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26.12.19

Que falta faz a velha Fiesp

Observatório

Por Daniel Valente, empresário e estudioso das entidades patronais.

Durante décadas, a Fiesp foi referência de entidade patronal orgânica ou pública, ou seja, voltada para o interesse nacional e não somente para o próprio umbigo. Tempos de Francisco Matarazzo e Roberto Simonsen. Décadas depois, por volta de 1970, o presidente da entidade era Theobaldo de Nigris, pelego prestigiado pelos seus pares, responsável pela construção do célebre prédio da Av. Paulista – símbolo de opulência e poder – e identificado com o desenvolvimento da indústria gráfica do estado de São Paulo. Seguiu a De Nigris o industrial Luiz Eulálio Bueno Vidigal Filho, proprietário de uma fábrica de bens de capital. Vidigal Filho inicia um trabalho de politização da Fiesp nos chamados “anos de chumbo”.

A Fiesp torna-se um bunker pela democracia. Os próximos presidentes são os anódinos Carlos Eduardo Moreira Ferreira e Horácio Lafer Piva, ambos descendo a ladeira do prestígio da entidade. Em 2007, tem início a era Paulo Skaf, identificada como a fase “self market maker” da instituição. Para começar, Skaf nunca foi industrial. A Fiesp deixou de falar dos seus feitos e passou a propagandear os de Paulo Skaf, que colocou a entidade a trabalhar em prol dos seus objetivos políticos.

E mais, o empresariado de São Paulo não forneceu ao Brasil. No Rio, a versão De Nigris foi a de Mario Leão Ludolf, que permaneceu “séculos” na presidência da Firjan. Ludolf tinha prestígio, mas pouca disposição de usar seus acessos em benefício do Rio, e muito menos do Brasil. Seguiu o industrial da construção naval, Arthur João Donato. Verdade seja dita, Donato lutou pela indústria do estado e também do país, na medida em que os estaleiros estavam entre os maiores setores fabris do Brasil.

Após Donato, tem início a longa gestão de Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira. Pertencente a uma família aristocrática, filho do advogado constitucionalista de 1945, João Pedro Gouvêa Vieira, o novo gestor  veio cheio de ideias modernizantes, entre as quais, a mais revolucionária foi a de aproveitar a iniciativa de Cesar Maia, que criou um conselho de “ases” para a cidade do Rio de Janeiro. Vieira foi buscar os mesmos nomes – Mario Henrique Simonsen, Eliezer Batista e Raphael de Almeida Magalhães – e criou o Conselho da Indústria do Rio; na realidade, com o forte apoio do seu escudeiro Amaury Temporal, que antes tinha ocupado a presidência da Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Vieira foi polêmico, tanto pelo tempo de permanência quanto  pelo estilo voluntarista de governar. Mas todos os seus eventuais equívocos são esmaecidos pelo grande acerto que foi a Casa Firjan, um centro arquitetônico lindíssimo voltado para a inovação, arte criativa, startups e toda a moderna indústria 4.0. Enquanto o Rio, com todas as suas monumentais dificuldades urbanas, dá um passo à frente da capital financeira do país, São Paulo parece viver uma eterna ressaca dos tempos de Francisco Matarazzo e Roberto Simonsen. Era uma época em que as entidades empresariais estavam voltadas para o planejamento nacional, cumprindo um papel que ficou sem protagonista. Seria bom demais para o Brasil se a Fiesp voltasse às suas origens.

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