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Espanha emerge como novo polo da migração brasileira na Europa
5/06/2026Durante décadas, os Estados Unidos dominaram o imaginário migratório brasileiro do “El Dorado”. Era para lá que seguiam trabalhadores, estudantes e famílias em busca de oportunidades econômicas. Também era dos EUA que vinha a maior parte dos recursos enviados ao Brasil por emigrantes — valores que ajudam a equilibrar contas externas, consumo familiar e circulação de moeda estrangeira no país.
Levantamento realizado pelo RR com base em séries oficiais do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central do Brasil revela, porém, uma transformação silenciosa — e cada vez mais relevante — nas relações financeiras entre o Brasil e a Península Ibérica.
Nas séries selecionadas do BC para transferências pessoais, Portugal aparece como um dos principais corredores financeiros ligados à migração brasileira, atrás dos Estados Unidos, em volume absoluto entre os países analisados. O dado novo e mais relevante, contudo, é outro: a Espanha tornou-se o país europeu com maior crescimento proporcional das remessas de dólares por pessoas. Esse fenômeno pode estar associado ao crescimento da comunidade brasileira nos últimos anos, cerca de 25%.
Os números ajudam a explicar uma mudança geopolítica, econômica e migratória já perceptível nas ruas de Lisboa, Madri, Barcelona, Valência e Málaga: a Península Ibérica consolidou-se como o principal eixo migratório brasileiro na Europa.
Ainda assim, o fenômeno permanece relativamente subestimado nos corredores diplomáticos brasileiros, enquanto reclamações de migrantes sobre burocracia, moradia e regularização crescem em nas embaixadas de Portugal e Espanha.
Segundo dados da Agência de Migrações lusa (AIMA), Portugal possui atualmente cerca de 500 mil brasileiros entre residentes regularizados e pessoas em processo de regularização. Mas há quem estime que esse valor está subestimado por não levar em conta os detentores de dupla cidadania e os indocumentados. Já Na Espanha, o Instituto Nacional de Estadística e o Ministerio de Inclusión, Seguridad Social y Migraciones apontam para uma comunidade brasileira já está próxima a 200 mil pessoas — número que continua em expansão.
Mais do que simples estatísticas migratórias, os fluxos cambiais mostram como essas comunidades passaram a movimentar uma economia transnacional própria, baseada em: remessas familiares; pagamento de aluguel; apoio estudantil; compra de imóveis; abertura de empresas; manutenção de famílias divididas entre continentes; e circulação permanente de capital entre Brasil e Europa.
Os dados do Banco Central sugerem que a migração brasileira para Portugal entrou numa fase de consolidação estrutural. Já a Espanha, parece viver o início de um novo ciclo migratório acelerado — semelhante ao observado em Portugal após a pandemia.
Portugal, corredor financeiro migratório do Brasil
Os dados de transferências pessoais do Banco Central mostram que Portugal permaneceu entre os principais destinos de remessas enviadas do Brasil ao exterior no primeiro trimestre entre 2020 e 2026.
Tabela 1 — Países para onde moradores do Brasil mais enviaram dólares
Transferências pessoais — despesa
1º trimestre de cada ano (jan–mar) — US$ milhões
| País | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | 2026* | Total 2020–2026 | Variação % |
| EUA | 121 | 136 | 149 | 161 | 158 | 152 | 109 | 986 | -9,9% |
| Portugal | 77 | 92 | 103 | 118 | 111 | 106 | 82 | 689 | +6,5% |
| Reino Unido | 25 | 29 | 33 | 36 | 35 | 34 | 27 | 219 | +8,0% |
| Canadá | 18 | 22 | 27 | 31 | 30 | 29 | 24 | 181 | +33,3% |
| Bolívia | 16 | 19 | 24 | 27 | 25 | 24 | 19 | 154 | +18,8% |
Obs (*): Dados do 1º trimestre de 2026.
Fonte: elaboração própria do RR com base no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central do Brasil. Dados trimestrais oficiais do 1º trimestre de cada ano (jan–mar), em US$ milhões. Séries utilizadas: EUA (24793), Portugal (24794), Bolívia (24795), Reino Unido (24796), Espanha (24797) e Canadá (24802). Última atualização disponível: 24/04/2026.
No acumulado do período analisado, Portugal recebeu US$ 689 milhões em transferências pessoais originadas no Brasil, apenas no recorte do primeiro trimestre de cada ano. O dado chama atenção por diversos fatores. Primeiro porque Portugal possui população muito inferior à dos Estados Unidos. Segundo porque o fluxo financeiro permaneceu elevado mesmo após: a crise habitacional portuguesa; a desaceleração econômica europeia; o endurecimento do debate político migratório; e os problemas administrativos enfrentados pela AIMA.
Os números sugerem que a migração brasileira para Portugal deixou de ser apenas conjuntural. Tornou-se estrutural.
O ciclo português desacelera, mas não desaparece
Os dados revelam outro movimento relevante: o ritmo de crescimento desacelerou fortemente após 2023.
Tabela 2 — Crescimento anual das transferências do Brasil para Portugal
| Ano | Crescimento anual |
| 2021 | +16,0% |
| 2022 | +12,8% |
| 2023 | +11,0% |
| 2024 | -3,8% |
| 2025 | -3,9% |
| 2026 | -24,3% |
Fonte: elaboração própria do RR com base nas séries do SGS/Banco Central do Brasil.
O comportamento é compatível com uma onda migratória que amadureceu. Entre 2021 e 2023 houve: instalação familiar; pagamento de cauções imobiliárias; aluguel; compra de mobiliário; regularizações; abertura de atividade profissional; e envio intenso de capital inicial.
Depois disso, os fluxos tendem naturalmente a desacelerar porque muitos emigrantes já estão estabilizados financeiramente e administrativamente. Mas o ponto mais relevante é saber se Portugal continua ocupando posição importante na circulação financeira ligada à diáspora brasileira. Mesmo com: inflação imobiliária; crise de moradia; aumento dos aluguéis; desaceleração econômica; e maior burocracia migratória, os fluxos financeiros permanecem elevados.
Segundo o Banco de Portugal, o país enfrenta desaceleração do crescimento, pressão sobre o mercado imobiliário e perda de produtividade — fatores que afetam diretamente a comunidade migrante. Hoje, muitos brasileiros em Portugal movimentam recursos para: sustentar familiares no Brasil; manter imóveis; pagar cursos; financiar processos de nacionalidade; reorganizar patrimônios; ou investir entre os dois lados do Atlântico.
A Espanha será a nova Portugal?
Se Portugal representa uma migração brasileira consolidada, a Espanha começa a representar uma migração emergente e acelerada. Os volumes absolutos ainda são menores. Mas o crescimento proporcional chama atenção.
Tabela 3 — Países que mais enviaram dólares ao Brasil
Transferências pessoais — receita
1º trimestre de cada ano (jan–mar) — US$ milhões
| País | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | 2026* | Total 2020–2026 | Variação % |
| EUA | 338 | 471 | 563 | 612 | 545 | 557 | 601 | 3.687 | +77,8% |
| Portugal | 51 | 66 | 79 | 88 | 91 | 97 | 103 | 575 | +102,0% |
| Reino Unido | 34 | 39 | 46 | 51 | 54 | 58 | 61 | 343 | +79,4% |
| Suíça | 28 | 31 | 36 | 41 | 43 | 45 | 48 | 272 | +71,4% |
| Espanha | 22 | 27 | 31 | 36 | 38 | 41 | 44 | 239 | +100,0% |
* Dados do 1º trimestre de 2026.
Fonte: elaboração própria do RR com base no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS) do Banco Central do Brasil. Dados trimestrais oficiais do 1º trimestre de cada ano (jan–mar), em US$ milhões. Séries utilizadas: EUA (24781), Portugal (24785), Espanha (24786), Suíça (24787), Reino Unido (24789) e Canadá (24790). Última atualização disponível: 24/04/2026.
As séries do Banco Central indicam crescimento consistente das transferências pessoais associadas à comunidade brasileira na Espanha entre 2020 e 2026.
O movimento coincide com: expansão da comunidade brasileira; aumento do número de estudantes; flexibilização migratória; e maior atratividade econômica relativa no contexto ibérico.
Espanha flexibiliza entrada de migrantes; Portugal endurece as regras
A diferença entre Portugal e Espanha começou a ficar mais evidente após 2023. Portugal passou a discutir: endurecimento de regras migratórias; revisão das políticas de nacionalidade; aumento de exigências burocráticas; e mudanças no sistema de regularização.
Já a Espanha adotou movimento distinto. Segundo o Ministerio de Inclusión, Seguridad Social y Migraciones, Madri ampliou: mecanismos de regularização; vistos de estudo; autorizações de trabalho; permanência estudantil; e possibilidades de transformação de vistos temporários em residência.
Além disso, brasileiros possuem vantagem relevante no sistema espanhol: cidadãos ibero-americanos podem solicitar nacionalidade após dois anos de residência legal contínua.
Nas redes sociais de brasileiros residentes na Europa, tornou-se frequente a expressão: “A Espanha virou a nova Portugal.” A frase resume uma mudança importante: custo de vida relativamente mais equilibrado; cidades maiores; mercado imobiliário mais distribuído; maior dinamismo econômico; e menor saturação administrativa.
Madri, Valência, Málaga e Sevilha passaram a atrair perfis que antes escolhiam Lisboa ou Porto quase automaticamente.
Os dados do Banco Central mostram algo maior do que simples remessas familiares.
Eles indicam a formação de um corredor econômico transatlântico permanente entre Brasil, Portugal e Espanha, impulsionado por: migrantes; estudantes; trabalhadores remotos; famílias binacionais; aposentados; empreendedores; e comunidades digitais.
Os Estados Unidos continuam liderando em volume absoluto de transferências pessoais envolvendo brasileiros. Ainda assim, os dados sugerem que Portugal e Espanha consolidaram-se como dois dos principais eixos europeus da mobilidade financeira associada à diáspora brasileira.
Mais do que remessas familiares, os fluxos indicam uma reorganização estrutural da presença brasileira na Península Ibérica — fenômeno que tende a ganhar ainda mais relevância na próxima década.
Quem será o “Carlos Piani” da Copasa?
5/06/2026
Pátria e Kinea avaliam aporte de capital da Winity
5/06/2026A possibilidade de uma nova injeção de capital na Winity Telecom entrou no radar do Pátria Investimentos e da Kinea, os dois principais acionistas da empresa. Segundo informação que circula no mercado, as duas gestoras avaliam o aporte com o objetivo de acelerar a guinada da companhia para infraestrutura móvel no atacado, com foco em redes neutras, cobertura indoor, conectividade corporativa e soluções wireless para operadoras. A Winity atua hoje na locação de infraestrutura passiva de telecom, incluindo torres e rooftops, além de soluções built-to-suit, DAS e SLS. Entre os contratos relevantes está o acordo com o Metrô de São Paulo para prestação de serviços de DAS e Wi-Fi nas Linhas 1, 2 e 3. O alvo agora é ampliar essa base de ativos e ocupar espaços em que as grandes teles preferem dividir capex a construir tudo sozinhas. Procuradas, Kinea e Pátria não se manifestaram.
Ressalte-se que essa “nova Winity” ainda carrega sombras da “velha Winity”. Em 2021, a empresa chegou a arrematar a faixa nacional de 700 MHz no leilão do 5G, pagando cerca de R$ 1,4 bilhão. O plano original era transformar a frequência em uma grande plataforma de infraestrutura móvel compartilhada para operadoras. O projeto, no entanto, esbarrou em uma sucessão de entraves regulatórios. A Anatel passou a impor restrições à utilização da faixa e aos acordos que a Winity pretendia firmar com as grandes teles, comprometendo a viabilidade econômica do modelo de negócios. Por fim, a companhia se viu forçada a devolver a concessão. A controvérsia, porém, ainda está longe de ter sido encerrada. O Conselho Diretor da Anatel avalia a ampliação das sanções contra a empresa, sob o entendimento de que a devolução da frequência não eliminaria automaticamente as obrigações assumidas no leilão nem os efeitos do atraso na execução da política pública associada ao certame.
A polêmica regulatória, ressalte-se, não inibiu a Kinea de apostar na Winity. O braço de private equity do Itaú se junto ao Pátria Investimentos no negócio no fim do ano passado, endossando o potencial de crescimento da empresa. A Fitch, por exemplo, estima que a empresa poderá alcançar receita acima de R$ 155 milhões em 2027, com margem Ebitda superior a 55%.
Mexicana Savia garimpa agtechs e foodtechs no Brasil
5/06/2026Corre no mercado que a mexicana Savia Ventures está prospectando novas startups no Brasil. A gestora já fez um investimento na BackChannel, marketplace B2B que conecta estoques excedentes de grandes marcas a pequenos varejistas brasileiros. O alvo agora são foodtechs, e agtechs especializadas em tecnologias climáticas. A movimentação faz parte da estratégia de expansão da gestora na América do Sul. O portfólio dos mexicanos na região já inclui as chilenas Done Properly, foodtech que usa fermentação para produzir ingredientes sustentáveis e alternativas à proteína animal, Strong by Form, startup de biocompósitos de madeira, a argentina Satellites on Fire, climate tech de detecção de incêndios florestais, e a colombiana Ruedata, plataforma de gestão preditiva de pneus. A Savia investe em companhias em estágio pré-seed e seed e seus cheques costumam oscilar entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões.
Cortes na Educação viram combustível anti-PT no Ceará
5/06/2026O ex-ministro da Educação Camilo Santana tem feito gestões junto à equipe econômica na tentativa de destravar verbas bloqueadas da Pasta – o contingenciamento total ultrapassa R$ 1 bilhão. Não se trata de uma demonstração de saudosismo ou de apego ao antigo cargo, mas, sim, de cálculo político. Os cortes no Ministério da Educação acenderam um sinal de alerta no PT do Ceará, onde o atual governador, Elmano de Freitas, está levando uma surra de Ciro Gomes nas pesquisas eleitorais. O bloqueio de verbas tem atingido, sobretudo, a Universidade Federal do estado (UFC) e a Universidade Federal do Cariri (UFCA). A UFCA já foi forçada a reduzir seu já espremido orçamento discricionário em quase 10%, com risco direto sobre ensino, pesquisa, extensão e assistência estudantil. É um prato cheio para Ciro se fartar na disputa eleitoral. O assunto bate diretamente no PT, dada a inevitável vinculação ao partido e, mais especificamente, ao próprio Santana, que, até outro dia, estava à frente da Educação. O ex-ministro está na linha de frente da coordenação da campanha de Freitas à reeleição. Mais do que isso: no PT há quem defenda que ele próprio dispute a eleição caso o atual governador continue derrapando nas pesquisas, nas quais aparece mais de dez pontos percentuais atrás de Ciro. Ressalte-se que, durante a sua passagem pelo Ministério da Educação, Santana anunciou quase R$ 800 milhões em investimentos para instituições federais cearenses, um capital político que corre o risco de perder densidade por conta dos cortes orçamentários. Ciro agradece.