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31.03.20

Do infantilismo neoliberal para bravatas de guerra sem munição

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

A economia brasileira e a mundial, cada país com suas particulares, vai girar sobre os setores onde a disfunção do combate ao coronavírus impacta em escalas não paralisantes e sobre a demanda gerada pela transferência financeira do Estado aos entes que formam o sistema econômico. Não há milagre ou mágica. É isso e isso. O resto são narrativas infantis e sofismas de toda ordem. Para fazer frente ao combate “da primeira onda” do novo coronavírus, utilizando o conceito usado pelo atual ministro da economia, Paulo Guedes, na sua aparição digital no sábado 28/03, em iniciativa da XP – o Brasil já tem uma cartilha de ações e programas que ainda dependem de implementação até que o dinheiro chegue ao bolso de cada um.

A fila é grande e os sistemas, fracos ou inexistentes. Com dois milhões de pedidos de aposentadoria na fila da Previdência, o sistema não avança; nem o simulador do meu.inss.gov, descontinuado em novembro do ano passado, está funcionando. O ministro nos informa que estamos furando a primeira onda. Como bom carioca, usa uma figuração apropriada, mas não nos informa o tamanho da dita cuja; o que, para um bom surfista, significa indicar qual será a profundidade necessária do mergulho para fugir do furor da pressão de uma massa d’água quebrando sobre a cabeça. Tudo bem, talvez o ministro seja daqueles que apreciam a onda da janela ou
do conforto da areia, mas na correnteza do coronavírus todos estamos na “aventura”.

Dito isso, poderíamos estar com uma base estatística bem mais efetiva, se os kits de teste, tão falados em prosa e verso, estivessem disponíveis. Uma ferramenta dessa importância, já com mais de três semanas de epidemia em evolução, certamente os aviões cargueiros da Aeronáutica já teriam ido e retornado da China com alguma munição. Enquanto o ministro gasta o seu tempo, e o nosso, desenvolvendo “expectativas positivas”, cujo poder de disseminação fica mais para o público ideológico do que para os combatentes da primeira ordem: o sistema de saúde. Enquanto Guedes fala, o vice-presidente da República e o atual presidente da Câmara dos Deputados estão dando um show de competência, serenidade e foco! Só que ambos não têm o que o Brasil mais precisa no momento: capacidade operacional!

Falar é fácil, mas, pelo volume de declarações de altos membros do governo e do seu entorno, o dia a dia da alta cúpula do governo federal deve estar girando com dois entraves vindos daqueles que acham que “expectativa positiva” funciona no atual cenário dos motores econômicos ainda em funcionamento. Claro que na esfera psicológica tem ainda alguma força geradora de esperança, e vindo do mandatário que ainda fala e age como se a onda em formação não fosse crescer e tudo não passa de propaganda enganosa. A saída dessa guerra gera ainda mais preocupação. Na aparição digital do ministro Paulo Guedes o tema foi tratado. Assim que isso passar voltaremos aos programas estruturantes e os investimentos virão, disse ele. Com todo o respeito, o desafio de colocar o sistema econômico em marcha, pela combinação de investimentos do setor privado do público minha esperança recai sobre o bom senso do Congresso Nacional e o consumo das famílias, não será tarefa trivial. E nem o infantilismo liberal da mão invisível preenchendo todas as oportunidades com investimentos de magnitude, ocorrerá dessa forma. Mesmo porque já não vinha ocorrendo, a despeito do ministro, em sua apresentação digital, ter gasto um bom tempo falando da sua versão sobre a espetacular retomada em curso no cenário anterior à pandemia.

É urgente a criação e nomeação no âmbito do governo federal de uma assessoria especial para operacionalizar cada medida, cada demanda, cada necessidade imposta pelo momento. Chegou a hora da saída dos arquitetos e a entrada dos engenheiros. Por outro lado, assim como foi criado o Conselho Fiscal da República, o desafio econômico e social à frente do Brasil em 2021 e 2022, no mínimo, demanda a imediata criação do “Conselho de Recuperação Econômica da República”.

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