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10.01.20

A lógica do investimento

Observatório

Por Isaak Kaleh, economista.

É difícil pensar como na prática o antikeynesianismo do ministro da Economia, Paulo Guedes, vai transformar o país em um canteiro de obras na área da infraestrutura. Guedes acha que a mudança no ambiente de negócios, a arrumação das contas públicas – com uma vassourada também na estrutura do Estado – e a mudança da percepção de virtual insolvência do país, são suficientes para atrair o capital estrangeiro. O dinheiro de fora, e somente ele, seria o originador dos investimentos nos setores de logística, energia elétrica, saneamento, entre outros fundamentais, no qual o Brasil se encontra patinando na agenda de desenvolvimento do século XX. Em tese, há recursos de sobra no mundo em busca de aterrisagem. A rentabilidade dos ativos financeiros internacionais encontra-se no seu nível mais baixo.

O Brasil, portanto, proporcionaria possibilidade de retorno de longo prazo para os trilhões de dólares que passeiam pelas nebulosas de moeda escritural. Faz sentido, hipoteticamente. Mas não há qualquer evidência, sem o apoio de verbas do Estado, que esses investidores aportarão por essas praias em empreendimentos greenfield sem uma perspectiva de crescimento da economia bem maior do que os 2% a 3% que são a projeção realista para o futuro quinquênio – isso sem crises da economia internacional e outras acidentalidades de percurso. A lógica do investimento é contrária à do Sr. ministro.

Primeiro é preciso fazer o PIB andar. Depois convidar os parceiros para dançarem a valsa da infraestrutura. As  obras não prescindem do dinheiro estatal, pelo contrário. Já diziam cepalinos de boa cepa que em países periféricos é preciso injetar sangue no setor de construção pesada, equilibrando a dosagem entre parceiros nacionais, públicos e privados, devido à característica non tradable dos projetos. Há 3.000 municípios para fazer o saneamento. Parece irreal cogitar que essa missão seja cumprida pelo capital estrangeiro. Sem o Estado aportar recursos parece, no mínimo, improvável fazer o pas de deux que Paulo Guedes preconiza com convicção.

Ah, mas o déficit público. Essa foi a discussão que deu a tônica do século passado na economia. E parece que vai continuar dando nestes 100 anos seguintes. Dê-se como dado definitivo que desordens fiscal e monetária não combinam com crescimento. Chega a ser um truísmo. Mas entre o juízo na política econômica e a  inanição quase absoluta no investimento público vai uma distância maior do que entre a Chicago University e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Existem recursos extraorçamentários que podem ser dirigidos para as obras em infraestrutura. Esse é um dos insumos do crescimento. E se não crescer primeiro, não adianta chamar que ninguém vem.

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