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21.11.19

M&A criminal

Observatório

Por Kelly Nascimento, jornalista.

 

Um dos poucos setores que fecharão 2019 em franco crescimento é o crime organizado.  Enquanto as polícias estaduais enxugam gelo e deixam um rastro de sangue em incursões nas favelas Brasil afora, a maior facção criminosa do país está em plena expansão. Enquanto escrevo este artigo, em alguma cela nos rincões do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC) batiza um novo afiliado. Assim, vai se preparando para assumir o posto de maior cartel de drogas da América.

Segundo o Ministério Público Federal, faltam apenas mecanismos mais requintados de lavagem de dinheiro para que o PCC passe de organização criminosa para o patamar de uma máfia. A missão explica, em parte, o esforço da facção paulista para promover “intercâmbio cultural” com grandes players globais do crime. Não se chega ao topo sem alianças estratégicas. Os “cabeças” da facção sabem bem disso. E se dedicaram, nos últimos anos, a costurar parcerias mundo afora.

A polícia de São Paulo já sabe que a facção nascida nos presídios paulistas vem estreitando laços com a turma do temido Joaquin “El Chapo” Guzmán, no México. As autoridades brasileiras têm informação detalhada sobre a conexão Sinaloa-São Paulo: os mexicanos fornecem cocaína já processada para os paulistas abastecerem o Brasil, países do Cone Sul, Europa e África.

A interação PCC-Sinaloa, per si, já vale como uma formação máster em “melhores práticas da criminalidade internacional”. A turma de El Chapo opera em mais de 50 países e é apontada por órgãos de investigação internacionais como a maior organização criminosa das Américas e a quinta associação mais perigosa do mundo. Tanta expertise movimenta cifras bem superiores às conseguidas por outro ícone global da criminalidade: o colombiano Pablo Escobar. Autoridades mexicanas estimam que o Cartel de Sinaloa lucre R$ 3 bilhões por ano com a exportação de cocaína. Outra importante ligação transnacional do grupo paulista está cravada na Itália: os mafiosos da ‘Ndrangheta.

 À luz desses fatos, o recente anúncio, por parte do ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro, de um acordo que permite que a polícia brasileira atravesse fronteiras de países do Mercosul (Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) em perseguições a criminosos parece tão eficaz quanto tentar conter uma tsunami construindo um puxadinho.

Talvez a expansão internacional do PCC nem seja o principal problema com que Moro tenha de lidar. As forças de segurança sabem que a prioridade das lideranças é colocar em prática um ousado plano de fuga para libertar o comandante em chefe da facção: Marco Willians Herbas Camacho, vulgo Marcola. O líder está, desde fevereiro deste ano, sob custódia em um presídio federal em Brasília. Seu maior objetivo é recuperar a liberdade perdida. O salve geral já circulou.

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