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30.01.20

Um desencontro calculado entre Flamengo e Globo

Observatório

Por Claudio Fernandez, jornalista e editor-chefe do Relatório Reservado.

Engana-se quem pensa que Flamengo e Globo estão em guerra. Não por ora. Existe uma boa dose de blefe no impasse em torno da venda dos direitos de transmissão do rubro-negro no Campeonato Carioca. Há indícios de que o clube e a emissora dançam um balé de passos marcados, desencontros calculados e desfecho previsível. O Flamengo voltará às telas dos canais e plataformas do Grupo Globo ainda durante o Campeonato Carioca. Tudo faz parte do show.

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, encontrou a ambiência perfeita para “pressionar” a Globo. A conquista do Brasileiro, título da Libertadores, recordes de audiência, saúde financeira em dia e um time reserva na Taça Guanabara, o primeiro turno do Carioca… Pode parecer pouco, mas este último fator tem um peso considerável na cesta de algoritmos da decisão do Clube por ainda não ter fechado o contrato com a Globo. A necessidade de colocar um sub-23 para disputar a primeira fase do Carioca deu à direção do Flamengo tempo e condições excepcionais para testar os limites do maior grupo de comunicação do país.

Com o time sub-23 e a natural queda de audiência das suas partidas, o rubro-negro ganhou margem de manobra para convencer seus próprios patrocinadores de que este é o momento adequado para uma pontual perda de exposição na mídia. É a estratégia do recuar uma casa para avançar. Na prática, a temporada do Flamengo de verdade ainda não começou. Para todos os efeitos, a Globo não deixou de transmitir nenhum jogo do time principal do rubro-negro em 2020. Daí a leitura de que, muito provavelmente, haverá um entendimento entre as duas partes antes das finais do Carioca, caso o Flamengo se classifique.

O Flamengo pede à Globo um valor muito superior à soma das cotas dos direitos de transmissão de Botafogo, Vasco e Fluminense – algo em torno de R$ 48 milhões. Sabe que está exigindo o impossível. Significa dizer que o rubro-negro teria de gerar uma audiência três, quatro até cinco vezes superior à média de seus rivais. Isso não ocorre. Consta que a Globo, por sua vez, ofereceu um valor praticamente igual ao do contrato anterior, firmado em 2016 – por volta de R$ 18 milhões. Também não soa razoável que, depois do 2019 que teve, o Flamengo aceite praticamente um congelamento do contrato. Ou seja: os dois lados colocaram sobre a mesa cartas sabendo que elas não serão aceitas de forma recíproca. É a coreografia da negociação. Haverá recuos de parte a parte.

De toda a forma, não se pode diminuir a importância desse episódio. Pela primeira vez em anos, um grande clube brasileiro inicia uma competição sem acordo com a TV. Sem acordo com a Globo. Trata-se de um comportamento que, no mínimo, cria algum nível pouco usual de insegurança para a emissora, sobretudo com as novas plataformas de streaming batendo às portas do Brasil. Talvez ainda não seja desta vez. Mas, da próxima vez que um grande clube brasileiro disser “não” à Globo, pode não ser um balão de ensaio.

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