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Como colocar o orçamento de volta para dentro do orçamento?

21/11/2025
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O governo – seja ele qual for – já tem uma missão hercúlea a sua espera em 2027: “reconstitucionalizar” o orçamento federal. O desafio é desmontar o regime de exceção fiscal, com a utilização permanente de um orçamentário paralelo, criado a partir das sucessivas exclusões de gastos do cálculo da meta fiscal. O expediente não é uma jabuticaba do atual governo. Na gestão Bolsonaro, foi utilizado a rodo. A retirada do pagamento dos precatórios foi um exemplo emblemático de operação parafiscal. Só que Lula está levando a desmoralização do orçamento longe demais. Desde o início do seu mandato, o montante de gastos parafiscais, compreendidos como despesas artificialmente retiradas do orçamento da União, somam R$ 342 bilhões. Somente neste ano, essas rubricas já estão em R$ 67 bilhões, a maior parte referente ao pagamento de precatórios (R$ 48,6 bilhões). Esse valor equivale a 1,1% do orçamento da União em 2025. Ou a 0,57% do PIB projetado para este ano. É “pouco” se comparado ao contorcionismo contábil de 2023, quando os gastos fora da meta chegaram a R$ 241 bilhões – o correspondente a 4,8% do orçamento ou 2,2% do PIB. Aquele ano ainda trazia a reboque as sequelas da pandemia, com R$ 145 bilhões da PEC da Transição e R$ 92 bilhões em precatórios expurgados da meta fiscal. Digamos que, de fato, havia excepcionalidades. Neste ano, no entanto, o que se vê é uma “mini-Covid” nas contas públicas. O total de despesas jogadas para o “orçamento do B” representa o dobro da cifra de 2024 (R$ 33 bilhões). E tem tudo para aumentar. O governo já sinalizou a intenção de tirar do cálculo da meta os dispêndios com segurança pública. Quando a exceção se excede, ela passa a ser regra.  Ou seja, a nova moda não é mais fazer política fiscal, mas, sim, parafiscal.
O contraditório nesse espetáculo de artificialismos é que pode não ser nada simples ou muito simples alcançar a meta fiscal em um ano eleitoral, quando normalmente os gastos do governo são maiores. Agora, tudo depende de ser achar uma justificativa para tirar a despesa do orçamento. Mantidas as regras normais, não será nada corriqueiro para a próxima gestão colocar novamente essa contabilidade lateral para dentro do orçamento e consequentemente do cálculo da meta fiscal. O desafio para 2027 se materializa nos dois lados da moeda: receita e despesa. Pela face da arrecadação, o futuro governo não vai dispor de “margem fiscal” ampliável — ou seja, dificilmente poderá elevar muito a carga tributária ou expandir a base sem comprometer competitividade ou gerar instabilidade. Em relação aos custos, não há muito onde cortar, a não ser que o próximo presidente esteja disposto a fazer uma sangria nos programas sociais, uma hemorragia nas renúncias fiscais ou uma cirurgia na Constituição, extirpando parte das despesas obrigatórias, notadamente em saúde e educação.  O calendário eleitoral é um muro de cimento para que essas medidas sequer tramitem no Congresso. É isso ou, então, manter as gambiarras temporárias usadas para o cumprimento das regras do arcabouço fiscal. Temporárias, mas, ao mesmo tempo, contínuas: o risco é que medidas ditas emergenciais se perpetuem como atenuantes estruturais da disciplina fiscal.
Para este ano, toda essa ginástica tem como objetivo atingir o piso da meta, ou seja, um déficit de 0,25% do PIB, ou algo como R$ 31 bilhões. No mundo real, em 2027, ano em que o fiscal pode se tornar sobrenatural, o governo terá de alocar 10% do estoque de precatórios dentro da meta fiscal. Para 2026, o volume desses títulos inscritos para pagamento é de R$ 70 bilhões. No ano que vem, conforme ressaltou o Valor Econômico em editorial na última quarta-feira, o governo deve fechar as contas públicas com superávit de 0,25% do PIB, segundo os economistas Manoel Pires e Bráulio Borges, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre). Será a visita da saúde fiscal. De acordo com um modelo de médio prazo elaborado por Pires e Borges, a partir do de metodologia do Congressional Budget Office dos EUA, os déficits primários tendem a se estender por dez anos mantidas as atuais condições de temperatura e pressão das contas públicas. Para não falar, como bem lembra o Valor, que a partir de 2028 a União começará a pagar os recursos do Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais – o desembolso previsto é R$ 160 bilhões em quatro anos. Com isso, já há uma piora do déficit contratada para 2029 próxima de 1% do PIB. Segundo a Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado Federal que analisa as contas públicas, para o cumprimento da meta fiscal em 2026 o governo terá de aumentar sua arrecadação ou cortar despesas em cerca de R$ 80 bilhões.  Dependendo da qualidade da narrativa ou da argumentação, uma parcela desse montante pode muito bem parar no limbo do parafiscal. O problema, em 2027, e talvez com esse mesmo presidente, vai ser fazer com que essas contas caiam do céu de novo na terra.

#Economia #orçamento

Governo

“PEC das Outorgas” ameaça engessar ainda mais o orçamento

13/01/2025
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Há mais um pedregulho orçamentário à vista no caminho do governo Lula. O PL promete um rolo compressor para acelerar a tramitação da PEC 1/2021. O partido já se articula junto ao deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), favorito na eleição à presidência da Câmara, para que o projeto seja levado a plenário ainda no primeiro trimestre. De autoria do senador Wellington Fagundes (PL-MT), a proposta prevê que ao menos 70% dos recursos obtidos pela União com outorgas na área de transporte sejam reinvestidos no próprio setor. Ou seja: a PEC ameaça criar mais um grilhão no orçamento. A PEC já foi aprovada no Senado e, ao apagar das luzes de 2024, recebeu sinal verde da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

#governo Lula #Hugo Motta #orçamento

Governo

Corte na saúde e educação cria mais uma fissura entre a ala política e a equipe econômica

24/04/2024
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Mais uma vez, pela ala política do Planalto, capitaneada pelo ministro chefe da Casa Civil, Rui Costa, voltam as discordâncias de fundo com Fernando Haddad e Simone Tebet. O impasse agora não é a meta inflacionária – em que pese o cenário internacional estar nos empurrando na direção de um eventual repique dos preços internos, levando o BC a sair de uma modesta sinalização da queda da taxa de juros para reiniciar um ciclo de Selic mais alta. O fato é que o stop and go da taxa básica desgasta o BC e tem efeito político negativo. Mas a questão citada acima, que vem sendo tratada com todo cuidado, é a possibilidade de uma mexida na cláusula de alocações fixas de recursos saúde e educação, encravada na Constituição. A obrigatoriedade de um percentual pré-determinado do orçamento para saúde e educação é a bola da vez. Uma bola até murcha de tanta discussão, mas que agora parece voltar ao campo recauchutada. Essas duas determinações levam a um engessamento dos gastos e a uma controversa premissa de que as prioridades do país não vão mudar nunca, nem de setor, nem na exigência quantitativa. Em tom de blague, nas condições atuais, um maremoto na costa brasileira talvez pudesse gerar um debate se os rígidos recursos da saúde e educação poderiam ou não ser deslocados para combater o desastre.

A Constituição determina, em seu Artigo 212, que a União deve aplicar pelo menos 18% da receita com impostos em educação. No caso dos estados e municípios, o sarrafo é ainda mais alto: 25%. Em relação à Saúde, o gasto obrigatório da União fixado pelo Artigo 198 da Carta Magna corresponde a 15% de sua Receita Corrente Líquida. Já estados e municípios devem canalizar, respectivamente, 12% e 15% da arrecadação tributária para a saúde. Parece claro que ninguém discute a prioridade dos dois setores, que precisam ser protegidos das extravagâncias fiscais e políticas brasileiras, a exemplo dos recursos destinados crescentemente às emendas parlamentares – só elas comem mais da metade do dinheiro do diferencial dos valores orçamentários para saúde e educação a título de despesas obrigatória. Mas digamos que a dupla Haddad e Tebet ganhe a parada. A mudança da regra ficaria para algum campo futuro, distante do atual mandato. É mais um aperfeiçoamento do que um dispositivo de uso imediato. Qualquer dessas medidas dificilmente poderá ser tomada no ano que vem, devido à dobradinha LDO e eleições presidenciais, no caso da LDO de 2025 somente poder ser aplicada em 2026. E mais: a alteração das transferências é matéria constitucional. E como reforma constitucional é geradora de polêmicas, imaginem algo dessas proporções. Melhor ir devagar com o andor. Portanto, as dificuldades de implementação das mudanças nas diretrizes orçamentárias empurram o efeito da alteração para 2026. É um problema: o projeto não é a bandeira talhada para uma disputa eleitoral. Se dependesse de Haddad e de Tebet, a medida já vinha neste ano, com percentual de redução fixo: para começar um ponto percentual na dotação do orçamento da saúde e outro ponto percentual no da educação. Parece que Haddad e Tebet estão monotematicamente focados no fiscal. Mas há melhorias que precisam ser feitas pelo seu efeito positivo multidisciplinar.

No que diz respeito à mudança do percentual de obrigatoriedade nos gastos em saúde e educação, não há nenhuma evidência empírica ou estudo científico sobre os números da transferência orçamentária não poderem ser alterados ou que os percentuais tenham de ser os estabelecidos. O mesmo se aplica à adoção de um sistema de bandas, novo quindim do corpo técnico (revelação em primeira mão do RR). Nessa última fórmula, haveria um intervalo onde os recursos poderiam fluir para outras áreas. Sair da educação um tanto para saúde mesmo, por exemplo. Ou quem sabe um tiquinho para ciência e tecnologia ou mesmo para a segurança, mantida, é claro, a essência da prioridade original. Com os dados disponíveis hoje, passado tanto tempo desde 1988, é bem provável que os tetos e pisos da obrigatoriedade orçamentária devam ter sido decorrentes da iniciativa de algum constituinte que achou da sua cabeça os percentuais convenientes. E ponto final.

O intervalo entre as bandas deveria ser reduzido de forma a não descaracterizar as prioridades-chave, saúde e educação. A flexibilização dos pisos poderia, hipoteticamente, ter contribuído em algum percentual das transferências de R$130 bilhões, em 2023. Para este ano, os valores reservados no PLDO são de R$ 231 bilhões em saúde e R$ 181 bilhões em educação. Estamos falando de uma verba superior a R$ 400 bilhões. Justo? Justíssimo? Mas há espaço para a flexibilidade? Claro que há. Não raro esse dinheiro carimbado, com obrigatoriedade de uso, fica como sobra de gastos para o ano que vem. Nesse sistema de bandas, apenas como exemplo hipotético, uma variação para baixo ou para cima de dois pontos percentuais no piso significaria a liberação de R$ 8 bilhões do orçamento para outras áreas ou a adição de igual valor nas despesas com saúde e educação. Ou não. Mas as autoridades responsáveis pelas respectivas Pastas ou outras de influência correspondente ou superior teriam o direito de argumentar pela sua tese da adoção das mudanças.

Ressalte-se que o sistema de bandas, caso implementado, não seria um instrumento para uma espécie de estelionato fiscal, apenas idealizado para ajudar no equilíbrio fiscal – não sejamos hipócritas, eventualmente pode gerar algum efeito positivo – mas, sim, alterado para permitir mudanças entre o teto e o piso, em situações de necessidade comprovada. O que o governo precisa é ter alguma flexibilidade. Não há país que condicione com tamanha rigidez os gastos setoriais orçamentários, isso em qualquer época ou diante de qualquer problema. Em uma análise preliminar é uma forma de mitigar a percepção que o país não cumpre o que determina. É um verdadeiro fracasso institucional e uma demonstração de que o país não é sério.

Consta que o Dr. Ulysses Guimarães e o ex-ministro da Previdência Raphael de Almeida Magalhães, depois de aprovada a Constituição, foram ao então templo etílico de Brasília, o Piantella, comemorar o feito e a vitória de algumas grandes inclusões feitas na Carta Magna, entre elas a criação do Ministério Público e o piso para as dotações orçamentárias em educação em saúde. O arguto político e verdadeiro líder da Constituinte falou baixinho: “Sim, foi uma vitória. O problema vai ser tirá-las da Constituição.” Quando uma coisa começa a atrapalhar mais do que ajudar, é hora de mudar antes que ela atrapalhe muito mais.

#Educação #orçamento #Saúde

Governo

Ciência e Tecnologia corre o risco de mais um talho em seu orçamento

11/12/2023
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No fim da tarde da última sexta-feira, circulava nos gabinetes do Ministério da Ciência e da Tecnologia a informação de que a Pasta poderá sofrer mais um bloqueio em seu orçamento no apagar das luzes de 2023. O contingenciamento seria da ordem de R$ 100 milhões. O número supera o corte de R$ 79 milhões anunciado no último 30 de novembro, quando o Ministério da Fazenda e do Planejamento bloquearam R$ 1,1 bilhão em recursos de 14 Ministérios.

#Ministério da Ciência e da Tecnologia #Ministério da Fazenda e do Planejamento #orçamento

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