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Entre o ocaso e a penúria, Imbel se torna uma estatal sem defesa

25/02/2026
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Não há soberania nacional, garantia de suprimento bélico ou preservação de tecnologias sensíveis que justifiquem a permanência da Imbel sob controle do Estado. Por qualquer ângulo que não seja o seu simbolismo para o Exército, a empresa já deveria ter encontrado uma solução pela via do mercado. A própria discussão nos Ministérios da Defesa e da Fazenda sobre a adoção de contratos de gestão, a exemplo do modelo cogitado para os Correios, como forma de reduzir sua dependência do Tesouro somente reforça que a companhia não anda mais com seus próprios pés. Se dependesse da avaliação técnica da equipe do Ministério da Fazenda, a solução poderia ser a sua simples privatização. Até porque existem candidatos manifestos. Segundo o RR apurou, nos últimos meses dois grupos da área de defesa levaram ao governo o seu interesse na compra da Imbel, inclusive com planos de investimento previamente definidos. No entanto, não encontraram um terreno favorável ao avanço nas conversas. Há também a dificuldade de formação de preço. Qual é o valor intangível que a empresa tem para o Exército?

Qualquer solução para a Imbel depende de uma articulação consensual com o estamento militar. Em contato com o RR, o Exército fez questão de ressaltar que a estatal “representa a capacidade fabril de produtos de defesa, os quais, muitas vezes são negados, tanto por empresas, como por governos”. A Força diz também que a companhia “funciona, ainda, como ‘braço fabril’ do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército”. Hoje, a instituição compra da estatal armamentos, explosivos, munições e equipamentos de comunicações e eletrônica. Perguntado sobre a possibilidade de privatização da Imbel, o Exército enfatiza que “a empresa, na condição atual, tem como responsabilidade assegurar a manutenção das capacidades das Forças Armadas, tendo como foco a política pública de servir ao Estado, ao invés de objetivar somente o lucro”. Há um fundo de verdade em todas as afirmações da Força. Mas, sem recursos, a Imbel é incapaz de cumprir esses objetivos. Os investimentos na companhia deveriam ser muito superiores. Porém, se praticamente todo o orçamento do Exército é alocado ao custeio de pessoal, sobram migalhas para vitaminar a companhia.

Haveria formas e formas de vender a Imbel. E certamente todas passam pela preservação dos interesses estratégicos das Forças Armadas. O desenho da operação poderia — e deveria — incorporar salvaguardas contratuais explícitas. A venda do controle seria condicionada à celebração de contratos de longo prazo com o Exército, prevendo garantias mínimas de fornecimento, cláusulas de prioridade em situações de emergência, metas de investimento em P&D e manutenção de determinadas capacidades industriais consideradas estratégicas. Para os próprios investidores, um contrato estruturado com as Forças Armadas funcionaria como âncora de receita e mitigador de risco, reduzindo a incerteza típica do setor.

Hoje, há uma espécie de dilema de Tostines aplicado à Imbel: a estatal é dependente do Tesouro porque produz e fatura pouco ou produz e fatura pouco porque é dependente do Tesouro. Por uma lógica perversa, a garantia das verbas do erário pode estar por trás da ociosidade das fábricas, estagnação produtiva, dificuldade de desenvolvimento de novas tecnologias e equipamentos e falta de competitividade no mercado externo. O regime de empresa estatal federal dependente do Tesouro impõe uma série de amarras. Além da subordinação a recursos sujeitos a contingenciamentos, bloqueios, atrasos de liberação, essas companhias não controlam o próprio fluxo de caixa. Assim como suas congêneres, casos da Embrapa, Hemobrás, Conab, Codevasf, entre outras, a Imbel não tem previsibilidade plurianual. Indexada ao Orçamento da União, quando muito consegue enxergar no máximo um horizonte de 12 meses. Para uma indústria intensiva em capital – ao menos deveria ser -, essa incerteza é um tiro de canhão. Trava contratações de matéria-prima em maior escala e a possibilidade de um planejamento industrial de longo prazo – o que, em grande parte, ajuda a entender a ociosidade de suas cinco fábricas. O desenvolvimento de armas, munições e congêneres exige ciclos longos de P&D e alta capacidade de investimento contínuo. A Imbel não tem nem uma coisa nem outra.

A Imbel está presa a um círculo vicioso: recebe poucos recursos e entrega de volta ainda menos. Entre 2020 e 2024, os repasses do Tesouro à empresa somaram R$ 661 milhões. Já o faturamento da empresa no mesmo intervalo foi inferior: R$ 648 milhões. Ou seja: em uma conta meramente ilustrativa, para cada real recebido do erário, a Imbel gerou apenas R$ 0,98 em vendas. Ano após ano, a empresa apresenta indicadores financeiros esquálidos, proporcionalmente muito aquém das cifras movimentadas pela indústria de defesa. Em 2024, último dado disponível, a estatal teve uma receita de apenas R$ 166 milhões, alta de 8% em relação ao exercício anterior, e um lucro de R$ 9 milhões, queda de 90% em comparação a 2023.

No Ministério da Defesa e no Alto-Comando do Exército ricocheteiam discussões em relação ao futuro da Imbel. A ideia mais debatida é justamente sua transformação em empresa estatal não dependente do Tesouro e a consequente assinatura de um contrato de gestão com a Pasta da Defesa. Segundo uma fonte do RR, a solução poderia até passar pela criação de um híbrido de public company com golden share. Um ornitorrinco concebido com finalidade específica. Em contato com o RR, o Exército confirmou que a proposta do contrato de gestão “foi tratada em 2025, porém ainda não houve evolução do tema”. E ainda que haja, a essa altura essa é uma solução que não soluciona, dado o gap tecnológico, produtivo e comercial da Imbel.

Na prática, a Imbel é um conglomerado industrial heterogêneo e de escala limitada, com linhas que vão de armas leves a explosivos e insumos químicos, passando por munição de grosso calibre e equipamentos de comunicações/eletrônica. A quase totalidade da sua produção é absorvida pelas Forças Armadas. Exportações? Sabe-se que no passado a companhia vendeu armamentos para Botsuana, África do Sul, Estados Unidos e Austrália. Hoje, no entanto, não há qualquer dado sobre a inserção da estatal no mercado internacional de defesa.

A própria relação do Exército com a Imbel é um tanto quanto esquizofrênica. Ainda que por vias oblíquas, a estatal suga recursos do Ministério da Defesa que poderiam ser investidos diretamente no aparelhamento da Força. Ou seja: ambos disputam a mesma fonte pagadora. De toda a forma, apesar do atraso tecnológico e das restrições financeiras, o debate sobre a Imbel não pode ignorar que ela dispõe de ativos industriais associados à Base Industrial de Defesa que, ao menos em tese, possuem relativo valor estratégico. O que, aliás, se comprova pelo interesse de investidores privados. A venda do controle ajudaria, inclusive, a desatar outras amarras que vão além da questão orçamentária. Quando surgem oportunidades de exportação, que já são raras, a estatal por vezes esbarra em níveis intermediários da burocracia, que vão do Itamaraty à Pasta da Defesa até chegar ao próprio Palácio do Planalto. A decisão final é quase sempre política.

#Imbel

Governo

Governo pretende aumentar a munição financeira da Imbel

5/05/2023
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A conversa de Lula com os oficiais do Alto Comando do Exército pode significar um upgrade da Imbel, indústria armamentista que há anos anda mal das pernas. Pode-se afirmar que o resultado financeiro da estatal depende integralmente das injeções de dinheiro das Forças Armadas. O projeto que foi conversado com o presidente é transformar a Imbel, que hoje basicamente produz rifles e pistolas, em um núcleo de desenvolvimento tecnológico. É claro que o BNDES entraria nesse projeto. Em tempo: nos últimos 10 anos não faltaram candidatos privados a adquirir a empresa. O Exército, mesmo a estatal sendo deficitária, se recusou a vendê-la. Lula pode transformar a companhia de armas em uma espécie de Embraer, extrapolando o core business – a indústria defesa -, e migrando para uma área mais ampla da tecnologia.

#BNDES #Forças Armadas #Imbel #Lula

Liberação de armas é um estampido pré-eleitoral

12/09/2022
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A expectativa dos analistas da área de defesa é que tem prazo de validade a decisão do Exército de abrir o mercado para a indústria bélica estrangeira desde que as armas tenham certificação internacional. A medida foi tomada por influência dos generais da reserva que circulam no entorno do presidente. Seu objetivo é somente afagar o segmento de colecionadores e atiradores, uma das bases mais fiéis a Jair Bolsonaro.

Não há outro motivo. É uma iniciativa eleitoreira que pode ser suspensa já em dezembro. Além de agradar o presidente, ela não tem nenhum significado relevante para o mercado nacional dos artefatos de defesa. Em primeiro lugar, para se vender armas são necessários muitos pontos de venda. As estrangeiras não têm nenhum. A Taurus, por exemplo, soma mais de três mil pontos. Segundo, imagine que a Glock abra um ponto de venda.

O virtual comprador chegará na loja querendo adquirir a arma, mas não encontrará munição. As balas não estão permitidas no mesmo pacote facilitador das armas que viriam de fora. Não bastassem as barreiras naturais do mercado, as empresas nacionais hoje são extremamente internacionalizadas. A Taurus, por exemplo, vende somente 20% da sua produção no país. O mais curioso é que uma das empresas que podem ser prejudicadas é a Imbel, pertencente ao próprio Exército.

O generalato da ativa pode até ter algum motivo para dificultar as vendas das armas nacionais, mas a medida anunciada somente vai na direção de desprestigiar o capital intelectual da Força. Não faz sentido algum. Ainda mais em um momento em que as empresas brasileiras estão se tornando grandes consolidadoras e comprando fabricantes no exterior. Já fomos melhores na área militar. Aliás, muito melhores.

#Exército #Imbel #Jair Bolsonaro #Taurus

General em trânsito

9/09/2021
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O general de divisão Celso José Tiago está cotado no governo para voltar à gestão da Imbel, da qual foi diretor-presidente até
março de 2019. Recentemente, o militar deixou a diretoria de governança dos Correios.

#Correios #Imbel

Tiro de misericórdia

3/02/2021
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Apesar do empenho de Eduardo Bolsonaro em consumar o enlace, a parceria entre a Sig Sauer e a Imbel vai micar. A fabricante de armamentos de origem suíça recuou devido à delicada situação financeira da estatal. A empresa do Exército Brasileiro não tem capital de giro e hoje não consegue sequer comprar matéria-prima. O balanço da Imbel aponta que, entre janeiro e setembro de 2020, a empresa acumulou um prejuízo de R$ 19,5 milhões, contra um lucro de R$ 59,5 milhões em igual período no ano anterior. A estatal é altamente dependente do Orçamento da União: nos últimos dois anos, recebeu R$ 450 milhões em verbas, segundo dados do Painel Cidadão, do Senado. Procurado, o Exército não se pronunciou até o fechamento desta edição.

#Eduardo Bolsonaro #Exército #Imbel

Vento que venta lá…

23/10/2020
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Há discussões no governo para um aporte do Tesouro na Imbel, a fabricante de material bélico do Exército. A operação repetiria o
modelo já adotado na Emgepron, a empresa de projetos navais da Marinha que recebeu uma injeção de R$ 7,6 bilhões. Seria uma solução para o governo capitalizar a Imbel, fugindo dos limites do teto de gastos

#Exército #Imbel

Interferência dos Bolsonaro na Imbel entra na mira do MPF

12/06/2020
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Caiu no colo do Ministério Público Federal mais um forte indício de intervenção do presidente Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo Bolsonaro no Exército: a iminente associação entre a estatal Imbel e a Sig Sauer, fabricante de armas de origem suíça – informação antecipada pelo RR na edição da última segunda-feira e confirmada pela Folha de S. Paulo no dia seguinte. Trata-se do segundo caso de suspeição de interferência do clã Bolsonaro na corporação no intervalo de apenas dois meses. Em abril, a procuradora Raquel Branquinho enviou representação à Procuradoria da República do Distrito Federal apontando que o presidente violou a Constituição ao determinar a revogação de três portarias do Comando Logístico do Exército (Colog) sobre o rastreamento de armas e munição.

Consultado, o MPF informou que, até o momento, não encontrou em seus sistemas nenhum procedimento referente ao caso da Imbel. Em relação às portarias do Colog, o órgão confirmou que a representação da procuradora Raquel Branquinho deu origem a Ação Civil Pública na 14a Vara Cível da Justiça Federal no DF. No caso da Sig Sauer, a trilha que leva aos Bolsonaro é visível. Eduardo trabalha a céu aberto pela entrada da empresa no país – vide suas postagens nas redes sociais. Um dos desafios do Ministério Público é descobrir onde termina Jair e começa Eduardo. Ou vice-versa.

Está cada vez difícil discernir o que é uma determinação do comandante em chefe das Forças Armadas ou uma interferência indireta do seu filho em assuntos relacionados ao Exército. No caso da controversa revogação das portarias, formalmente ela só poderia ter sido solicitada pelo presidente da República. Mas, no Exército, todos sabem que a reviravolta foi uma gestão de Eduardo junto ao pai. O “03” usa um duplo chapéu, de lobista e de filho do presidente, confundindo os papéis e a ordenança do próprio Bolsonaro.

Não por acaso, há um incômodo no Exército com as seguidas ingerências de Eduardo em temas referentes à corporação. Entre os próprios militares, o deputado é comparado à figura de Bob Sanford, o megalobista das armas nos Estados Unidos – com a importante diferença, a favor do norte-americano, de que seu pai jamais foi presidente. Essa intromissão de Eduardo tem deixado marcas difíceis de serem apagadas. O caso da revogação das portarias sobre o rastreamento de armas custou a exoneração do general de Brigada Eugênio Pacelli Vieira Mota, então diretor de Fiscalização de Produtos controlados do Exército e responsável pela elaboração das normas posteriormente anuladas por determinação do presidente Bolsonaro.

#Eduardo Bolsonaro #Exército #Imbel #Jair Bolsonaro #Sig Sauer

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