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29.01.20

Bertrand Russel, Paulo Guedes e o dilema moral

Observatório

Coriolano Gatto, jornalista.

Ao completar 80 anos, o filósofo liberal Bertrand Russel foi perguntado por um ingênuo repórter sobre o que ele achava da data. Russell, um homem sarcástico, respondeu sem pestanejar: “Diante da alternativa, eu acho ótimo”. Ele morreria somente 17 anos depois, aos 97, em 1970. Era um ferrenho defensor das liberdades individuais tal como o economista Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Prêmio Nobel em 1976, o guru da Universidade de Chicago. O ministro Paulo Guedes jamais esquecerá o dia em que desafiou o velho mestre para um debate, em 1976. Nem o contínuo do templo do liberalismo levou-o a sério. Muito menos a secretária do grande mestre, perplexa com a ousadia do jovem de um país distante e de uma língua estranha. A ousadia do estudante é uma marca registrada do economista, que está longe de ter uma equipe com o intelecto do time da PUC-Rio e da USP no governo FHC.

Guedes sempre foi um franco atirador e se orgulha da origem humilde. Ele acha graça do comentário maldoso de César Maia, à época em que ambos se opuseram ao famigerado Plano Cruzado (1986, Governo governo Sarney) por motivações políticas diferentes. “O Paulo é um monetarista de babar na gravata”. Nesta época, a Hermès era a preferida dos jovens banqueiros. Custava 100 dólares. Este Esse mesmo economista, que trinta anos depois decretaria a “uberização” da política, em uma conversa informal no aeroporto de Congonhas, (SP), embarcaria na campanha de Jair Bolsonaro, após um namoro com a candidatura frustrada de Luciano Huck, em 2017, defendida pelo ex- presidente Fernando Henrique.

Pergunte a Paulo Guedes o modelo de político que ele abraçaria sem pestanejar por um segundo, tal como Bertrand Russell diante do início da fatalidade biológica: Margaret Thatcher (1925-2013), a dama de ferro da Inglaterra, e Felipe González (1944-), um social democrata que assume a bandeira liberal na Espanha nos anos 1980/1990. Como o ministro Sérgio Moro, Guedes suporta as idiossincrasias do Capitão por um projeto maior. Como Russell, ele sabe que a alternativa é a desorganização da economia e, com ela, a volta de um projeto de esquerda (PT, PSOL). Ele manterá todas as suas incongruências acadêmicas (“às favas com os escrúpulos”, como diria o coronel Jarbas Passarinho, por ocasião do AI-5, em 1968) com vistas a seguir um projeto falsamente liberal. Com a liberação de FGTS, o aumento do salário mínimo e sem algazarra tributária.

Guedes se mantém no cargo menos por uma convicção ideológica, e sim pelo pragmatismo, perpetrado por alguns personagens de Liev Tolstói, no romance psicológico seminal “Anna Kariênina”. Aproxima-se de vários deles, mas o Paulo Guedes, que já teve pretensões acadêmicas, gostaria de ser identificado com o protagonista Liévin, um homem obsessivo que busca a verdade e no fim chega à desoladora conclusão de nada haver solucionado, como aponta a brilhante tradução de Rubens Figueiredo, na edição COSACNAIFYCosac Naify. Guedes enfrenta o mesmo dilema: entre agradar o populismo de direita de Bolsonaro, rasgando os corolários do liberalismo, que sempre lhe foi caro. Ser um neokeynesiano, para evitar o voo da galinha da economia, soa como um pecado imperdoável como a heroína de Tolstói, Anna.

Guedes vive o dilema de Liévin. Ex-banker, Guedes age como uma versão moderna do bucanneiro: sabe a hora certa do ataque e o momento correto do recuo. Joga pôquer no melhor estilo do stick. O Guedes lembra os velhos tempos de trader, em que acertou apostas contra o Cruzado e outrosplanos heterodoxos e errou no Lula 1, em 2003, como relatou um amigo de Chicago. Agora, ele quer jogar no lixo as velhas convicções do Chicago boy. Hoje tem 70 anos e jamais repetiria a cena em que ousou enfrentar Milton Friedman. E trocou Huck por Bolsonaro. Publicado originalmente no Observatório RR, que reúne notas técnicas sobre temas variados.

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