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06.02.20

A Fiesp e o rio do bom e do mau lobby

Observatório

Daniel Valente, economista e estudioso das políticas corporativas e de entidades patronais.

Uma boa questão foi levantada por três pesos pesados da indústria. As entidades de classe devem ser utilizadas para fins políticos? A entidade em questão é a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Os potentados empresariais são o ex-presidente da instituição, Horácio Lafer Piva, o empresário Pedro Passos (Natura) e o executivo Pedro Wongtschowski. Os dois últimos são considerados pensadores maiores da indústria nacional, juntamente com Paulo Cunha, que, assim como Wongtschowski, está ligado ao Grupo Ultra. Os três publicaram artigo na imprensa afirmando que a “Fiesp está em acelerado processo de destruição (… ) agora centrado na sua insignificância, num processo de autoengano que se repete ano após ano”.

Não é preciso ser bom entendedor para saber que o texto era uma condenação ao presidente da Fiesp, Paulo Skaf. Em uma primeira análise, fazer política é função, sim, da entidade empresarial. Política no sentido de lobby, influência junto às autoridades governamentais, representação do setor no relacionamento  com os principais estamentos da República. Em bons tempos foi o que fez a Fiesp, assim como suas congêneres dos grandes estados e, em uma instância congregacional, a Confederação Nacional da Indústria. Na última segunda- feira (dia 3), Paulo Skaf promoveu um evento para selar o apoio do empresariado ao presidente Jair Bolsonaro. Colocou 300 dirigentes do setor privado no auditório, para um discurso  do capitão Jair, seguido de almoço. Até aí, é merecedor de todas as loas.

O que faz com que a iniciativa cruze o rio da boa e má política é o fato de que durante o encontro, no qual pouco se disse sobre a indústria, quem auferiu os dividendos todos foi Paulo Skaf, nomeado pelo presidente seu porta-voz junto ao empresariado. Convidar autoridades para regabofes não tem nada de original. No Rio de Janeiro, durante décadas o presidente da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), Teophilo Azeredo dos Santos, se notabilizou por realizar bimestre sim, outro também, um almoço de celebração dos manda- chuvas. Não consta que Teophilo, chamado por todos pelo primeiro nome, usasse os eventos para levantar recursos em causa própria para campanhas eleitorais ou afins.

O presidente da Fiesp já se candidatou ao governo de São Paulo três vezes. Em todas elas foi acusado de se beneficiar do cargo, sendo inclusive processado em uma das circunstâncias. Na última campanha, em 2018, chegou ao despropósito de criar uma vaquinha virtual para levantar recursos junto a funcionários do Sesi e Senai, do Sistema S,  do qual foi dirigente. Mesmo licenciado do cargo, Skaf passou o pires. O resultado foi a contribuição de 1.300 pessoas, sendo 54% funcionários do Sistema S. Tudo dentro da lei, que regulamenta o financiamento coletivo. Ora, fazer política empresarial dessa forma é romper com todos os princípios da boa norma. A Fiesp é cada vez mais uma instituição saudosa da entidade que já foi um dia. Mas Paulo Skaf ainda pode ter muitos anos à frente do seu mandato. Se depender da arraia-miúda que se acotovelou para festejar Bolsonaro, ele pode desde já fazer do cargo um posto vitalício.

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