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05.02.20

Simonsen, a corrupção e o escrivão Bartleby

Observatório

Coriolano Gatto, jornalista.

As novas regras para o combate a práticas de anti-corrupção, com a introdução de mecanismos refinados de compliance (aderência às normas), podem não ter o sucesso tão esperado. Elas permitem a contratação de bancas de advocacia, que fornecem uma espécie de selo de qualidade a companhias que mantêm relacionamento com o setor público. Uma espécie de detergente que deixa tudo clean. Há bancas que evitam fornecer a chancela a práticas de anticorrupção a companhias envolvidas em ações controversas com entes públicos por duvidarem dos propósitos de seus acionistas e de seus administradores. Nem é preciso falar de nomes das empresas ou dos advogados. São todos sobejamente conhecidos.

Apenas um singelo exemplo: a empresária bilionária corrupta Isabel dos Santos, filha do ex-ditador socialista de Angola Eduardo dos Santos, teve seus múltiplos negócios auditados pela PwC, Ernest; Young, Delloite e KPMG. O curioso: as auditorias continuaram a prestar serviços, mesmo depois das primeiras denúncias, no início de janeiro, de acordo com reportagens de um consórcio internacional de jornalistas. Só romperam depois da fuga de Santos para Dubai e Londres. Note que todas são multinacionais, sujeitas a uma legislação rigorosa.

Ninguém está exigindo que todo homem público aja como o professor Mario Henrique Simonsen (1935-1997). Inquirido, em uma entrevista, se em algum momento da sua vida pública fora alvo de uma proposta de corrupção, dada a à importância do cargo que exercera no governo Geisel (1974-1979) como ministro da Fazenda, quando controlava 400 empresas estatais, segundo as contas de Eduardo Gianetti da Fonseca.: ⁃ – O sujeito, para corromper um servidor público, precisa ter 90% de chances de que será bem- sucedido. A resposta lógica, cartesiana, no melhor estilo do velho mestre, ministro de Estado aos 39 anos, não deixou margem para continuar o tema.

Simonsen agiu como o escrivão do conto de Herman Melville (1819-1891), noves fora o lado caricatural. Certo dia, quando o narrador pede a Bartleby para revisar um documento, o jovem simplesmente responde: Eu preferiria não fazer. É a primeira das inúmeras recusas seguintes de Bartleby. Para a consternação do narrador e irritação dos outros escrivães, Bartleby executa cada vez menos suas tarefas. E permanece fiel à sua convicção. Corrupção não tem data, CPF ou ideologia. Imaginar o contrário é acreditar que um juiz de primeira instância possa resolver situações empresariais complexas. Ou acreditar em Papai Noel, como diria Simonsen, para os economistas que receitavam soluções mágicas para combater a inflação e a má distribuição de renda.

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