fbpx
22.11.19

Uma Nota sobre Riscos de Desastre

Observatório

Por Leonardo Braga, Capitão Submarinista da Marinha Brasileira.

A ideia central por trás do conceito de risco é a incerteza. Se alguém salta de um avião em voo sem paraquedas, não há nenhum risco envolvido. O infeliz irá se esborrachar sem a menor sombra de dúvida. Munidos do uso apropriado do termo “risco”, a pergunta que se sucede então é meio óbvia: como temos certeza? Afinal, quantas vezes você viu as coisas darem errado depois de alguém afirmar categoricamente “eu tenho certeza de que vai dar certo”? Em um esquema simplificado, o papel de verificar a qualidade das suas decisões, e prover maior ou menor convicção, vem das chamadas estruturas “metacognitivas”. Em sua origem etimológica, metacognição é algo como “além do conhecimento”, o que faz referência a nossa capacidade de julgar nossos processos decisórios.

A metacognição acontece em camadas processuais, não estando compartimentada em uma região específica. Certas áreas do cérebro podem trabalhar ora produzindo conhecimento, ora realizando a supervisão. Veja por exemplo o caso da fechada no trânsito que te deixou furioso – pelo menos até você descobrir que o carro da frente fez isso para evitar um atropelamento. No primeiro momento, uma certa camada cognitiva semiautomática dirigia o carro, enquanto uma camada mais reflexiva e analítica se preocupava em decidir o que fazer para o jantar e o que comprar no supermercado. Nossas camadas mais viscerais não são lá muito sofisticadas e entendem que a fechada é uma agressão, um atendado contra a vida, que requer uma represália à altura.

Nessa hora a boa mente reflexiva interrompe o que está fazendo e exclama um “epa, epa, epa… para aí”, vamos ver o que está acontecendo, e interrompe a sequência que levaria você a chutar o carro da frente e xingar o motorista. Depois da inibição do comportamento automático segue-se um enriquecimento da análise, para a escolha de uma outra linha de ação – talvez um cumprimento ao invés de um xingamento. A metacognição também existe em organizações, aqui entendidas como formas de inteligência coletiva. Controle de Qualidade, por exemplo, é uma forma de metacognição organizacional. O simples dígito verificador em registros e boletos bancários é um recurso de metacognição.

É o reconhecimento puro e simples da possibilidade de alguém ou algo trocar um número e processar um valor ou um destinatário errado. O que há de assustador em olhar por esse prisma, é perceber que a convicção pode nascer tanto de um nível muito baixo quanto de um nível muito alto de metacognição. Quem sabe muito pouco acha que tem todas as certezas do mundo. Nas palavras do artista chinês Ai Wei Wei, em sua exposição Raiz, em 2019, “A história nos ensina que no início das maiores tragédias havia ignorância”. A era do conhecimento deveria, portanto, nos afastar da barbárie. Mas se hoje criamos muito, e refletimos pouco, não há risco – há certeza do desastre.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.