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Quando você cogita comprar uma blusinha pela internet para receber em casa, chega a parar para pensar como isso é possível pagando tão pouco?
O preço que você está prestes a pagar é, muitas vezes, menor do que o de um almoço simples. Ainda assim, ele precisa cobrir uma cadeia longa e complexa: o custo da produção da matéria‑prima, a transformação têxtil concentrada majoritariamente na Ásia e o transporte transoceânico em longas rotas logísticas, cada vez mais pressionadas por prazos de entrega mais curtos. A isso se somam tributos, subsídios, margens apertadas, custos de embalagem, marketing e a remuneração da própria plataforma digital que intermedeia a venda.
Esse valor aparentemente simples carrega muito mais do que o produto final.
O preço baixo também precisa remunerar todos os envolvidos nesse processo, da costureira, frequentemente submetida a condições de trabalho precárias, ao caminhoneiro, com jornadas extensas; do operador logístico ao entregador, pressionado por metas cada vez mais agressivas, para que a encomenda chegue, finalmente, à sua porta.
Mesmo nesse contexto, uma parte relevante desse custo quase nunca aparece na etiqueta: os impactos sociais, ambientais e territoriais, que raramente são mensurados e, menos ainda, precificados.
É essa mesma lógica, marcada por cadeias globais longas, preços comprimidos e custos invisíveis, que deveria orientar a forma como olhamos para diversos temas hoje presentes no debate público. Um deles é o das terras raras.
Nos últimos meses, o assunto deixou de ser restrito a aulas de química e relatórios técnicos e passou a circular com mais frequência no debate brasileiro, quase como conversa de bar. Isso ocorreu sobretudo quando ganharam destaque o potencial econômico dessas reservas e a discussão sobre soberania nacional associada a esse mercado. Não tenho uma resposta pronta. Compartilho apenas uma reflexão.
De forma bastante resumida, as chamadas terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos capazes de conferir funcionalidades avançadas a materiais e ligas metálicas. Graças às suas propriedades magnéticas, ópticas, elétricas e mecânicas, esses elementos permitem a elaboração de produtos mais leves, mais eficientes e mais resistentes.
Eles não são elementos novos. O que é novo é a dependência tecnológica que construímos sobre eles. Hoje, são insumos essenciais para aplicações ligadas à transição energética, ao setor aeroespacial, à medicina, à eletrônica avançada e a equipamentos de defesa.
O Brasil ocupa, de fato, posição de destaque quando se observa o porte de suas reservas mapeadas. Com base no conhecimento geológico disponível em 2026, o país concentra cerca de 18% das reservas globais conhecidas, percentual próximo ao do Vietnã, com aproximadamente 17%, ambos atrás apenas da China, que detém algo em torno de 37%.
Mas, nessa cadeia, o poder não está no subsolo. Ele está na capacidade industrial e tecnológica.
O mercado global não demanda terras raras em estado bruto, mas os componentes, sistemas e equipamentos que as incorporam. O caminho até eles é longo e complexo. Envolve mineração, beneficiamento, refino, purificação e transformação industrial.
Por isso, apesar de as reservas estarem relativamente distribuídas pelo mundo, a capacidade produtiva permanece altamente concentrada. A China concentra hoje mais de 60% da mineração, mais de 80% do refino e cerca de 90% da produção global de ímãs permanentes.
Essa predominância não aconteceu por acaso. Ela resulta de decisões estratégicas adotadas ao longo de décadas, muitas vezes ausentes do debate quando se afirma que países como o Brasil estariam “perdendo uma oportunidade”.
O refino químico foi, historicamente, um dos principais gargalos da cadeia. A separação e purificação das terras raras exigiram processos de elevada complexidade, uso intensivo de reagentes químicos e geraram grandes volumes de resíduos, tornando essa etapa a mais sensível do ponto de vista ambiental e social.
Por essa razão, muitos países optaram por não realizar essa fase dentro de suas próprias fronteiras, transferindo os impactos ambientais e sociais para outras regiões, especialmente para a China. Em diversas áreas onde a exploração ocorreu, os efeitos desse modelo ainda são visíveis, com registros de contaminação ambiental, descarte inadequado de resíduos e fragilidade nos controles socioambientais.
Essa estratégia foi possível em um período de maior tolerância ambiental ao longo de toda a cadeia, inclusive por parte das economias desenvolvidas, como Estados Unidos e União Europeia, que, na condição de compradoras do produto final, optaram por fechar os olhos para regulações mais brandas em países fornecedores, enquanto construíam uma dependência externa crescente desse modelo de produção.
Esse contexto mudou.
A combinação de exigências sociais crescentes, pressão regulatória, política industrial ativa e instabilidade geopolítica recolocou as terras raras e outros minerais críticos entre as prioridades nacionais. A China passou a enfrentar pressão interna e internacional para transformar um processo historicamente devastador em um modelo com impactos mais gerenciáveis. Esse movimento envolveu maior controle e rastreabilidade, fiscalização mais rigorosa, penalidades severas, fechamento de minas ilegais e consolidação industrial em grandes estatais, com marcos relevantes a partir da Rare Earth Management Regulation, adotada em 2024.
Mesmo assim, esse esforço ocorre sobre um passivo ambiental e social significativo, acumulado ao longo de décadas, em um período no qual outros países não estavam dispostos a assumi‑lo dentro de suas próprias fronteiras, mas a China esteve.
No caso do Brasil, criar uma cadeia integrada, da mina ao ímã, com controle social e ambiental compatível com o que uma operação extrativa permite hoje, exige muito mais do que reservas minerais ou discurso estratégico. Exige decidir, de forma transparente, quais custos estamos dispostos a assumir e quais impactos estamos dispostos a administrar.
Caso contrário, o risco é repetir, em escala geopolítica e industrial, a lógica da blusinha barata: um produto aparentemente acessível do ponto de vista econômico, mas que não remunera, nem repara, todos os custos reais embutidos ao longo de sua trajetória.
Como comentei ao longo do texto, não tenho uma resposta para esse dilema, mas me parece claro que, sem uma reflexão mais ampla e escolhas conscientes, as decisões tomadas no Brasil podem acabar reproduzindo, em escala geopolítica e industrial, a lógica da blusinha barata: um produto aparentemente acessível do ponto de vista econômico, mas que não remunera nem repara todos os custos reais que deixam marcas pelo caminho
Nota do autor
Este artigo é uma reflexão analítica apoiada em dados e diagnósticos consolidados por organismos nacionais e internacionais, como o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o United States Geological Survey (USGS), a International Energy Agency (IEA) e a Organisation for Economic Co‑operation and Development (OCDE), bem como em estudos recentes sobre minerais críticos, cadeias globais de valor e custos socioambientais da transição energética.
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