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Lula é fiel apenas ao que enxerga no espelho
22/01/2026Há uma importante mudança climática em Brasília: a relação entre Fernando Haddad e Lula, uma das principais âncoras do atual governo, esfriou consideravelmente. Segundo interlocutores do ministro, Haddad está sensivelmente decepcionado com toda a dinâmica que cerca a sua já anunciada saída do cargo. Não era esse o script que ele esperava desempenhar ou sequer estava combinado. De acordo com informações filtradas pelo RR, o acordo era que Haddad deixaria o governo mais à frente, em uma data arbitrada por ele próprio e preferencialmente após uma conquista de inegável dimensão política, como, por exemplo, a regulamentação da reforma tributária, ainda pendente no Congresso.
Em dezembro, ele próprio chegou a indicar que fevereiro seria um timing “ideal” para a passagem do bastão. Mas o roteiro desandou. Haddad foi forçado a antecipar sua saída do Ministério da Fazenda pelo próprio Palácio do Planalto, notadamente os ministros Rui Costa e Gleisi Hoffmann, os dois principais vocalizadores do PT dentro do governo.
Resumo da ópera bufa: o “aviso prévio” pode até não ter partido diretamente de Lula, mas Haddad definitivamente não contou com a fidelidade do presidente da República, nem de qualquer prócer do PT, no desfecho da sua passagem pelo comando da economia. Na prática, Lula optou por assistir ao desgaste do seu ministro sem oferecer respaldo público, permitindo que o cerco político se fechasse ao redor de Haddad sem qualquer gesto de proteção ou mediação direta.
Como bem disse Dilma Rousseff no documentário “Democracia em Vertigem”, “Lula faz política por fato consumado”.
Fernando Haddad é sabidamente um dos quadros mais preparados do PT. À frente da Fazenda, lutou pelos projetos mais difíceis do governo, quase sempre tendo de transitar por territórios hostis, notadamente no Congresso. Desde a campanha, foi o grande fiador de Lula junto aos mercados. Por tudo, é mais do que natural que ele próprio alimente uma dose de mágoa em razão da forma como está deixando o Ministério, quase que sob “ordem de despejo”. O que mais incomoda Haddad é o argumento do PT de que ele conversava mais com a Faria Lima do que com o partido. Assim é se lhe parece. Pela ótica petista, trata-se de um “pecado” passível de ser administrado nos três primeiros anos de governo, mas não às vésperas de um eleição. Por essa razão, a ala política do governo resolveu “fechar a conta” antes: Haddad sai não quando entende que concluiu a missão, mas quando a política decide que a missão passou a atrapalhar a campanha.
Fontes palacianas ouvidas pelo RR corroboram as informações apuradas pela colunista Júlia Dualibi e publicadas hoje em O Globo. Haddad teria sido escanteado para cumprir em nome de Lula e do PT mais uma missão de derrota prévia. Seria candidato ao governo de São Paulo apenas para obter o quantum de votos considerados necessários no estado para a reeleição de Lula. Depois poderia ir para a Casa Civil, Secretaria de Assuntos Estratégicos, ou qualquer canto do governo – desde que não fosse a Pasta da Fazenda – e esperar quatro anos para ver se Lula apontaria o dedo em sua direção, ungindo-o como candidato a sua sucessão, em 2030.
É um velho aforismo que fidelidade e política não combinam. Haddad com certeza é uma exceção. Foi cumprir missão de concorrer à Presidência. Perdeu. Foi escalado para disputar o governo de São Paulo e perdeu novamente. Posteriormente, chamado para ser ministro da Fazenda, foi obrigado a ser o negociador do governo no Congresso, ou por acefalia ou por incompetência dos demais. Não bastassem tantas demonstrações de absoluto engajamento, sobram também provas de carinho ao mestre. Depois de Gleisi Hoffmann, Haddad foi o quadro do partido que mais visitou Lula em sua estadia no cárcere.
Em tempo: com a saída de Fernando Haddad, o PT quer fazer barba, cabelo e bigode. Rei posto, rei morto. Conforme o próprio RR já informou (https://relatorioreservado.com.br/noticias/os-candidatos-do-pt-ao-lugar-de-haddad-sim-mantega-esta-entre-eles/), o partido trabalha para emplacar na Fazenda um nome que reze pela sua cartilha econômica.
Mesmo que seja um fantoche para desempenhar o papel de ministro de araque nesses nove meses que faltam até as eleições. Caso o verdadeiro script seja esse, resta ver como a Faria Lima vai reagir a essa engenhosa trama.
Trancando a porta do aviário de Trump
22/01/2026Na manhã de hoje foi formalizada a criação do Conselho da Paz proposto por Donald Trump numa cerimônia realizada em Davos em que estiveram presentes, além do atual ocupante da Casa Branca, chefes de Estado de numerosos países, incluindo Argentina, Catar, Hungria, Indonésia, Paquistão e Paraguai, além de altos representantes da Arábia Saudita, Emirados, Jordânia e Turquia. Segundo autoridades norte-americanas, dos cerca de 60 países convidados mais da metade já teria concordado em participar, embora muitos países ainda estudem o convite (incluindo China e Rússia) e seis já o tenham recusado (Dinamarca, Eslovênia, França, Itália, Noruega e Suécia).
Com essa formalização, deixa de ser a válida a sugestão que fiz em artigo anterior, intitulado “O aviário de Trump” (https://relatorioreservado.com.br/noticias/o-aviario-de-donald-trump/), no sentido de que o Brasil poderia condicionar sua presença no órgão a determinadas modificações (certamente inaceitáveis) no projeto de estatuto que havia acompanhado o convite de Trump a Lula. Isso porque, segundo o próprio estatuto, não são admitidas reservas ao texto depois que a entidade entrasse em vigor como acaba de ocorrer.
Nessas circunstâncias, só resta agora ao Brasil negar sua participação devido à série de graves defeitos que apontei em outro artigo neste espaço, intitulado “Uma pomba sobrevoa o Palácio do Planalto” (https://relatorioreservado.com.br/noticias/uma-pomba-sobrevoa-o-palacio-do-planalto/). Entre os mais obviamente impossíveis de serem aceitos pelo Brasil constavam a possibilidade de atuação do Conselho da Paz fora da Faixa de Gaza (que foi exclusivamente contemplada na Resolução 2083 do Conselho de Segurança das Nações Unidas) e o fato de que Donald Trump deterá a presidência vitalícia da nova entidade, devendo designar seu sucessor de maneira a gerar naquele território um feudo dinástico.
No entanto, como não há o menor interesse de que o Brasil hostilize o proponente do Conselho e os numerosos membros já confirmados, é recomendável que nossa recusa seja justificada por razões constitucionais. Com efeito, o artigo 4 da Carta Magna lista os princípios que regem as relações internacionais do país e, entre eles, como item quinto, se afirma a igualdade entre os Estados. Ora, o estatuto do Conselho da Paz viola esse princípio ao estabelecer diferenças frontais entre a) Estados convidados e não convidados por Trump, e b) Estados com mandato inicial de três anos sujeito a renovação por decisão monocrática de Trump e Estados com assento permanente caso paguem US$ 1 bilhão pela cadeira cativa.
Valendo-se desse argumento perfeitamente válido e correto, a ser explicitado em carta sóbria do presidente Lula ao presidente Trump, ficam nossas autoridades eximidas de declarar quaisquer outros motivos para sua decisão. Nessa comunicação, aliás, é fundamental enfatizar nosso desejo de que se estabeleça a paz duradoura na Faixa de Gaza, de que os palestinos gozem de padrões de vida condizentes com sua condição de cidadãos de pleno direito daquele território e de que as novas condições a serem ali criadas conduzam à formação definitiva do Estado palestino e à solução dos dois Estados.
Nada impedirá que possamos contribuir com o Conselho da Paz na realização de tais objetivos e até mesmo formar, com outros países que se neguem a dele participar, um grupo permanente de acompanhamento de suas atividades.
Cabe, porém uma última palavra dirigida àqueles que têm ótimas razões para crer que esse Conselho, tal como constituído, possa se transformar numa gigantesca fonte adicional de riqueza para o genro de Trump, Jared Kushner, outros membros de sua família e os multibilionários que o cercam. Os dirigentes de Egito, Catar e Turquia (conegociadores do cessar-fogo com os Estados Unidos em novembro de 2024), bem como os da Jordânia, Emirados e Arábia Saudita – em suma, todos os países árabes da região direta ou indiretamente envolvidos no conflito -, têm pleno conhecimento do que está em jogo. Se aceitam participar do Conselho é devido à convicção de que o mesmo ocorreria caso Israel anexasse a Faixa de Gaza e os palestinos que ali moram se transformassem eternamente em cidadãos de segunda classe sem qualquer respeito por suas vidas, bem-estar ou o direito de um dia criarem um Estado próprio.
Dexco é a nota dissonante entre os negócios dos Setúbal
22/01/2026A Dexco, antiga Duratex, tornou-se um piso escorregadio para os Setúbal. A queda de rentabilidade e, sobretudo, a crescente alavancagem têm forçado o clã a discutir medidas mais agudas para a reestruturação financeira da companhia. Segundo informações obtidas pelo RR, uma das hipóteses que ganha força é a venda de uma das divisões de revestimentos cerâmicos da companhia – Portinari, Castelatto e Ceusa. Sob certo aspecto, funcionaria como uma confissão de fracasso do modelo de negócio concebido pela Itaúsa em 2018, quando a então Duratex deixou de ser uma empresa concentrada em madeira, celulose e painéis para se tornar uma holding integrada de soluções para construção, reforma e acabamento. Na prática, seria o segundo passo atrás em relação a essa estratégia. O primeiro se deu em outubro de 2024, ocasião em que a Dexco se desfez da sua operação de chuveiros e torneiras elétricas, leia-se as marcas Corona e Thermosystem, negociada para a Zagonel.
Paralelamente à venda de ativos, há relatos no mercado sobre a possibilidade de um aporte de capital na Dexco. Seria mais uma medida com o objetivo de reduzir o endividamento da empresa. De certa forma, ainda que de maneira oblíqua – ou camuflada -, esse movimento já começou a ser feito pelos Setúbal – levando junto os Moreira Salles. Há cerca de duas semanas, a Dexco vendeu R$ 200 milhões em ativos florestais por meio da emissão de ações da controlada Jatobá Florestal. O comprador dos papéis? O Itaú Unibanco. Ficou tudo em casa. Na prática, os próprios acionistas controladores tiraram de uma mão para colocar na outra, injetando recursos na companhia. Consultada pelo RR, a Dexco limitou-se a dizer que “o que pode falar é o que está no comunicado ao mercado”, referente à venda de recursos florestais. Sobre a possibilidade de negociação de ativos e de um aumento de capital, nenhuma palavra.
A Dexco é hoje um negócio fora de sintonia na partitura empresarial dos Setúbal. O elevado nível de alavancagem não condiz com o padrão das demais companhias do clã. Nos últimos três anos, o passivo da empresa aumento consideravelmente. Em 2022, a relação dívida líquida/Ebitda fechou em 2,33 vezes. No terceiro trimestre de 2025, chegou a 3,48 vezes. Na Itaúsa há um senso de urgência em equacionar o endividamento, até porque ele tem ajudado a corroer a rentabilidade da Dexco. Entre janeiro e setembro de 2025, o lucro da companhia caiu 26% em relação a igual período no ano anterior (R$ 111 milhões, contra R$ 152 milhões). Na comparação entre os terceiros trimestres, a fotografia é ainda pior: queda de 84% (R$ 14 milhões, contra R$ 92 milhões).
PicPay, dos irmãos Batista, chega à Nasdaq com demanda cheia
22/01/2026Informação que circula à boca miúda no mercado: a J&F, dos irmãos Batista, já tem demanda garantida para a totalidade dos papéis do PicPay que serão colocados na Nasdaq. Mais do que isso: a procura pelas ações já teria superado em aproximadamente 20% o valor da oferta. Ao todo, a J&F planeja levantar US$ 434 milhões, o que significa um valuation de US$ 2,6 bilhões para a fintech. Um personagem importante da operação é Marcelo Claure, híbrido de megainvestidor e principal executivo da chinesa Shein na América Latina. Além da Bicycle, sua gestora, ter se comprometido a aportar US$ 75 milhões no IPO do PicPay, o próprio Claure se envolveu diretamente nas sondagens junto a fundos internacionais, ajudando a construir o book antes mesmo da fase final de precificação.
Vivo sobe a aposta para disputar startups de inteligência artificial
22/01/2026A Vivo planeja expansões progressivas de seu fundo de venture capital ao longo de 2026. A meta é elevar o quinhão do Vivo Ventures para a casa dos R$ 700 milhões até o fim do ano. Ressalte-se que, em dezembro, a companhia já havia anunciado um aporte de R$ 150 milhões, aumentando o volume de recursos do fundo para R$ 470 milhões. A direção da Vivo avalia que, com o atual portfólio de startups investidas e oportunidades em pauta, haverá necessidade de novas injeções de capital para manter o ritmo de aportes e garantir presença em rodadas cada vez mais competitivas. Significa dizer que o Vivo Ventures vai assinar cheques cada vez mais elevados. É o preço a ser pago para entrar, por exemplo, em negócios vinculados a inteligência artificial.
Orçamento da Educação turbina possível candidatura de Camilo Santana
22/01/2026A recomposição do orçamento das instituições federais de ensino, anunciada na última terça-feira, deve ser interpretada como mais um sinal do peso de Camilo Santana no tabuleiro eleitoral do PT no Nordeste. O esforço do governo em devolver R$ 977 milhões em verbas que haviam sido suprimidos teve um forte cálculo político, a ser capitalizado não apenas pelo presidente Lula, mas por Santana. Para todos os efeitos, o ministro da Educação vai deixar o cargo em abril para trabalhar pela reeleição do atual governador do Ceará, Elmano Freitas. No entanto, dentro do próprio PT ganha corpo a tese de que o próprio Santana deve ser o candidato do partido ao governo cearense. O receio é perder o comando do estado para Ciro Gomes. Nas últimas pesquisas, Freitas tem aparecido atrás de Ciro nas intenções de voto – no levantamento Ipsos-Ipec, por exemplo, a distância chegou a dez pontos percentuais. Desde já, portanto, a ordem no partido é fortalecer Santana, já vislumbrando a possibilidade dele sair do banco de reservas para entrar em campo na disputa contra Ciro.