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21.02.20

O comércio exterior como motor do desenvolvimento

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

As reformas estruturais colocadas em marcha pelo governo Bolsonaro e pelo Congresso Nacional parecem, dentre outros objetivos, estarem sincronizadas com a aposta de fazer do Brasil o campeão mundial de crescimento para a próxima década. O fim do modelo, e suas políticas e instituições de apoio, do que se convencionou chamar de substituições de importação para a inserção do Brasil nas correntes de comércio mundial é a aposta da equipe econômica do governo, o que vem sendo promulgado mundo afora pelo secretário especial de Comércio Exterior Marcos Troyjo.

Segundo o competente e preparado secretário, o Brasil vai conseguir obter esse espetacular resultado ao aproveitar o crescimento de alguns países emergentes, notadamente a Índia, países asiáticos com crescimento incentivado pela China, Indonésia, dentre outros. A esperança é de que esse grupo de nações tenha importante crescimento em suas rendas per capita, demandando mais alimentos e infraestrutura, onde minério é uma das matérias-primas, cabendo ao Brasil atendê-las. A criação do Conselho de Estratégia Comercial em outubro do ano passado, pela Lei 10.044, composto pelos principais ministros da administração direta e presidido pelo próprio Presidente da República, parece ter criado o “status” de que, de fato, o atual governo vê o comércio internacional como um dos grandes motores de desenvolvimento.

Mas, como diz o ditado, e até mesmo usado por Troyjo, para barco sem rumo não existe bom vento, a discussão para definir “estratégias” no Brasil nesse campo ainda não começou. O agronegócio brasileiro, exportador, em grande medida de produtos in natura de baixo valor agregado, e o setor mineral na mesma ordem, mesmo em esforço combinado para atendimento de uma demanda expressiva vindo do exterior, não impactam a formação do PIB para dar ao Brasil o título mundial de campeão de crescimento até o fim da presente década. Ajudam, não há dúvidas, mas não resolvem.

Para a inserção brasileira na corrente mundial de comércio sair do presente nível de 20% do PIB para a ordem de 40%, a nossa “estratégia” precisa contar com muita tática, essas sempre empreendidas por instituições, como os modelos bem- sucedidos de outros países nos ensinam. A criação do Conselho de Comércio Exterior, lá no topo da superestrutura do organograma governamental, é bem-vinda, mas é pouco. A inserção do Brasil em cadeias complexas de suprimento, ainda que isso puxe nossas importações para novos patamares, é a única forma de esse desafio ter maior chance de sucesso.

Até agora não temos notícias de nenhum debate proativo convocando os diversos segmentos interessados no desenvolvimento de um projeto dessa magnitude. Ir ao exterior e fazer propaganda do projeto é ferramenta de marketing necessária, mas não suficiente. Esperar um boom de preços em efeito a uma nova onda por alimentos e minério parece “estratégia” já testada e cujos efeitos todos conhecemos.

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