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18.11.19

A esquerda em foco ou uma oposição (re)nasce com a liberdade de Lula

Observatório

Por Rodrigo de Almeida, jornalista e cientista político, ex-secretário de Imprensa de Dilma Rousseff (2015-2016).

A pregação mais óbvia para um analista que discute o futuro da esquerda é concluir: a liberdade recém-conquistada do ex-presidente Lula reembaralha um jogo que parecia fadado ao fracasso e reacende um pavio poderoso, sobretudo na parcela da esquerda que deposita suas fichas no seu mais importante líder. Se a esquerda lulo-petista estava atônita, perdida e sem qualquer agenda relevante que fosse além do #LulaLivre, a soltura muda o cenário político. Mas, se ao mesmo tempo a liberdade recoloca o ex-presidente no jogo e o devolve à condição de líder inconteste da esquerda, também exigirá dele um esforço maior do que a tentativa de seus advogados de anularem os processos em curso e tirá-lo da condição de Ficha Suja – algo fundamental para Lula ser candidato em 2022.

Se é indevido confundir esquerda com o PT, é mais indevido ainda separar esquerda do seu principal líder. Por essa razão, destaco duas pedreiras que o ex-presidente e a esquerda terão pela frente: a política e as ideias. No plano político, há uma longa estrada que Lula precisará percorrer para ir além dos fanáticos que o cercam e dos partidos de linha auxiliar de praxe, o PSOL e o PCdoB. As feridas abertas entre o PT e Ciro Gomes (e o PDT), a razoável distância programática com a Rede e a incerteza sobre os caminhos a serem seguidos pelo PSB sugerem cautela entre os lulistas mais empedernidos. A liberdade de Lula exigirá do PT sair de sua pauta meramente defensiva e passar a se colocar de fato como um partido de oposição, que precisa mostrar alternativas ao governo Bolsonaro – algo que não fez até aqui.

O problema político não é apenas partidário e envolve a sociedade. Será preciso romper com a cegueira da direção petista, que desde o impeachment de Dilma Rousseff vem ignorando o sentimento antipetista que se espalha por uma parcela considerável dos eleitores. Essa frente, se insatisfeita com Bolsonaro, tende hoje a migrar para um candidato de centro, não para um candidato petista. O plano das ideias é ainda mais complexo. Verdade que, como notaram todos os analistas após o discurso em São Bernardo, Lula buscou e buscará dar foco à crítica severa à agenda econômica de Bolsonaro e Paulo Guedes.

O ex presidente não apenas sabe o quanto a gestão do ministro da Economia é o pilar da estabilidade da gestão bolsonarista, ele a reconhece também como a esperança e o calo simultâneos do atual governo. Se quiser aglutinar a esquerda e convencer a população de sua liderança renascida, Lula precisará ouvir menos os fanáticos, os vassalos e os subservientes em geral, e muito mais os formuladores de (boas) ideias. O renascimento vai bem além do simbolismo da liberdade. Até aqui o programa do PT é caduco. Essa é uma das razões para que sua oposição a Bolsonaro se mostre tão apagada e ineficaz.

Indispensável lembrar uma das principais críticas feitas pelo cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, antes de morrer: o programa petista (e, portanto, lulista) carece de adequação aos desafios brasileiros do século XXI. Incapazes de completarem a revolução industrial e sem se fundamentarem numa infraestrutura efetivamente moderna, os governos petistas produziram grandes avanços de renda e também no plano dos direitos, mas não prepararam o país para enfrentar as nações produtoras de tecnologia pós-revolução digital. Em 2018, Lula e PT projetaram um governo olhando para o passado. Este é o momento de um discurso que projete o futuro. Até porque eventuais injustiças, mesmo as mais relevantes, não dão, por si, salvo-conduto para abrir passagem a uma esquerda que, pelo menos por ora, ainda tem pouco a dizer, senão sobre a liberdade de Lula.

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