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11.12.19

Os tempos anômalos na política carioca e a perspectiva das próximas eleições municipais

Observatório

Por Christian Edward Cyril Lynch, cientista político e professor do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ.

As eleições municipais do ano que vem despontam no horizonte e, como sempre, o primeiro cenário é de grande dispersão de partidos e de candidatos. Aparentemente, o atual prefeito, Marcelo Crivella, se acredita no segundo turno, qualquer que seja o oponente. Em tempos ordinários, semelhante crença seria digna de estupor, tendo em vista que o prefeito é o pior da história da cidade, desde que ela foi rebaixada à condição de município em 1975. A cidade se encontra em um estado de degradação que não pode ser debitado somente na conta da crise econômica; deve-se a um misto de incompetência e demagogia.

Nesse sentido, Crivella conseguiu a proeza de ser pior do que o governador da hora, invertendo a tendência dos últimos trinta anos. Em tempos ordinários, Crivella provavelmente sairia a pontapés do Palácio da Cidade. Mas, como vivemos tempos anômalos, ele acredita se safar recorrendo às fórmulas político-eleitorais da Nova Direita, em voga nos últimos meses. São elas: recorrer à ideologia como compensação à incompetência, a negação do óbvio como instrumento de defesa, queixar-se da imprensa que lhe aponta os erros e recorrer a um respeitável repertório de factoides para desviar a atenção. É o que fazem o presidente Bolsonaro e seu ministro da deseducação, Abraão Weintraub, para não falar de outros ministros e seus subordinados.

É força reconhecer, por outro lado, que o estilo destoa em Crivella, que desenvolveu como pastor um estilo marcado por uma suavidade literalmente evangélica. Por isso, a roupa de demagogo feroz que lhe convenceram a vestir para quebrar o pedágio da Linha Amarela e falar ou fazer outras bobagens parece lhe ter caído muito mal. Diante dessa falta de traquejo na boçalidade, o prefeito conta com o presidente Bolsonaro para apoiar sua reeleição, na esperança de que ele transferira o carisma reacionário de que ele carece. Outro elemento que conta para não considerar o prefeito completamente fora do baralho eleitoral do ano que vem reside na divisão do voto à esquerda entre as candidaturas de Benedita da Silva e Marcelo Freixo. Ela atualiza o velho ditado segundo o qual a esquerda só e junta na cadeia: ela também pode se juntar no segundo turno, se até lá não se engalfinhar, como tem acontecido com certa frequência.

No centro do espectro político, em meio a outras candidaturas de perfil semelhante, como a do deputado Marcelo Calero, emerge como o grande favorito para enfrentar Crivella o ex-prefeito Eduardo Paes. É verdade que Paes foi derrotado no ano passado pelo tsunami bolsonarista que, entre seus destroços, pôs Wilson Witzel no gabinete de governador do Palácio Guanabara. Mas sempre se pode lembrar que Paes foi o antípoda administrativo de Crivella, verdadeiro workaholic que promoveu na cidade uma transformação positiva que ela não sofria desde os tempos de Carlos Lacerda como governador da Guanabara, sem ter aparentemente se enfiado no lamaçal em que se meteu Sérgio Cabral. Por isso, em tempos normais, Eduardo Paes certamente seria um pule de dez para a eleição municipal, que deixou a prefeitura com bom nome e alguma popularidade, na esteira do oba-oba da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Mas, repita-se, não vivemos tempos normais. A eleição do ano passado demonstrou que tudo pode acontecer quando o eleitor, entediado, prefere o pior simplesmente por rejeitar aquilo que lhe parece velho. A tarefa de Paes passa agora por maquiar-se para aparecer novo e tentar vender Crivella como o velho da vez. Quem sabe funciona.

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