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De Donald Trump pode se esperar tudo, até a exclusão do Brasil do Swift
3/06/2026Até onde vai a destemperança de Donald Trump? Ainda aturdidos com a iminência de um novo tarifaço, assessores do presidente Lula estão debruçados sobre diferentes cenários para a escalada de sanções quase terrorista do governo norte-americano. O mais violento golpe, quase um embargo, seria, no limite, que o Brasil viesse a ser excluído do Swift. Trata-se da rede internacional utilizada por mais de 11 mil instituições em mais de 200 países para liquidar pagamentos, transferências bancárias, operações de comércio exterior e transações entre bancos centrais. Seria o caos. Com o expurgo do sistema nervoso do mercado financeiro internacional, por exemplo, os bancos brasileiros ficariam alijados de processar operações internacionais, criando um choque de proporções inéditas para o comércio exterior, o câmbio e os fluxos de capitais. Mesmo que ficasse no território da ameaça, o balão de ensaio já seria uma catástrofe. Esse tipo de punição costuma ser adotado apenas em situações extremas, contra países acusados de ameaçar a segurança global, violar resoluções multilaterais ou praticar agressões militares. O caso mais emblemático é o da Rússia. Após a invasão da Ucrânia, em 2022, União Europeia, Estados Unidos, Reino Unido e aliados decidiram excluir bancos russos selecionados do Swift como parte de um pacote de sanções financeiras. Não consta que o Brasil tenha cometido qualquer ato passível de uma simetria punitiva com uma nação em guerra. Mas também não constava que o PCC e o CV eram organizações terroristas, que o Brasil sofreria uma nova onda de taxação, que trabalhadores brasileiros atuam em condições análogas à escravidão, ou que tenhamos qualquer semelhança com Cuba. Cabe tudo no realismo fantástico de Donald Trump.
Em 2012, bem antes da guerra entre Rússia e Ucrânia, sob forte pressão dos Estados Unidos e da União Europeia, bancos iranianos foram desconectados do Swift como parte das sanções ligadas ao programa nuclear de Teerã. O objetivo era estrangular a capacidade do país de receber pagamentos por suas exportações, acessar financiamento internacional e movimentar divisas. O resultado foi devastador: o comércio exterior iraniano encolheu, a moeda local mergulhou em uma espiral de desvalorização e o sistema financeiro passou a depender de arranjos alternativos, mais caros e menos eficientes.
O caso de Belarus seguiu lógica semelhante. Em 2022, após o apoio dado pelo regime de Alexander Lukashenko à invasão da Ucrânia pela Rússia, a União Europeia determinou a exclusão de importantes bancos bielorrussos da rede. A medida foi adotada em conjunto com congelamento de ativos, restrições comerciais e limitações ao acesso aos mercados de capitais internacionais. Embora o país não tenha sido completamente desconectado do sistema financeiro global, o corte dos principais bancos foi suficiente para elevar os custos das transações internacionais, reduzir o acesso ao crédito externo e aprofundar a dependência econômica de Minsk em relação a Moscou. O Brasil não é o Irã, tampouco a Rússia, nem remotamente Belarus. Talvez seja pior: o Brasil é o Brasil, alvo dos obsessivos e incompreensíveis ataques do governo Trump.
Canadian Solar contesta recuperação extrajudicial da Andrade Gutierrez
3/06/2026
Ofensiva dos EUA contra crime organizado cobra um preço adicional à XP
3/06/2026A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas promete cobrar uma fatura pesada do sistema financeiro brasileiro. Bancos, corretoras e fintechs terão de desembolsar somas crescentes para reforçar estruturas de compliance, monitoramento e prevenção à lavagem de dinheiro e atender a uma nova e mais rigorosa régua de compliance. O próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, já externalizou a sua preocupação com o assunto. Em entrevista ao Valor, publicada ontem, Durigan enfatizou que bancos brasileiros já estão sendo forçados a contratar escritórios de advocacia no exterior e fortalecer processos de compliance, mesmo cumprindo exigências da legislação nacional e da regulação do Banco Central. Por um inevitável efeito de transmissão, essa é uma conta que vai bater no cliente: “Os bancos e as fintechs vão ter que aumentar custos e, como a gente sabe, passar isso para tarifa que você paga, para o spread”, disse o ministro.
Nesse novo tabuleiro, segundo quatro analistas ouvidos pelo RR, a XP Investimentos desponta como uma das instituições mais expostas aos efeitos colaterais da medida. O impacto potencialmente maior decorre do próprio modelo de negócios do banco. A atuação comercial da XP está fortemente baseada em uma extensa rede de agentes autônimos espalhados pelo país. São mais de 18,3 mil assessores, reunidos em aproximadamente 600 escritórios. Significa dizer que, de cada três agentes autônomos credenciados no Brasil, dois trabalham para a XP. Essa atomização da força de venda foi fundamental para a instituição financeira atingir o tamanho que tem hoje. No entanto, em um ambiente de redobrada vigilância internacional, ela se torna objeto de maior escrutínio. Até que ponto é possível garantir uniformidade de procedimentos de compliance em cerca de 600 escritórios espalhados pelo país? É exequível manter um grau de supervisão sobre milhares de representantes comerciais compatível com o padrão de diligência que passa a ser exigido pelas autoridades americanas? São questionamentos que tendem a pairar sobre a XP em um cenário em que reguladores, bancos correspondentes, custodiante internacionais e autoridades americanas olharão com muito mais atenção para os mecanismos de controle das instituições financeiras brasileiras.
O debate ganha relevância justamente porque a própria CVM atribui às instituições financeiras a responsabilidade pela fiscalização dos assessores vinculados às suas plataformas. Em outras palavras, quanto maior a rede, maior a carga de supervisão. E quanto maior a carga de supervisão, maior a conta. Ou seja: o mesmo modelo de distribuição que transformou a XP na principal força de ruptura do sistema bancário tradicional pode agora se tornar uma fonte adicional de custos em um ambiente de endurecimento regulatório global.
Spectra reforça caixa para garimpar startups
3/06/2026
Há um gosto amargo de dívida entre os produtores de cacau da Bahia
3/06/2026O cacau é sempre um ingrediente de razoável peso no caldeirão eleitoral baiano. Que o digam o governador Jerônimo Rodrigues, candidato à reeleição, e o ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, que disputa uma vaga no Senado. Os dois petistas têm buscado junto ao governo federal uma ampliação das linhas de crédito para os produtores, em especial por meio do Banco do Brasil, Banco do Nordeste e BNDES. O movimento ocorre em meio a um paradoxo: o cacau atravessa o melhor ciclo de preços das últimas décadas, mas os produtores sofrem com elevadas dívidas e com a escassez de financiamento para expandir a produção. A situação se torna ainda mais delicada porque a explosão dos preços internacionais elevou o custo das mudas, fertilizantes e investimentos necessários para a expansão da produção. Em pouco mais de dois anos, a cotação do cacau saltou de cerca de US$ 2.500 para mais de US$ 10 mil por tonelada nos mercados internacionais, chegando a superar US$ 12 mil em determinados momentos. A Bahia responde por aproximadamente 70% da produção brasileira de cacau.
O problema é que o cacau exige capital paciente. A implantação de um hectare pode custar entre R$ 25 mil e R$ 40 mil, dependendo da tecnologia utilizada. Além disso, uma nova lavoura leva de três a cinco anos para atingir maturidade produtiva. Poucos bancos privados se dispõem a carregar financiamentos com prazo tão longo e retorno tão distante.