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06.03.20

Quando o PIB em alta rima com ajuste fiscal

Observatório

Por Isaak Kaleh, macroeconomista.

O que vem primeiro: o aquecimento do PIB ou o ajuste fiscal? Eu diria que os dois. Dependendo da intensidade, do projeto de Estado e do timing, ambos podem caminhar juntos. Para que o PIB retome o crescimento em marcha forçada, é preciso de investimento público. Com o PIB mais alto, sua relação com o déficit primário e a dívida pública bruta tende a ser mais amena. Mas não seria nenhuma trucagem. A ideia é avançar no ajuste e fazer as reformas; tudo dentro de um projeto de Estado, e não ao inverso, conforme diz o professor Roberto Mangabeira Unger.

Se o PIB é o núcleo da galáxia econômica, é preciso condicionar as metas fiscais a sua previsão de expansão, e, mais uma vez, não o contrário. Para lubrificar o crescimento com o investimento, os números fiscais poderiam cair menos drasticamente. A opção das datas de queda dos gastos públicos é um arbítrio do governo. Partem da premissa que a despoupança do Estado será compensada com recursos externos. Ocorre que mais de 80% do investimento direto estrangeiro são realizados em projetos maduros.

O greenfield fica a espera de quem o priorize. Em princípio seria o Estado, mas o setor público está amarrado pelo ajuste fiscal. E as reformas não visam gerar recursos para acelerar os investimentos e empurrar o PIB para cima. Esse trade off só existe por uma questão de escolha. Por exemplo: em vez da meta de um superávit primário em 2023 ou 2024, que se transfira o objetivo fiscal para 2026 ou 2027, e aumentem-se as aplicações em formação bruta do capital fixo. Com o Produto subindo, cairá a relação déficit e dívida/PIB.

Tudo bem, nada é óbvio nessa seara. De qualquer forma, é melhor voltar à boa e velha economia política: quando as opções buscam o equilíbrio entre o social e o financeiro. O Brasil do presente e dos últimos anos, infelizmente, fez escolhas radicais entre um e outro. O resultado está aí.

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