho e trigo. Em anos recentes, seu faturamento anual girou na casa de R$ 6 bilhões a R$ 7 bilhões.
Com dívidas superiores a R$ 1 bilhão, a Cotribá vem tentando entrar em recuperação judicial. No entanto, a desembargadora Eliziana da Silveira Perez, da 6ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, suspendeu o processo. Com base na Lei 11.101/2005 e no código Civil, a magistrada alega ilegitimidade jurídica das cooperativas para requerer recuperação judicial. Trata-se de uma discussão antiga no Judiciário.
A questão é que a Cotribá não tem tempo a perder até que um dia os tribunais brasileiros cheguem a um consenso sobre a matéria. Em sua apelação, a companhia classifica a recuperação judicial como uma questão de “vida ou morte”. Com a decisão da desembargadora, mais de 30 bancos podem retomar bloqueios, penhoras e execuções contra a empresa.

#Eduardo Leite

PT coloca sobre a mesa um nome para o Ministério da Segurança Pública

5/01/2026
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O PT tem um nome no gatilho para assumir o Ministério da Segurança Pública, caso Lula cumpra a promessa de recriar a Pasta. Trata-se da deputada federal Érika Kokay (PT-DF). Em seu quarto mandato, a parlamentar integrou a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. No entanto, o que para o PT soa como o principal atributo de Érika é justamente o que reduz suas chances de ascender ao cargo: sua trajetória de engajamento à agenda da cidadania e dos direitos humanos. No entorno de Lula, a leitura é que o presidente precisa indicar alguém de perfil mais linha dura para o Ministério, caso não queira dar ainda mais munição para a oposição, que detém a primazia da agenda da segurança pública. Nesse caso, o nome cogitado é o do atual diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

#Ministério da Segurança Pública #PT

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