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18.12.19

O Ano da Paralisia Estratégica

Observatório

Por Nelson During, editor do site Defesanet

O ano 2019 começou com a perspectiva de um protagonismo do Brasil, tanto no âmbito regional como no extrarregional, muito na esteira da aliança entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump. A promessa, no entanto, não se concretizou. A assertiva é comprovada em diversos fronts da geopolítica. O primeiro alvo de Bolsonaro, a Venezuela, provou-se um osso duro e caro de roer. Criada no início de 2018, a Operação Acolhida, baseada no recebimento e internalização de refugiados venezuelanos, mostrou ser um dreno de esforço e gastos na área de Defesa bancados quase na totalidade pelo Brasil.

Pior: ao medir a sua força e potencialidades, o governo brasileiro descobriu as suas fraquezas, com inúmeros programas paralisados desde 2015 (modernização dos caças F-5E/F e AMX A-1, o avião de Alerta Antecipado E-99), além de outras deficiências como escassez de mísseis e munições e também plataformas que deixaram à mostra a vulnerabilidade da área de Defesa, até mesmo no comparativo com uma nação em gravíssima situação econômica, como a Venezuela. O Palácio do Planalto e os Comandos Militares viram que a equação inverteu. Não estavam em posição de impor algo, mas em situação crítica de não conseguir nem garantir a integridade das fronteiras nacionais. Ressalte-se ainda que, ao longo do ano, Vladimir Putin mostrou firme apoio ao governo bolivariano de Nicolás Maduro, enquanto o governo Trump foi mudando o tom e praticamente descartando qualquer atividade que não fosse as restrições e embargos econômicos. Seguiram-se os eventos de queimadas nas Amazônia, quando, em uma ação de caráter inédito, o governo colocou mais de 50% do território nacional sob uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem, mais conhecida como GLO.

Ou seja, metade do país sob comando militar. Tudo agravado por um grande desgaste de imagem, diante da decisão equivocada de entrar em uma guerra informacional, com a estratégia de confronto tendo o destino certo da derrota. Das cinzas amazônicas às manchas litorâneas. A partir de setembro, o governo Bolsonaro teve de lidar com o aparecimento de óleo na costa dos estados do Nordeste. Uma primeira análise apontaria que o óleo tinha as mesmas características do petróleo extrapesado da Venezuela. Muito barulho por nada. No fim, o governo desprendeu energia em um novo esforço de deslocamento de meios e tropas em nova guerra informacional, confusa e no mínimo claudicante. Uma questão humanitária e duas ambientais drenaram recursos financeiros, humanos e materiais.

O risco de um cerco ideológico foi amenizado com a vitória do candidato de centro no Uruguai. Resta a indefinição quanto aos da Bolívia. Para o futuro, os olhos voltam-se para Buenos Aires com o estranho governo bicéfalo de Alberto-Cristina. A vice-presidente Cristina Kirchner reservou para sua área de influência o setor de Defesa e Segurança. Preocupada com a facilidade com que Evo Morales foi deposto do governo com o apoio dos militares e forças policiais, Cristina propõe um controle das Forças Armadas, ao contrário de seu marido, Néstor, que simplesmente buscava humilhar e desestruturar o estamento militar argentino.

Esta foi a principal razão que levou o Palácio do Planalto a despachar o vice-presidente Hamilton Mourão em uma missão de diplomacia-militar para assistir à passagem de governo de Macri para Alberto Fernández. Ou será para Cristina Kirchner? O pior cenário para o Planalto seria ter mais uma área de tensão, agora no Sul. Em 2020, o Planalto prevê retomar a iniciativa estratégica continental. A tentativa de manter o orçamento de Defesa imune aos cortes é um passo nesse sentido. O próximo ano será igualmente desafiador do ponto de vista geopolítico. Espera-se que com menos reveses.

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