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24.03.20

O desafio do coronavírus e a capacidade de organização do Brasil

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

Todas as camadas e áreas do Brasil estarão sobre pressão. Os brasileiros terão sua capacidade de reação testada até o fim do recém nascido ciclo do coronavírus. A camisa de força do teto dos gastos, medida que nunca deveria ter existido, sucumbiu pela força dos acontecimentos. A natureza da contenção do vírus – de isolamento e interrupção das atividades sociais e seus desdobramentos econômicos -, impõe a garantia de renda mínima, agora de forma absoluta, a toda a população brasileira. Extrair os 40 milhões de brasileiros, que não precisam de qualquer auxílio por terem capacidade financeira de sobrevivência, do projeto de renda mínima pode implicar na demora de implementação, o que, na situação atual, prejudica a pronta disponibilização de recursos.

Melhor errar pelo excesso que ficar tentando bancar o burocrata competente. Sem sistemas de informação prontos e rodando, qualquer corte de precisão é puro chute. O caso da reforma da Previdência é prova cabal. Além de dois milhões de contribuintes na fila aguardando processo de “análise”, o sistema Meu INSS ainda não foi capaz, desde novembro de 2019, de colocar o simulador de cálculo de aposentadoria em funcionamento. Salvar empresas e pessoas é a missão do momento: custe o que custar. Como em todo estado de guerra, temos que deslocar capacidade ociosa industrial para produção imediata da munição e dos instrumentos necessários ao desafio.

Como um dos maiores países produtores de álcool não tem álcool gel à vontade? E máscaras cirúrgicas, forças-tarefas para desinfetar vias e transportes públicos, produção de ventiladores respiratórios e o que mais for necessário? Há um enorme esforço nacional em marcha, mas precisamos de operadores, de gente no poder que tenha a capacidade e competência de fazer as coisas básicas acontecerem. A bomba do grau de contaminação de brasileiros com coronavírus é flagrante. Como não temos kits de teste suficientes, foi criada uma “rotina” de só aplicar o teste em pacientes que atendam aos “sintomas” do coronavírus. Todos sabemos que o timing entre “sinais” de contaminação e um quadro de broncopneumonia é de dias, em alguns casos de horas.

Com 383.983 casos confirmados no mundo, produzindo 16.569 fatalidades e 105.229 curas, segundo o site Worldometer para o dia 23 de março de 2020, o modelo just in time chinês parece ser o mais bem-sucedido. Então, é o que temos que copiar e parar de tentar ser inventivo e esperto diante das restrições brasileiras. Na guerra, como sabem a meia dúzia de comandantes, agora executivos instalados no governo federal, o inimigo avança pelos flancos mais fracos. Alguns governos estaduais estão operando com rapidez e desenvoltura naquilo que lhes compete: evitar a mobilidade urbana, intermunicipal e interestadual, adaptar cobranças que lhes competem ao fluxo de caixa, ou a sua inexistência, da população. O resto da guerra, além do extraordinário combate da fileira do serviço de saúde, compete ao governo federal. Falem menos e tenham mais ação efetiva.

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