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23.01.20

Os trouxas, como os alquimistas, estão chegando

Observatório

Por Coriolano Gatto, jornalista.

O lendário investidor Luiz Affonso Cardoso de Mello de Álvares Otero (1926-1995), dono da maior corretora de valores até o início dos anos 1990 e de uma fortuna na casa de US$ 1 bilhão, evitava fazer previsões sobre a bolsa. O paulista quatrocentão, que escolheu o Rio para fazer fortuna, costumava dizer que era uma desonestidade qualquer exercício de futurologia. Se a previsão do analista era tão consistente, seria mais lógico que ele guardasse a informação para si e ganhasse dinheiro em vez de dar entrevistas. Otero, um homem elegante, colecionador de grandes obras de arte, ficaria chocado com a ousadia da Empiricus e de outras empresas de varejo de research.

É fato que a bolsa de valores experimenta valorização acentuada em meio a uma economia que ainda derrapa na curva. Os grandes investidores internacionais agem como o filósofo grego Pirro, o pai do ceticismo, e põem em dúvida a solidez de alguns indicadores econômicos. No ano passado, retiraram quase R$ 45 bilhões da bolsa – ou perto de 1% do valor de mercado das empresas listadas na B3 (R$ 4,9 trilhões). A cifra não assusta, mas revela um pequeno sinal de cautela: a ausência de um crescimento sustentável na economia real, embora alguns setores, como o da construção civil, apontem para o início de uma recuperação. As taxas de juros baixas – as menores da série histórica do Banco Central – não explicam, isoladamente, a valorização do mercado acionário diante de uma economia internacional que põe o pé no freio.

Empresas de research estimulam o pequeno investidor a entrar na bolsa, mesmo diante de um cenário que desafia até os invencíveis bancos brasileiros, que ganham dinheiro na euforia ou na recessão. A expansão das fintechs, que se multiplicam como farmácias ou salões de beleza, é um sintoma de uma assimetria no sistema financeiro, observa um arguto gestor de recursos. Para melhorar, “falta o trouxa”, complementaria o banqueiro Daniel Dantas, três gerações depois de Luiz Otero, ao mencionar, em entrevista, que na virada do século os negócios iam mal, mas a economia ia bem. Como os alquimistas da música de Jorge Ben Jor, os trouxas estão chegando; ou, para quem vai curtir os 50 dias de carnaval no Rio de Janeiro, lembra a marchinha de Dalva de Oliveira: “Oi! Zum, zum, zum, zum/Tá faltando um”.

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