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09.03.20

Coronavírus infecta mercado global de petróleo

Observatório

Por Leda Stein, economista e trader de petróleo, combustíveis e derivados.

Na sexta-feira antes do Carnaval, 21/02, os brasileiros conviviam com o Índice Bovespa acima de 113 mil pontos. Às vésperas da maior festa pagã, investidores assistiram a uma modesta queda de 0,79%. Nada ameaçador para a bolsa que vivia uma ascensão histórica e semanas antes testava a resistência dos 120 mil pontos.

Na mesma sexta-feira, um paulistano que viajava à lazer com a família retornava da Itália, o país europeu com o maior número de infectados pelo Coronavírus. Com sintomas gripais, o homem foi internado no Hospital Albert Einstein para ser examinado.

Enquanto o Brasil estava em festa, os mercados globais viviam tensão com o avanço do covid-19 para além da China. E o paulistano aguardava o resultado do exame e do teste contra-prova, que sairia na manhã da quarta-feira de cinzas. A confirmação do primeiro caso brasileiro foi apenas o jiló do bolo, pois as bolsas internacionais já amargavam quedas expressivas durante o feriado carnavalesco. O Ibov recuou 7,0% na quarta e de lá pra cá acumula queda de 13,8% em 8 dias de pregão, fechando abaixo dos 98 mil pontos na última sexta-feira.

É extremamente preocupante o desaquecimento da economia mundial em função da epidemia de Coronavírus. Dados internos da China mostram polos industriais com menos de 50% da produção em operação. Diversas cidades da província de Hubei ficaram isoladas, estimando-se que mais de 50 milhões de chineses estão em quarentena. Agora, os países europeus mais impactados estão seguindo o protocolo do isolamento. Na Itália – o país ocidental com maior número de infectados -, jogos de futebol foram cancelados, pontos turísticos estão fechados e diversas empresas passaram a adotar trabalho remoto. As ruas ficaram vazias, assim como as prateleiras dos supermercados.

Em meio a esse cenário de catástrofe cinematográfica, todas as projeções de crescimento econômico estão sendo revisadas. A OCDE calcula uma redução de 0,5 p.p. do PIB global em 2020, com impactos visíveis já no 1º trimestre. Para o PIB chinês, estima-se uma redução de 0,8 p.p. em 2020. E os cálculos ainda estão sendo atualizados…

Na quinta-feira passada, os países da OPEP reuniram-se para discutir os impactos do Coronavírus na demanda de petróleo. Antes de iniciar a reunião, a projeção de crescimento da demanda anual de petróleo era 1,1 MM bpd e, ao término do encontro, havia sido revisada para 480 MM bpd. Além disso, para tentar segurar os preços do petróleo, os países membros anunciaram redução de 1 MM bpd na produção do 1º semestre e recomendaram que os países parceiros no acordo OPEP+ reduzissem 0,5 MM bpd, sugerindo um corte adicional de 1,5 MM bpd aos 2,1 MM bpd já praticados atualmente.

No dia seguinte, os membros parceiros do OPEP+, liderados pela Rússia, rejeitaram a recomendação de corte adicional na produção de petróleo em uma reunião pouco amistosa, com direito a cancelamento da coletiva de imprensa. Com isso, na ausência de comunicação formal da OPEP, o Ministro de Energia russo declarou que nenhum país OPEP+ será obrigado a cortar produção já a partir de abril, insinuando que não irão mais manter nem o corte atual de 2,1 MM bpd. O impasse pressionou negativamente o preço do Brent, que fechou a US$ 45,50/bbl com expressiva queda de 8,9%.

No mercado brasileiro, a ausência de acordo entre os membros da OPEP e OPEP+ fez o Ibovespa cair mais 4,14%, puxado fortemente pelo volume de vendas das ações da Petrobras, que recuou 10,26% nas ordinárias (ON) e 9,73% nas preferenciais (PN).

Durante o final de semana os mercados Asiáticos derreteram mais. Há receio quanto o avanço do Coronavírus, mas o sabor mais amargo veio da decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção de petróleo. Em retaliação à malcriação russa, os árabes estão promovendo o maior desconto no preço do barril desde a Guerra do Golfo. Analistas e traders estimam que o Brent chegará à 30 US$/bbl essa semana.

Por aqui ninguém se lembra mais do Carnaval, mas estão todos com saudades daquela sexta-feira, 21/02, antes do covid-19 invadir a nossa festa.

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