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Análise
Quantos mais “Desenrola” serão necessários para conter o ciclo vicioso do endividamento?
4/05/2026O Programa Desenrola 2, lançado hoje pelo presidente Lula, carrega excelentes intenções e pode ter o efeito de desafogo no curto prazo. Mas, a julgar pela equação tradicional do endividamento da população e das empresas (dívida + renda + inflação + juros – atividade produtiva + desemprego e novamente + dívida), caso seja reeleito Lula precisará ter um “Desenrola 3” engatilhado. O Boletim Focus publicado hoje praticamente confirma o cenário de descrédito em relação ao ajuste fiscal já a partir desse ano. Se depender da inflação, as contas públicas estão eletrocutadas desde já. O Focus elevou a projeção para a inflação brasileira pela 8° vez consecutiva, com o IPCA chegando a 4,89% em 2026, portanto fora da meta de inflação de 3%. Para 2027, as estimativas indicam uma queda para 4%. Apenas em 2028 o IPCA se aproximaria da meta de 3% (3,64%, segundo o Boletim Focus). Em 2029, cairia mais um bocadinho, atingindo 3,5%. Parece um grande avanço, só que é uma vitória de Pirro. Primeiramente porque quanto maior são os intervalos das projeções, mas eles favorecem os resultados, já que ignoram mudanças mais drásticas de cenários (política, choques drásticos de oferta, conflitos internacionais etc). Mas digamos que a inflação prevista pelo Focus esteja dentro do lugar e que a profecia seja autorrealizável. O mesmo Boletim Focus prevê uma taxa Selic de 13% neste ano, 11% em 2027 e 10% em 2028 e 2029. Caso as projeções se confirmem, o juro real bateria em 6,5% ao fim de 2029. Continuaria como o segundo maior do mundo, atrás apenas da Rússia.
Os índices adotados pelo mercado não levam em consideração o festival de incentivos fiscais e gastos assistencialistas que o presidente Lula vem realizando, a começar pelo próprio Desenrola 2 (o primeiro Desenrola foi lançado em julho de 2023). Nenhuma dessas variáveis combina com um cenário macroeconômico mais bem comportado e um futuro de saúde longeva para os efeitos de curtíssimo prazo do programa: a redução do endividamento nacional. Os juros reais ainda elevados permitiriam considerar a inflação projetada ou mesmo um pouco menor, mas arrebentam com a dívida bruta interna e com o endividamento da população e das empresas. Por outro lado, se a taxa real cair para um patamar civilizado – digamos assim – acende a fervura inflacionária e retroalimenta tudo de novo. Ou seja, o Desenrola 2 vai acabar copiando o iPhone, que já está na sua 15° versão. O próprio ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, reforçou que o Novo Desenrola Brasil integra uma estratégia mais ampla de fortalecimento de renda das famílias. “O sentido de todas essas ações é viabilizar um amplo processo de renegociação de dívidas, pegando famílias, estudantes, MEI, micro e pequenos empreendedores. Essa ação vai ser fundamental para gente seguir um processo de melhoria de renda das famílias”. Ou seja: a renda melhora, com ela vem o consumo e, consequentemente, novas dívidas. Pelo andar da carruagem, com Lula sendo reeleito, temos encomendado um “Desenrola 3”, e nessa hipótese, se endividar será um excelente negócio, já que o perdão estará de antemão anunciado.