fbpx
12.11.19

Você tem déficit de quê?

Observatório

Por Daniel Valente, economista, comerciante e estudioso das políticas corporativas e de entidades patronais.

Em meio à discussão sobre a redução dos recursos e até mesmo a extinção do Sistema S, caberia um debate sobre a qualidade e utilização das verbas gerenciadas pelas entidades patronais. A principal atividade do Sistema S são a aprendizagem e o treinamento. Fazem parte do sistema S as seguintes unidades: Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Serviço Social do Comércio (Sesc), Serviço Social da Indústria (Sesi) e Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio (Senac). Um segundo time seria composto pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) e Serviço Social de Transporte (Sest).

É verdade que o sistema S tem sido carcomido por exemplos de corrupção, suspeição de práticas inidôneas por parte das instituições arrecadadoras e gestoras dos seus recursos e até prisões. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade, foi inclusive preso. O presidente da Fiesp já foi denunciado por usar recursos das entidades para sua campanha política. Há pouco menos de um ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Fantoche, prendendo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco, Ricardo Essinger. Os crimes encontrados somaram R$ 400 milhões, envolvendo publicidade, eventos culturais e publicidade superfaturada.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, que não quer reconstruir o processo para o treinamento do trabalhador, e sim abater déficit público, aproveitou-se da oportunidade para propor logo um corte de 40% da verba total. Em parte Guedes tem razão quando faz sua catilinária sobre a parcela que vai para financiamento de campanha política e outra para compra de prédio de luxo para transferência da sede. Mas as generalizações do ministro são típicas de quem não quer consertar. O Sistema S precisa, sim, de choque de compliance, de uma auditoria de performance, de um balanço social e, finalmente, da adoção de sinergias em suas atividades. São milhões de alunos em aprendizagem. Digamos que o treinamento e a educação estejam no centro do sistema solar. Mas é possível conjugá-los com o emprego e o patrimônio público. A Fecomercio do Rio de Janeiro, por exemplo, está propondo ao governo assumir o tradicional mercado Cobal, em estado falimentar, juntado no mesmo lugar um núcleo de aprendizagem. Muita gente aprendendo e muita gente preservando seus empregos. O déficit público é um mantra para a política econômica, mas nem sempre para resolver problemas sociais mais prosaicos.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.