Tag: Mauro Vieira
O que precisa ser dito
Alegria, sim, mas com moderação
20/10/2025A conversa entre Mauro Vieira e Marco Rubio vem sendo devidamente festejada, pois é, de fato, incomum que dois ministros das Relações Exteriores se reúnam na Casa Branca com a participação do US Trade Representative, divulgando ao final uma nota conjunta que menciona “conversas muito positivas” e anunciando um programa de tratativas que incluirá o encontro em breve entre os dois presidentes. O ritual incluiu um tête-à-tête apenas entre os dois titulares, que durou 20 minutos, e a reunião entre as delegações seguida de almoço também na Casa Branca. Nada disso é casual. Tudo é simbólico e significativo.
A primeira observação suscitada pelo encontro é que não houve qualquer referência a Jair Bolsonaro, usado inicialmente como pretexto por Donald Trump para impor o tarifaço ao Brasil e aplicar diversas medidas punitivas a autoridades brasileiras, em especial a lei Magnitsky no caso de Alexandre Moraes e sua esposa. Por sinal, essa foi a quarta oportunidade de diálogos entre os dois países em que o tema deixou de ser mencionado: o encontro dos dois presidentes durante a Assembleia da ONU e a videoconferência entre ambos, bem como as duas reuniões de Vieira com Rubio, a primeira “informal” e realizada num escritório de advocacia na fase mais crítica do relacionamento bilateral. Aliás, desde o encontro presidencial em Nova York já haviam cessado os reiterados e virulentos ataques ao Brasil comandados pelo Departamento de Estado norte-americano e dolorosamente repercutidos pela Embaixada daquele país em Brasília. Afinal, Trump tinha entendido que se tornara o maior cabo eleitoral de Lula enquanto a extrema direita, alegre e irresponsavelmente representada por Eduardo Bolsonaro junto à Casa Branca, se afundava no pântano da agressão à soberania da nação.
Dados os necessários descontos à volubilidade de Trump, isso significa que foi posta uma pedra em cima das covas políticas de Bolsonaro e do seu filho autoexilado.
A segunda e importante observação tem a ver com a conversa a dois, sem assistentes ou intérpretes, que tiveram Vieira e Rubio – sem dúvida facilitada pela circunstância de que o ex-embaixador do Brasil em Washington já conhecia de bem antes o ex-senador pela Flórida (e mais moderado do que se tornou ao passar a ser um dos porta-vozes de Trump na área externa). Com os cuidados de dois experimentados profissionais empenhados em dar um tom construtivo ao encontro, não houve vazamentos dessas tratativas, porém é praticamente certo que foram suscitadas por Rubio pelo menos algumas das diversas questões internacionais em que as posturas brasileiras perturbam a estratégia de Trump de voltar a transformar os países latino-americanos em um grande quintal dos Estados Unidos numa reedição da Doutrina Monroe.
Não obstante, o prosseguimento das conversações técnicas e do encontro pessoal entre os dois presidentes não parece ter sido condicionado formalmente a mudanças na política externa do país – e, caso em algum momento elas venham a ser postas como exigência para avanços na área comercial e econômica, Lula terá de sopesá-las levando em conta seus interesses com candidato à reeleição em 2026. Muito caminho ainda pela frente em que a moderação precisa ser um método de trabalho.
Jorio Dauster é diplomata de carreira e foi embaixador do Brasil junto à União Europeia, colaborador especial do Relatório Reservado.
Destaque
Mauro Vieira e Marco Rubio discutem o futuro com um bom passado pela frente
13/10/2025Ao se sentar diante de Marco Rubio, talvez na próxima sexta-feira, dia 17, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, não estará frente a frente com o inimigo, como tenta fazer crer a narrativa bolsonarista. Segundo informações filtradas pelo RR, além do encontro reservado e fora da agenda oficial que ambos tiveram em julho, em Washington, Vieira e Rubio têm mantido interlocução regular desde o início da crise do tarifaço.
Mais do que isso: os contatos entre ambos passam longe da belicosidade atribuída a Rubio nas fábulas de Eduardo Bolsonaro e seu escudeiro Paulo Figueiredo. O chanceler brasileiro e o secretário de Estado norte-americano carregam uma sólida e cordial relação institucional que começou a ser construída durante o período em que Vieira ocupou o posto de embaixador em Washington, entre 2010 e 2014. À época, Rubio, então um senador menos radical, presidia a Subcomissão para Assuntos do Hemisfério Ocidental e Narcóticos.
Nessa função, além de conduzir os assuntos dos Estados Unidos junto à OEA (Organização dos Estados Americanos), estabeleceu diálogo permanente com a diplomacia dos países latino-americanos.
Em 2012, houve um estreitamento do contato entre Mauro Vieira e Marco Rubio quando dos preparativos para a visita da então presidente Dilma Rousseff a Washington. Na ocasião, Rubio chegou, inclusive, a emitir um comunicado saudando a viagem de Dilma e trabalhou no Congresso dos Estados Unidos pela aprovação de uma lei que fomentasse o turismo entre os dois países.
Em 2023, com Vieira já à frente do Ministério das Relações Exteriores, Rubio – curiosamente ao lado de dois senadores democratas, Tim Kaine e Jeff Merkley – apresentou um projeto de lei propondo uma cooperação com o Brasil para o combate ao crime organizado na Amazônia.
Ao designarem Mauro Vieira – ladeado por Geraldo Alckmin e Fernando Haddad – e Marco Rubio para conduzir as negociações em busca de uma possível solução para o tarifaço, o Palácio do Planalto e a Casa Branca sinalizam aonde querem chegar.
Em diplomacia, esse tipo de relação e de conhecimento pessoal ajuda. Não é sinônimo de consenso, mas as conversas já começam com algum grau de confiança mútua e reconhecimento recíproco das linhas vermelhas de cada um.
Política externa
Chanceler brasileiro conduz delicada conversa com a União Europeia
24/09/2024
Destaque
Um Brasil em chamas vai à União Europeia para adiar lei antidesmatamento
18/09/2024Não poderia haver pior momento para o Brasil arder em chamas. A proliferação de incêndios no país se dá justo no instante em que a gestão Lula costura uma última cartada na tentativa de convencer a União Europeia a adiar a entrada em vigor do Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento, prevista para 31 de dezembro. Segundo informações que circularam ontem na Pasta da Agricultura, o governo articula o envio de uma delegação à Bruxelas, encabeçada pelo chanceler Mauro Vieira e pelo ministro Carlos Fávaro. A missão deverá contar também com a presença de lideranças empresariais do agro e parlamentares da bancada ruralista.
O objetivo é cumprir uma agenda de reuniões com autoridades da UE, notadamente o lituano Virginijus Sinkevičius, comissário europeu para o Meio Ambiente. A Direção-Geral do Ambiente, comitê da União Europeia responsável pela formulação da chamada lei antidesmatamento, está diretamente subordinada a Sinkevičius. O que se diz no setor é que o Brasil deverá propor à UE a implantação gradativa das regras, além de um período de carência de seis a 12 meses para que o agronegócio possa se adequar à legislação.
Por si só, já seria uma tarefa intrincada – até prova em contrário, a maior parte dos países europeus está irredutível quanto à data para a vigência da nova regulamentação. Como se essa resistência já não fosse suficiente, o chamuscado governo brasileiro carregará para as tratativas em Bruxelas o enorme passivo das queimadas que atingem diferentes biomas do país. Somente na primeira quinzena de setembro, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou 57.312 focos de incêndio.
Na semana passada, o Brasil fez um approach diplomático com a UE, já visando as conversas que pretende ter com o comissariado europeu. Diplomático em termos. Em carta assinada pelos ministros Mauro Vieira e Carlos Fávaro, o governo soprou e mordeu: colocou-se à disposição para “intensificar a cooperação com o bloco europeu para a preservação das florestas” ao mesmo tempo que se referiu à nova lei antidesmatamento como uma medida “unilateral coerciva e punitiva”.
Faz parte do jogo. O adiamento, ressalte-se, não é um pleito exclusivo do Brasil. Estados Unidos e China também reivindicam que a entrada em vigor da lei seja empurrada mais para a frente. Até então, eram apenas vozes estrangeiras a pressionar a União Europeia. No início desta semana, no entanto, Brasil, EUA e China ganharam um aliado até certo ponto surpreendente. A Alemanha solicitou formalmente à UE a postergação da nova regulamentação.
Em linhas gerais, a nova regulamentação prevê uma espécie de marco temporal dos crimes ambientais. A União Europeia vai barrar a importação de uma série de commodities, como soja, café, cacau, carne bovina, madeira, óleo de palma, papel, entre outros, produzidas em florestas que sofreram desmatamento após dezembro de 2020. O cenário atual é preocupante para o agronegócio brasileiro.
Estimativas apontam que, se a lei entrar em vigor em 31 de dezembro, já no próximo ano o Brasil poderá perder até US$ 15 bilhões em exportações, o equivalente a um terço dos produtos agropecuários embarcados para a Europa – conforme informou O Globo na edição de ontem. Diante desse grave risco, representantes do agronegócio têm mantido intensa interlocução com o ministro Carlos Fávaro e sua equipe. Há relatos também de que importantes entidades do setor, a exemplo da Aprosoja e da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária), discutem o lançamento de um manifesto, que seria publicado em grandes jornais europeus.
Política
Imbróglio com Israel: uma saída pela direita
21/02/2024Os assessores do presidente Lula diretamente envolvidos em encontrar uma solução adequada para retirar a crise com Israel da pauta – à frente Celso Amorim e o chanceler Mauro Vieira – estão quebrando a cabeça com uma questão de ordem semântica: fazer com que um pedido de desculpas seja compreendido como um esclarecimento. A narrativa exige a condenação firme do holocausto, a distinção do povo judaico do massacre da Palestina – esta, uma decisão de Estado -, e a confissão de que no calor da indignação o presidente fez uma associação forte que não corresponde ao seu real pensamento. Esse caminho pressupõe outro malabarismo: condenar os atos terroristas e desumanos do Hamas. No momento, está sendo feito um enorme garimpo em declarações anteriores de Lula positivas a tudo que se refere a Israel e aos judeus, para embasar o comunicado. A linha da argumentação é a de “como Lula disse em outra oportunidade…”. O esforço é encontrar a referência nos seus dois mandatos anteriores. Isso daria um peso institucional e credibilidade maiores à iniciativa. Vão achar. Lula fala sobre tudo e sobre todos.
Política externa
Tudo é acerto no jogo de dupla da política externa brasileira
23/10/2023Por maior que seja o prestígio de Celso Amorim junto a Lula, sua presença no Palácio do Planalto está longe de eclipsar a figura do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Indicadores ajudam a desconstruir a percepção de que Vieira seria uma espécie de “chanceler do B”. Mas paremos por aí. Amorim é quem fala no ouvido no presidente, escreve seus discursos e o acalma com seu jeito tranquilo de ser. Mas, apesar da maior intimidade e confiança, há uma divisão de tarefas respeitada pelos dois diplomatas. O ministro carrega o piano do Itamaraty. Não é o “conselheiro de Lula”, mas fala pela chancelaria com conhecimento de causa e respeito da casa. E não deixa o presidente ficar fora do seu raio de atuação. Vieira é o nome da diplomacia brasileira mais indexado ao presidente da República, como mostra levantamento exclusivo realizado pelo RR junto a 210 mil veículos de todo o país. Desde o início do governo, Mauro Vieira é citado junto a Lula em 46.400 registros, contra 29.011 de Amorim. Trata-se de uma diferença de 58% em favor de Vieira.
Nas internas, a influência de Amorim é disparadamente maior. Seu cargo, formalmente, não fica restrito à área externa. Ele é um “assessor para qualquer coisa”, como se diz no Planalto. Portanto, não há comparação de proximidade com Lula: fora Fernando Haddad e Janja, Amorim ganha de todos. A duplicidade na área diplomática atende os objetivos do presidente de fazer o Brasil estar em todos os lugares nos quais haja uma discussão internacional relevante. Há missões de Estado que exigem quase invisibilidade, boa parte delas entregue a Amorim. Outras são típicas do chanceler. Elas são exercidas por Vieira. O ministro das Relações Exteriores pontifica também o noticiário sobre os temas mais sensíveis na área de política externa neste momento. Desde o início do confronto, Vieira soma 2.986 menções junto ao presidente Lula quando o assunto é o conflito entre Israel e Hamas – são cerca de 1,4 mil citações a mais do que Celso Amorim. Parte expressiva do noticiário se refere ao papel do Brasil na presidência provisória do Conselho de Segurança da ONU.
Em relação ao G-20, do qual o Brasil é o atual presidente, a pesquisa também referenda o status de Mauro Vieira como nome mais representativo da diplomacia. São 4.445 referências ligadas ao tema, contra 2.469 de Amorim. Deve-se ressaltar também a exposição do ministro das Relações Exteriores vinculadas aos dois maiores parceiros comerciais do Brasil. Mauro Vieira desponta ao lado de Lula, respectivamente, em 16.810 inserções ligadas aos Estados Unidos e 17.011 registros com assuntos sobre a China. Mesmo assim, em ambas, Celso Amorim surge com aproximadamente 12 mil menções. Muitas delas, provavelmente por estar presente ao lado de Lula.
Entre os temas avaliados na pesquisa, há uma única pauta que aparece mais vinculada a Celso Amorim: a guerra entre Rússia e Ucrânia. São 11.463 citações ao assessor especial de Lula vinculadas ao confronto entre os dois países, contra 10.342 menções a Mauro Vieira. À época, na divisão de tarefas, coube ao assessor especial representar o Brasil nas conversações com Putin sobre a guerra com a Ucrânia. A tabelinha funciona. Existem poucos setores mais harmônicos no governo do que o exercido pelo ministro bifronte, metade Celso Amorim, metade Mauro Vieira.
Política
Venezuela volta ao mapa da diplomacia brasileira
12/01/2023O chanceler Mauro Vieira pretende viajar a Caracas para participar da reabertura da embaixada brasileira na Venezuela. Seria um gesto eivado de simbolismo: o governo Bolsonaro fechou a representação diplomática na capital venezuelana e praticamente rompeu relações com o país vizinho.
Internacional
Novo embaixador chileno finalmente terá seu agrément
21/12/2022O futuro chanceler Mauro Vieira fez chegar à ministra de Relações Exteriores do Chile, Antonia Urrejola, que, já nos primeiros dias de governo, o presidente Lula vai conceder o agrément a Sebastián Depolo, indicado para assumir a Embaixada chilena no Brasil. Depolo foi colocado na geladeira por Jair Bolsonaro. O pedido de autorização para a sua posse está mofando sobre a mesa do presidente há mais de quatro meses. É o troco de Bolsonaro a críticas feitas por Depolo ao seu governo nas redes sociais.