fbpx
14.11.19

Na Argentina, a grama está mais verde que a dos vizinhos e Alberto Fernández é o jardineiro

Observatório

Por Aline Gatto Boueri, jornalista e correspondente em Buenos Aires desde 2009.

Enquanto a América do Sul pegava fogo em um fim de semana que parecia interminável, Alberto Fernández, presidente eleito em outubro de 2019 para comandar a Argentina pelos próximos quatro anos, discursava na abertura da segunda reunião do Grupo de Puebla, que aconteceu em Buenos Aires de 8 a 10 de novembro.

O ex-presidente do Brasil, Lula, havia deixado a carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, na sexta. No sábado, Evo Morales ainda lidava com a crise que as suspeitas de fraude nas eleições havia disparado. No domingo, o líder cocalero que governou a Bolívia por 13 anos renunciou ao seu mandato depois da “sugestão” de que o fizesse, enunciada pelo comandante das Forças Armadas do país.

A situação de Sebastián Piñera, no Chile, não parecia muito melhor. Protestos massivos em seu país estavam prestes a completar um mês sem sinal de arrefecer, enquanto se multiplicavam denúncias de violações a direitos humanos por parte das Forças Armadas e de segurança – entre elas, mutilações, estupros e torturas variadas. 

Alberto Fernández fez o discurso inaugural do encontro do Grupo de Puebla ao lado de Dilma Rousseff, Aloízio Mercadante, Ernesto Samper, ex-presidente da Colômbia, Marco Enríquez-Ominami, o fundador do Partido Progressista do Chile e anfitrião do encontro. Começou por expressar – mais uma vez – sua felicidade pela soltura de Lula.

“O continente não passa por seu melhor momento”, disse Fernández, que encarna um dos poucos motivos de otimismo para a centro esquerda progressista latino-americana no final de 2019. Em seu discurso, o líder argentino sublinhou a luta contra a desigualdade – palavra que virou palavrão entre mandatários de direita da política regional.

Fernández mencionou uma conversa com Emmanuel Macron, o presidente da França com quem Jair Bolsonaro se desentendeu durante a crise internacional que os incêndios na Amazônia legaram ao Brasil. Não mencionou, mas todos ali já sabiam, que Donald Trump o havia felicitado pela vitória, o que Bolsonaro não fez – e muito pelo contrário, disse que não o faria e seguiu proferindo impropérios sobre o que ele considera uma má eleição do povo argentino.

Em meio ao apoio a Lula e a Evo Morales, Fernández fez do Grupo de Puebla, apesar da negação oficial, uma alternativa novinha em folha ao desgastado Foro de São Paulo. 

Os representantes ali presentes não mudaram muito desde as duas primeiras décadas do século XXI. O que mudaram foram os tempos e seus antagonistas. Com o surgimento de uma extrema-direita de aparência pouco democrática, que defende a atuação de ditaduras regionais que suspenderam direitos, desapareceram e assassinaram pessoas, convém – ou é necessário, como afirmou Fernández – “estar ao lado daqueles que sofrem injustiças.”

O progressismo, que andava necessitado de líderes moderados com poder de fogo nas urnas, já tem seu representante regional. Alberto Fernández busca diferenciar-se de Bolsonaro sem adotar um discurso combativo e, com isso, firmar-se como uma referência democrata de valores de esquerda. 

Se conseguir garantir com isso a estabilidade política da segunda maior economia da América do Sul em um contexto de instabilidade quase generalizada na região – Peru, Equador e Paraguai também enfrentam suas próprias crises neste ano convulsionado -, o presidente eleito da Argentina tem tudo para se firmar como referência regional de solidez política e democrática em um país que anda surpreendentemente calmo, mesmo em meio a uma crise econômica feroz. A grama do nosso vizinho está, definitivamente, mais verde.

Alberto Fernández tem tudo para ser, ao mesmo tempo, fiador da centro-esquerda progressista e líder regional capaz de mediar conflitos. Ambas qualidades reposicionam a Argentina no mapa da liderança regional e fazem lembrar quando Néstor Kirchner foi central ao evitar uma guerra entre Colômbia e Venezuela durante seu mandato como secretário-geral da Unasul, em 2010.

A atuação de Fernández na negociação da rota do voo de Evo Morales rumo ao exílio foi uma primeira prova de fogo desse reposicionamento, e o argentino aprovou com louvor antes mesmo de assumir o comando da Argentina.

Evo Morales pousou no México, em segurança, três dias depois do discurso de Fernández no Grupo de Puebla. O Brasil teve um papel importante no episódio, ao permitir que o avião que levava o líder cocalero voasse na linha de fronteira. Mas passou batido, em meio à inépcia do governo brasileiro em aproveitar o momento histórico. Fernández não deixou passar a oportunidade.

 

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.