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Justiça
Delação de hacker pode abrir caixa-preta digital do Master
8/06/2026Surge mais uma possibilidade de delação no ecossistema criminoso do Banco Master. O…
Destaque
Como a IA pode inibir o surgimento de outros “Master”
1/06/2026O redesenho institucional do Estado brasileiro na virada do milênio foi acompanhado por uma atmosfera de profundo debate intelectual e um otimismo quase ingênuo quanto à capacidade das agências reguladoras de blindarem o interesse público. Foi sob o impacto daquela transição que, há 26 anos, me sentei ao lado de Dércio Santiago da Silva Jr. e da saudosa professora Anna Maria Campos, então nossa orientadora, para formular um alerta que considerávamos urgente.
Anna Maria Campos era teórica arguta com suficiente experiência na Administração Pública para ter elegido o conceito deaccountability já como tema de interesse maior, justamente pelo pouco que então dele se falava no Brasil. No artigo “Avaliação de agências reguladoras: uma agenda de desafios para a sociedade brasileira”, publicado na Revista de Administração Pública (RAP) da FGV em 2000, nossa preocupação central residia no que a literatura clássica define como o “risco de captura”. Advertíamos ali que a retirada do Estado da administração direta da infraestrutura e de serviços essenciais, se desprovida de sistemas de avaliação cruzada e transparente, fatalmente transformaria as autarquias regulatórias em reféns do poder econômico e do fisiologismo político.
Os horrores descortinados pela investigação da liquidação do Banco Master fizeram-me lembrar daquele artigo, com o amargor de constatar que os riscos que diagnosticamos há mais de 25 anos se materializaram como profecias negligenciadas, que talvez representem apenas a ponta de um iceberg de altíssimo custo social.
O terremoto provocado pela Operação Compliance Zero revelou que o verdadeiro perigo não reside apenas nas fraudes bilionárias estimadas, mas na sofisticação do modus operandi: a infiltração institucionalizada para corromper servidores de agências, órgãos de controle, do Judiciário e parlamentares, assim como fraudar relatórios de liquidez com títulos inflados. Se o Estado continuar operando na lógica analógica de fiscalização a posteriori – onde a polícia só entra em cena quando o rombo já é de dezenas de bilhões e os fundos de investimento e até de previdência já foram dilapidados —, a sociedade continuará sofrendo prejuízos irreparáveis.
Há, contudo, algumas boas razões para acreditarmos que esses problemas não sejam insolúveis. A fronteira tecnológica atual oferece uma oportunidade sem precedentes para que a parte sã do Estado inverta essa lógica de desgaste e antecipe o crime financeiro e regulatório.
O divisor de águas dessa virada estratégica atende pelo nome de Inteligência Artificial Generativa. Durante a pandemia, o mundo testemunhou o poder dos modelos de deep learning ao identificarem, em meras radiografias de pulmão, os indícios microscópicos da infecção por Covid-19 — padrões, opacidades e anomalias de textura tão sutis que escapavam completamente ao olho de qualquer médico humano altamente treinado. A IA não substituiu o médico; ela ampliou sua visão para dimensões antes invisíveis. Transportada para o ambiente regulatório de agências como Banco Central, CVM, Aneel, ANS, entre outras, essa mesma tecnologia confere à IA a habilidade de “peneirar” indícios de fraude, manipulação de balanços e captura institucional em tempo real, cruzando dados aparentemente desconexos que nenhuma auditoria humana seria capaz de consolidar a tempo de evitar o desastre.
Para evitar que novas fraudes de alta magnitude se consolidem nas áreas reguladas, o Estado precisa desenhar um ecossistema de auditoria algorítmica focado em três pilares preventivos:
1. Auditoria preditiva de balanços e identificação de anomalias de ativos
O caso Master demonstrou que as fraudes florescem na revalidação artificial de papéis antigos para forjar solidez patrimonial. Uma IA alimentada com o histórico de transações de mercado e registro de ativos pode rastrear, em segundos, discrepâncias severas entre o valor real de mercado de um título e o valor declarado nos balanços enviados ao regulador. O algoritmo é capaz de detectar o “estresse oculto” em uma carteira de CDBs ou Certificados de Recebíveis muito antes que a instituição financeira ou a concessionária de infraestrutura entre em rota de colisão operacional, emitindo alertas automáticos de inconsistência contábil antes que o passivo seja transferido para o mercado ou para o cidadão.
2. Mapeamento de redes de influência e captura decisória
A captura regulatória deixa rastros processuais e comportamentais. Modelos avançados de IA podem auditar o fluxo de pareceres emitidos por servidores de agências reguladoras, cruzando a velocidade de aprovação de determinados pleitos, o padrão de decisões favoráveis a certos entes regulados e até a rotatividade de ex-servidores que migram para consultorias privadas (as famosas “portas giratórias”). Assim como na radiografia pulmonar, a IA identifica a “mancha” da anomalia no comportamento administrativo: se um parecer técnico desvia do padrão histórico da própria agência para favorecer uma engenharia societária agressiva, o sistema trava o trâmite e exige dupla checagem externa.
3. Cruzamento dinâmico de garantias e lastros de concessões
Grandes fundos de investimento que assumem o controle de setores sensíveis como água, energia e rodovias utilizam intrincadas teias de empresas de prateleira para blindar o capital. Ao integrar as bases de dados das agências reguladoras com os cartórios de registro de imóveis, juntas comerciais e movimentações de fundos estruturados, a IA Generativa pode fazer a varredura contínua do verdadeiro lastro financeiro que garante aquela concessão pública. Se a saúde financeira da controladora real começar a se deteriorar através de pirâmides e outros mecanismos ocultos de alavancagem, ou da compra de litígios predatórios, o regulador recebe o diagnóstico preditivo, permitindo a intervenção ou a caducidade do contrato antes que o serviço essencial colapse na ponta.
A lição que o mercado e o poder público precisam extrair dos escândalos recentes é a de que o controle analógico, vulnerável e paroquial faliu. O diagnóstico que eu, Anna Maria e Dércio traçamos no ano de 2000 sobre a vulnerabilidade do Estado permanece dolorosamente atual, mas a caixa de ferramentas para virar esse jogo mudou radicalmente. O poder de processamento e a inteligência preditiva estão disponíveis. Cabe ao Estado brasileiro utilizá-los para enxergar a infecção da fraude e da captura regulatória no tecido econômico antes que ela se torne uma metástase generalizada.
Anatomia da omissão no Caso Master: os sinais que a IA teria decodificado
Para compreender como a Inteligência Artificial mudaria o paradigma da fiscalização, é preciso olhar para o retrovisor do caso do Banco Master e isolar as anomalias que orbitavam a instituição muito antes de a Polícia Federal deflagrar a Operação Compliance Zero. No ambiente regulatório analógico, esses dados pareciam ruídos dispersos; para uma arquitetura de aprendizado profundo, eles eram os sintomas claros de uma infecção em estágio avançado.
Se o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) operassem com sistemas preditivos baseados em IA generativa e redes neurais, o colapso de bilhões de reais que vitimou fundos de pensão e regimes de previdência estaduais teria sido estancado na origem por meio de três macroindícios:
1. Opacidade radiológica dos títulos “Zumbis”
O principal mecanismo de forja de liquidez investigado consistia em adquirir títulos antigos, desvalorizados pelo mercado, e registrá-los nos balanços por valores absurdamente inflados. Esse patrimônio artificial servia de lastro para a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que eram agressivamente despejados em fundos de pensão de servidores públicos (RPPS).
- O olho humano: O fiscal tradicional avaliava a existência formal do título e a assinatura dos pareceres de avaliação anexados, chancelados por consultorias que, conforme se descobriu, faziam parte do ecossistema de captura.
- O diagnóstico da IA: Ao cruzar dinamicamente a série histórica de negociação daqueles papéis em todo o mercado secundário, a IA identificaria instantaneamente um desvio padrão incompatível: um ativo virtualmente morto, sem liquidez real, sofrendo uma valorização contábil vertical apenas dentro daquela instituição. O algoritmo emitiria um alerta de “Ativo Inflado sem Lastro de Mercado”, bloqueando a validação do balanço antes que esses papéis fossem utilizados para captar o dinheiro dos aposentados.
2. Padrão de contágio nos Regimes de Previdência (RPPS)
O grupo criminoso expandia sua captação cooptando gestores de fundos de pensão municipais e estaduais para que injetassem os recursos públicos de suas autarquias em papéis emitidos pelo banco, em troca de vantagens indevidas e mimos custeados no exterior.
- O olho humano: As agências reguladoras observavam as alocações de maneira isolada. Se um fundo de previdência de uma prefeitura do interior comprava um CDB da instituição, a operação parecia legal, desde que respeitasse os limites percentuais de risco da legislação vigente.
- O diagnóstico da IA: Um modelo de inteligência de rede mapearia o fluxo de capital de forma sistêmica. A IA identificaria uma coincidência estatística impossível: dezenas de fundos de pensão, geograficamente distantes e sem nenhuma sinergia de comitê de investimento, migrando simultaneamente suas carteiras para ativos de um mesmo banco de médio porte, justamente após eventos específicos ou trâmites políticos em Brasília. O sistema acenderia a luz vermelha para o fenômeno de “Concentração Induzida por Captura”, disparando uma auditoria de conformidade em tempo real nas autarquias compradoras.
3. Assimetria temporal entre emissão e liquidez
O fluxo financeiro fraudulento operava em um circuito fechado onde os recursos captados retornavam para simular solidez. O dinheiro que saía para financiar festas luxuosas e aportes sob suspeita reentrava no caixa sob a rubrica de novos investimentos.
- O olho humano: O balanço patrimonial trimestral exibia uma fotografia estática e saudável: o nível de depósitos e a liquidez de curto prazo atendiam aos índices exigidos pelo Banco Central (Índice de Basileia).
- O diagnóstico da IA: A IA realiza um eletrocardiograma contínuo do fluxo de caixa, processando transações na velocidade de milissegundos. Ela detectaria que o dinheiro utilizado para liquidar obrigações ou inflar depósitos de última hora vinha de triangulações societárias com empresas de fachada controladas por parentes e operadores do próprio banco (como os fluxos mensais operados pelo núcleo familiar). Ao identificar que o banco estava gerando sua própria liquidez artificial por meio de um mecanismo de autofinanciamento em curto-circuito, o algoritmo denunciaria a fraude estrutural meses antes do estouro da bolha.
O caso Master não foi um cisne negro — um evento imprevisível e inevitável. Foi um elefante branco em uma sala de espelhos administrativa. Os indícios matemáticos, contábeis e de rede estavam todos lá, impressos nas entrelinhas dos dados que o Estado recebe diariamente. A diferença entre o prejuízo bilionário e a blindagem do patrimônio público reside, fundamentalmente, na decisão de trocar a burocracia dos relatórios em PDF pela soberania da auditoria algorítmica em tempo real.
Inteligência como âncora do futuro nacional
A transição da fiscalização reativa para o monitoramento em tempo de execução não é apenas uma sofisticação metodológica; é uma urgência existencial para o desenvolvimento do Brasil. O custo da captura regulatória e das fraudes sistêmicas não se mede apenas nas cifras bilionárias subtraídas dos fundos de pensão ou no sucateamento operacional de serviços essenciais. O prejuízo mais profundo, e de mais difícil reparação, é o desalento que esse ciclo de impunidade e ineficiência projeta sobre as próximas gerações. Quando o topo do sistema econômico opera sob as regras do privilégio e do artifício financeiro, sufoca-se o capitalismo produtivo e sabota-se a meritocracia real. O jovem brasileiro, ao testemunhar a reiteração dessas dinâmicas predatórias, é empurrado para um dilema trágico: a conformidade com a mediocridade institucional ou o exílio em busca de economias de mercado mais íntegras.
É para estancar uma sangria de talentos e de capital intelectual em curso que a Inteligência Artificial deve ser convocada para ocupar lugar especial no núcleo da governança de Estado. Monitorar, passo a passo e em tempo real, a atividade regulatória significa criar uma camada imune ao suborno, à coação e ao cansaço burocrático. O disparo automatizado de alertas diante de estranhezas contábeis e riscos societários retira do fiscal da ponta o peso da solidão decisória e devolve ao investidor legítimo a previsibilidade jurídica necessária para aportar capitais de longo prazo no país.
Passados 26 anos da sugestão de estrutura de avaliação que apresentamos na RAP, a tecnologia finalmente nos oferece a chave para permitir sua implementação de maneira simples e rápida. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de ser o país do escândalo retroativo, que chora sobre os escombros de suas poupanças públicas e privadas aniquiladas pela corrupção. A implementação da auditoria algorítmica contínua é o caminho para destravar as forças produtivas do país, assegurando que a juventude brasileira possa enxergar um horizonte de prosperidade e alegria em sua própria terra, e não apenas nas portas de embarque de um aeroporto internacional.
Justiça
Em quantos “Master” o Rioprevidência aportou recursos?
27/05/2026A Polícia Federal mantém uma segunda frente de investigação sobre a exposição do Rioprevidência ao ecossistema do Banco Master, segundo informações filtradas da corporação. Além dos R$ 3,7 bilhões aplicados diretamente em títulos e fundos do banco, no centro da operação de busca e apreensão contra o ex-governador Claudio Castro, a PF tem indícios de que a entidade de previdência dos servidores do Rio de Janeiro também direcionou recursos para fundos e gestoras indicados pelo Master. A suspeita é que essas estruturas tenham funcionado como instituições-satélites, usadas para pulverizar formalmente os aportes e reduzir a aparência de concentração em um único grupo financeiro. Na prática, o dinheiro continuaria exposto ao mesmo núcleo de risco, ainda que distribuído por diferentes veículos, emissores e administradores. A nova linha da PF tenta mapear quais fundos receberam recursos do Rioprevidência, quem estruturou as operações, quais gestores atuaram como intermediários e se havia orientação deliberada para contornar limites internos de concentração.
Política
Caso Master abre uma brecha eleitoral para o PSD, de Kassab, no Piauí
11/05/2026Gilberto Kassab, que conduz com rédeas curtas as candidaturas majoritárias do PSD, já enxerga a possibilidade de o partido eleger um senador a mais na esteira do escândalo do Banco Master. A brecha vem da ofensiva policial sobre Ciro Nogueira (PP-PI), alvo de mandados de busca e apreensão na semana passada sob suspeitas de receber propina de Daniel Vorcaro. Nogueira é pule de dez para se reeleger ao Senado pelo Piauí. Se puder concorrer… As investigações da Polícia Federal podem alterar totalmente as condições de temperatura e pressão. Ainda há muito a emergir dos celulares e da delação premiada de Vorcaro. Na eventualidade do ex-ministro de Jair Bolsonaro ficar, digamos assim, privado de disputar o jogo eleitoral, aumentariam consideravelmente as chances do candidato do PSD ao Senado pelo Piauí, Julio Cesar. Hoje ele é o terceiro nas pesquisas com cerca de 11%, atrás de Marcelo Castro (MDB), com 29%, e de Nogueira, líder absoluto da última enquete, com 52%.
Mercado
BRB contabiliza os destroços financeiros herdados do Master
16/04/2026O BRB trata como de difícil recuperação uma parcela dos ativos herdados do Banco Master — em especial as participações em renda variável, como Oncoclínicas e Ambipar. Dentro do próprio banco, esses ativos são considerados destroços financeiros, dada a quase impossibilidade de capitalização e de saída. A Oncoclínicas, que chegou a ser avaliada em cerca de R$ 11 bilhões no IPO em 2021, viu seu valor de mercado encolher para algo próximo de R$ 2 bilhões–R$ 3 bilhões recentemente — uma destruição de mais de 70% do valuation. No mesmo período, a companhia passou a operar com alavancagem elevada (dívida líquida/Ebitda na casa de 3,5x a 4x) e forte pressão de caixa, o que reduz drasticamente o apetite de potenciais compradores. A Ambipar seguiu trajetória semelhante: após atingir um pico de valor de mercado superior a R$ 30 bilhões em 2021, passou a negociar em patamares abaixo de R$ 10 bilhões, acumulando uma queda superior a 60% desde o auge. Mais do que a desvalorização em si, pesa a perda de liquidez e a mudança de percepção de risco: são empresas que saíram da categoria de growth para ativos pressionados por estrutura de capital e execução, o que implica descontos adicionais em qualquer tentativa de venda.
Essa percepção ajuda a explicar a engenharia montada com a Quadra Capital. A estrutura, de cerca de R$ 15 bilhões, separa de forma implícita o que ainda pode ser monetizado do que já é visto como problema. Apenas R$ 4 bilhões entram como dinheiro novo, via cotas seniores de um FIDC. O restante permanece sob risco do próprio BRB, na forma de cotas subordinadas — ou seja, depende da performance dos ativos para se converter em caixa. O desenho privilegia direitos creditórios, que, ainda que carreguem inadimplência, ao menos têm fluxo e tese de cobrança. Já as participações acionárias seguem outro regime: dependem de mercado, de comprador e de valuation — três variáveis hoje em xeque tanto no caso da Oncoclínicas quanto da Ambipar.
Especial
Banco Central independente? Independente de quem?
29/12/2025Nos idos dos anos 90, o falecido senador Roberto Saturnino Braga convocou três sumidades econômicas – Octávio Gouvêa de Bulhões, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente da Superintendência da Moeda e Crédito (Sumoc), que exercia as funções do BC antes da sua criação, José Luiz Bulhões Pedreira, jurista autor da Lei das SA e verdadeiro responsável pela arquitetura legislativa do BC, e a professora Maria da Conceição Tavares, ícone dos economistas de esquerda e crítica explosiva do overnight, operações de um dia para o outro, lastreadas em títulos públicos ou privados. A discussão sobre a independência do BC ainda engatinhava, com uma batalha eufemística sobre se seria autônomo ou soberano. Na verdade, ela sempre esteve presente, desde que Bulhões Pedreira extraiu do mármore a criatura, em 31 de dezembro de 1964, pela Lei nº 4.595. Ou seja: na prática, portanto, o BC era um apêndice do Ministério da Fazenda, que, por sua vez, respondia ao presidente da República. Àquela altura, o Federal Reserve já era uma realidade, com seu sistema incontinentemente apoiado pelo FMI – a título de registro, a independência do FED é uma decisão do presidente Woodrow Wilson e data de 1913.
Pois bem, a íntegra do debate entre Gouvêa de Bulhões, Bulhões Pedreira e Maria da Conceição Tavares pode ser encontrada em uma das edições amareladas do jornal do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Apresentados os devidos contendores, o palco do debate e o assunto que já parecia sacramentado, cabe repetir a pergunta que, à época, deixou os congressistas em alvoroço, à beira da perplexidade. Questionada sobre os benefícios que a independência do BC poderia trazer para reparação dos equívocos que ela própria estava apresentando, Conceição gritou: “O Banco Central independente? Independente de quem? Do Brasil?”.
Passadas mais de três décadas, com o episódio do Banco Master, a pergunta permanece como um grito parado no ar. O pedido de acareação urgente feito pelo ministro do STF Dias Toffoli, para colocar frente a frente o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino, o dono da instituição financeira, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, não deixa dúvida sobre a gravidade da operação. Acareação é quase um sinônimo de dúvida sobre a razão de um ou de outro. Ou seja, as vésperas da celebração do Ano Novo estão na ceia os pratos cheios de possibilidade das discussões sobre a fiscalização dos bancos, a ausência de recursos da autoridade monetária para cumprir essa missão, o prazo para a definição da liquidação extrajudicial dos bancos, a responsabilidade sobre a destruição patrimonial de uma instituição em caso de erros nos processos de liquidação, o limite de garantia do Fundo Garantidor de Crédito e a omissão sobre medidas macroprudenciais. O assunto se tornou ainda mais confuso na medida em que ontem circularam informações de que a Polícia Federal colheria o depoimento individual de Aquino, Vorcaro e Costa antes de decidir sobre a necessidade de uma acareação no STF. É difícil considerar essa versão crível. O que teria a ver a PF com uma arguição junto a um diretor do BC? Incriminá-lo, ainda que tacitamente? Adiar a acareação depois de anunciá-la sob a luz dos holofotes somente tornaria o caso ainda mais sensível, colocando ainda mais dúvidas sobre a conduta do STF.
Mas há uma pergunta que assumiu proporções maiores do que todas as demais. A independência do BC e seus processos estariam acima de um dos Poderes da República? Esse, sem dúvida, é um assunto para o Congresso também meter sua colher. Já há quem defenda uma CPI de todo o caso, com ênfase na crítica a um sistema regulatório criado para blindar o investidor de qualquer tremelique. Mas são tantos os zangões envolvidos que, em um ano eleitoral, duvida-se da disposição de mexer nessa colmeia. Até porque há virtuais aferições que podem levar à necessidade de se repensar todo o sistema de compliance do BC. Foi o Congresso que aprovou a emenda constitucional que garante a independência da autarquia. Quem pariu Mateus que o embale.
Curioso. O Congresso Nacional exige explicações do Banco Central independente em circunstâncias de fracasso na performance em casos como a Regra de Ouro ou a Lei da Responsabilidade Fiscal. Mas o STF não pode pedir uma explicação mais acurada por um episódio que, devido à ausência de um comunicado da autoridade monetária em tempo hábil, chegou a ser considerado como uma possibilidade de risco sistêmico do setor bancário brasileiro. Ou mesmo a suspeição de que as razões técnicas “irrefutáveis” do BC são, sim, refutáveis e não levaram em consideração o fato que o banco poderia ser vendido ou consolidado – esqueça-se o BRB.
A fiscalização do BC é um dos setores mais sofridos da casa, mesmo não estando no top 20, vide a pesquisa de clima do banco, levantamento bienal feito pela autarquia. Para se ter uma ideia do ambiente, em sua edição mais recente (2024), o próprio BC inicia a introdução do relatório dizendo que “nem tudo são flores nesta aldeia”. A pior nota dos 60 itens avaliados pelos servidores ativos se deu diante da afirmação “confio nas mudanças estabelecidas pela Diretoria Colegiada do Banco Central”. O BC opera com um déficit de mais de 2.000 funcionários em relação a 2006. Uma condição de trabalho inviável já anunciada publicamente pelo ex-presidente da instituição Roberto Campos Neto.
Onde entra a Justiça nessa história? O BC e principalmente sua equipe de fiscalização não são infalíveis. Nem vale a pena lembrar do estrago do sistema bancário provocado pela perda do floating bancário, com o Plano Real, quando nem a supervisão de bancos como o Econômico, Nacional e Bamerindus nem a adoção de medidas macroprudenciais foram tomadas, o que evitaria custos gigantes ao Erário. Em tempo: um dos bancos mais encalacrado em sua liquidez e beneficiado pelo Proer, o Bamerindus, pertencia ao empresário José Eduardo Andrade Vieira, maior financiador da campanha eleitoral de Fernando Henrique Cardoso. Mas essa avalanche, corrigida com dinheiro das reservas bancárias e emissão de títulos públicos, já foi para a cesta de muitos anos velhos.
Voltando ao presente e ao caso do Master, talvez um desacerto maior tenha sido o ingresso do Ministério Público nesse processo como um agente inquisidor. O assunto vinha sendo tratado como uma investigação do BC, ainda que controversa. O MP cravou uma série de perguntas de quem tem dúvidas quase generalizadas. Tudo que é vinculado ao Ministério Público é associado de alguma maneira à criminalização. Possivelmente pela sua atuação indissociável com a Polícia Federal. As questões enviadas para a diretoria de fiscalização pelo MP parecem indicar que houve açodamento na liquidação do Master. Há muito fermento para fazer crescer esse bolo. Ele enseja a discussão sobre um código de conduta dos togados. Ou pode atingir um dos heróis da resistência ao golpe, o juiz Alexandre de Moraes, devido às relações comerciais do escritório de advocaria da sua esposa com o Banco Master. Mas urge arrumar a fiscalização do BC. A autoridade monetária foi acusada de ser responsável pelas falências, em casos anteriores, da BRK Financeira e da PortoCred, em 2023. Ambas foram citadas como exemplos que “revelam falha no sistema”, sugerindo que a supervisão não foi capaz de impedir o colapso dessas instituições a tempo de evitar prejuízos a credores e investidores. Talvez um dos principais pontos que mereçam a acareação entre Vorcaro e o diretor do BC seja qual o prazo no qual a autarquia pode manter sob sigilo a conclusão de um processo de risco de liquidez que é público. Até que ponto essa lentidão não configura depreciação de patrimônio, permitindo o ajuizamento da destruição patrimonial pela parte prejudicada? Ninguém diz nada sobre isso em lugar nenhum.
O RR tratou do caso no dia 28 de agosto. Vale relembrar: “147 dias já se passaram desde que o BRB anunciou a compra de 49% das ações ordinárias e de 100% das ações preferenciais do Master sem que o BC tenha dado seu veredito. E sem qualquer horizonte de quando o fará – o Cade, por exemplo, chancelou o acordo em 81 dias; a Assembleia Legislativa do Distrito Federal, por sua vez, também já deu seu aval no último dia 19 de agosto. A demora do BC ultrapassou o tempo gasto pela autoridade monetária para apreciar outras negociações no setor bancário. Apenas a título de comparação, vamos a alguns exemplos. A aprovação da venda do Conglomerado Alfa para o Banco Safra demorou 139 dias. A autorização para a compra da Avenue Holding pelo Itaú Unibanco saiu em 82 dias. A transferência dos ativos do Credit Suisse no Brasil para o UBS, no âmbito de uma operação de abrangência global, recebeu o nihil obstat do BC em apenas 60 dias. Proporcionalmente, no entanto, talvez nada supere a venda em pele de fusão do Unibanco para o Itaú. O BC aprovou o negócio em 107 dias, praticamente em regime de fast track se levarmos em consideração as delicadas circunstâncias que cercavam a operação. O próprio Master já conheceu esse lado mais resoluto e menos procrastinador do Banco Central. No ano passado, o BC autorizou a aquisição do Banco Voiter em apenas 49 dias.”
Nenhuma dessas informações faz qualquer juízo de valor sobre os procedimentos de Daniel Vorcaro e do Banco Master. O ponto central das observações é que a Justiça está preocupada, o Ministério Público está preocupado, o Executivo está preocupado, o PT está preocupado – então candidato à Presidência, Fernando Haddad defendeu a independência do BC nas eleições de 2018 – e o Congresso já emite sinais de que a regulamentação precisa ser afinada. O Master pode ser apenas o buraco da agulha. É melhor abrir logo a cortina.
Negócios
Os estratagemas de André Esteves para brecar a operação entre o Banco Master e o BRB
4/04/2025O encontro suspeitamente realizado entre André Esteves e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na última segunda-feira, foi uma tentativa de xeque-mate do banqueiro para impedir a associação entre o Master e o BRB. Esteves trabalha mais pela destruição do que pela construção do negócio. A mídia está repleta de análises fundamentalistas sobre as vantagens e desvantagens da operação. O que não é falado são as artimanhas de bastidor do banqueiro contra o acordo e suas partes. O RR apurou que grandes clientes do BTG com papéis do Master em sua carteira têm sido bombardeados com a recomendação de venda da sua posição. O RR teve acesso a um dos informes enviados por gestores de recursos do banco a investidores, com os seguintes dizeres: “Percebemos que sua posição em CDBs do Master está um acima do FGC.
Encaminho uma opção de investimento para a sua avaliação. Podemos realocar uma parte”. No fim da mensagem, o principal: “Para você não ficar a descoberto caso ocorra algo com o banco (Master) e garantir a cobertura para os valores totais do FGC”. No mesmo dia, o banco enviou outra mensagem a seus clientes: “Você sabe qual é o limite da cobertura do FGC? O Fundo Garantidor de Créditos cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, considerando o valor principal mais os juros, e por conglomerado financeiro, independentemente do custodiante, com um teto de R$ 1 milhão em um período de quatro anos. No BTG Pactual, você pode conferir diretamente no app se os seus investimentos estão dentro dessa cobertura. Acesse o Monitor de Cobertura FGC e invista com mais segurança”. Poucos minutos depois, investidores do BTG receberam outra notificação: “Limite do FGC: A cobertura é de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e por conglomerado financeiro. Acesse o Monitor Cobertura FGC”. Nos dois últimos casos, não há menção explícita ao Master. E nem seria preciso.
Além do Banco Central, André Esteves tem se movimentado junto a outras esferas do poder, valendo-se do seu notório trânsito e influência entre as mais distintas instâncias – governamental, empresarial, midiático ou mesmo no Judiciário. Neste momento, a depreciação dos ativos do Banco Master facilita os interesses de Esteves, especialmente no que diz respeito à carteira de precatórios da instituição. O Master tem cerca de R$ 7 bilhões em títulos dessa modalidade. A maioria é constituída em dívidas do estado de São Paulo, que hoje tem melhores condições de pagamento do que a própria União. Sabe-se também que uma parcela expressiva dos precatórios em poder do Master já conta com depósito em juízo ou tem previsão de recebimento no curto ou médio prazo. Trata-se de um maná para o BTG, que tem se notabilizado nos últimos anos como um voraz comprador de precatórios. Deteriorar a percepção em relação ao Master e consequentemente as condições de negociação do banco seria uma peça-chave na estratégia de Esteves. É uma espécie de operação-asfixia. Para o BTG, quanto pior melhor. Isso abriria caminho para o banco negociar a compra da carteira de precatórios do Master em termos mais vantajosos, com um deságio maior. Há informações também sobre um possível interesse do BTG na operação de consignado do Master, de aproximadamente R$ 920 milhões. Pode até ser. No entanto, parece muito mais um movimento diversionista, para desfocar o interesse maior de André Esteves.
Desde o anúncio da associação, na última sexta-feira, a operação entre o Master e o BRB tem sido alvo de uma torrente de aleivosias. Uma das narrativas mais batidas é que o negócio não passa de uma ação do governo para acudir o Banco Master. Por sinal, a julgar pelo que se diz aqui e ali, o acordo tem padrinhos na direita, na esquerda e no centro. Ora, a operação é atribuída a Ciro Nogueira, do PP; ora, a Antônio Rueda, do União Brasil; quando não ao petista Guido Mantega, passando, é claro, pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, do MDB. É como se o negócio entre o Master e o BRB tivesse ensejado a criação da maior frente ampla já vista no país. Esse tiroteio nas mais variadas direções pode ser mais uma manobra de Esteves. Ou não.
Escalando para ilações mais graves, André Esteves também estaria aludindo a operação ao convite de um risco de crise sistêmica no setor bancário, caso o acordo se concretize nos termos divulgados. Aliás, Esteves, com seu trabalho de transformar a operação em um escândalo, não ajuda em nada a afastar a versão do risco sistêmico. Não há, diga-se de passagem, qualquer dado contábil que aponte nessa direção. Pelo contrário: o Master reportou um lucro de R$ 1 bilhão em 2024. A construção dessa “realidade” sem comprovação chegou ao ponto de se espalhar que toda a operação foi feita ao largo do Banco Central.
Os próprios sócios do BTG dizem que é impossível ter visibilidade do que André Esteves pensa e quais são as operações no seu radar. No passado, ele foi o principal conspirador do levante que expulsou o fundador e controlador do Banco Pactual, Luiz César Fernandes. Esteves consegue fazer do brand do banco – na verdade, do seu próprio brand – um outdoor para convites junto a qualquer autoridade do país. No mercado não basta saber o que ele pretende, mas porque pretende. É absolutamente razoável que Esteves esteja olhando para onde ninguém está mirando. E usando o que melhor sabe fazer quando identifica um bom negócio ou um negócio que o atrapalha: usar o seu incontrolável poder de destruição.
Master joga a rede
15/09/2021O Banco Master (antigo Banco Máxima) tem planos de entrar no negócio de pagamentos eletrônicos. A instituição mira a compra de fintechs no setor. Procurado, o Master não se pronunciou.