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03.01.20

Tempo de profissionalismo na CNI

Observatório

Por Daniel Valente, empresário.

Fazem falta as articulações de Albano Franco, um sergipano arretado, que respirava política empresarial por todos os poros. Franco foi presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) por 14 anos, entre 1980 e 1994. Na casa, tanto protagonizou momentos notáveis na luta em defesa das empresas quanto pagou micos históricos à frente da entidade. Os primeiros foram muito maiores do que os segundos. Por força do cargo, ocupou também as presidências do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), do Serviço Social da Indústria (Sesi) e do Conselho Superior do Instituto Euvaldo Lodi (IEL). Franco foi tudo: deputado, senador, governador, constituinte e, por pouco, não foi presidente da República, bastando para isso um impedimento por qualquer motivo do presidente José Sarney. Lobistas profissionais trataram espalhar a hipótese no Congresso e pela Esplanada dos Ministérios.

Na mídia o noticiário registrou alguma coisa. A imprensa, aliás, é um capítulo à parte na história do sergipano. O presidente da CNI era um flautista encantador de jornalistas. Com sua voz de rouca a metálica, horrorosa, estava sempre cercado de repórteres fazendo-lhes inconfidências sobre informações que sairiam nas páginas do dia seguinte. Era amigo também dos donos dos jornais. Fez com Roberto Marinho uma dupla respeitável durante determinado tempo.

Era fabricante de Coca-Cola no estado de origem, mas pode-se dizer que sua maior empreitada foi a transformação da CNI em um verdadeiro potentado. Conservador, expressão pálida, cabeça grande, um sorriso enigmático que lembrava o de Getúlio Vargas, jeito de primeiro aluno de classe sujeito a bullying, Franco era tudo isso.  Mas sabia fazer da conspiração política a mais afiada das lâminas. Em 1982, já ocupando uma cadeira no Senado pelo PDS, a qual acumulava junto com o comando da CNI, foi discursar na conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, na Suíça. Na ocasião anunciou a existência de uma nova política dos homens de empresa sintetizada na “privatização dos meios de produção”, tendo como contrapartida “a socialização dos lucros através dos salários e outras participações dos empregados”.

Estranho! Albano falando em socialização dos lucros? Que deu no empresário? Reza a lenda que o discurso foi da lavra de Jorge Serpa, megalobista colaborador de Albano Franco, que defendia tese similar a do general Golbery do Couto e Silva, só que por uma via transversa. Golbery dizia que, sem a distensão política, iriam todos serem pendurados nas árvores. Serpa falava o mesmo se não houvesse um “pouquinho de distribuição de renda”. Entre articulações do arco da velha, convém lembrar, o plano de Albano com Serpa, Roberto Marinho e Raphael de Almeida Magalhães para eleger Antônio Ermírio de Moraes; toda essa travessura com a concordância de José Sarney, é claro. Como se trata de uma história grande, fica para outra vez. Mas, se por um lado, Franco foi onipresente à frente da CNI, por outro foi responsável por vacilos memoráveis.

Em 1987, por ocasião da votação do texto básico da Constituição, votou por engano a favor da nacionalização das companhias exportadoras de combustíveis, contrariando os interesses dos empresariados que representava. Ou seja, encerrava as operações de companhias estrangeiras – a anglo-holandesa Shell e as norte-americanas Esso, Texaco e Atlantic – e, ao mesmo tempo, transformava as empresas nacionais, como a Ipiranga, em meras concessionárias do poder público. Essa proposta era do deputado Fernando Santana (PCB), e ele tomou como sua. Mesmo com uma ou outra leseira, um cabra como Albano Franco vale não se sabe quantos Paulos Skaf – denunciado por desviar recursos da Fiesp para sua campanha política – ou Robsons de Andrade – preso por ter se locupletado com o dinheiro distribuído pela Odebrecht. Que falta faz Franco na CNI.

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