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28.01.20

A depreciação como motor da economia brasileira?

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

Evidentemente que os ativos e a riqueza de qualquer país, medidos em dólar, sofrem depreciação na razão direta da perda de valor da sua moeda. Até aí, do conjunto dos efeitos, um seria salutar: os produtos produzidos ficam mais competitivos e nova escala poderia ser alcançada, gerando maior faturamento e geração de caixa para as empresas em suas vendas aos mercados interno e externo, com a ressalva de que isso é absolutamente verdadeiro para os segmentos que não usam insumos importados, majorados pela desvalorização da respectiva moeda nacional. Vamos ao Brasil. Com a demanda interna debilitada pelo alto desemprego, alto endividamento das famílias e milhares sem acesso ao crédito por estarem bloqueados, o setor externo seria o segmento de resposta mais rápida e de escala ilimitada, teoricamente. Analisando as exportações brasileiras por segmento nos os últimos 12 anos, salta aos olhos que o crescimento de 13% da receita com vendas externas, assim como a participação setorial, nos indica que não teremos um impulso de vendas externas pelo motor da depreciação cambial.

Cerca de 49% das exportações brasileiras são de produtos de baixo valor agregado, e mesmo em alguns setores, como a soja, por exemplo, o país vem exportando maior valor de produto in natura que os processados, seja farelo ou óleo. O efeito da depreciação cambial sobre reorganização de setores industriais sem expressiva e tradicional participação em mercados internacionais é possível, mas demandam ciclo de investimento e outras condicionantes de prazos longos, acima de três anos. Pelo lado das commodities, o incentivo da depreciação cambial é imediato, isso quando não promove pressão baixista sobre as cotações internacionais, como foi o caso do café, que responde por 2,3% do valor global das vendas externas brasileiras.

Nos setores de maior valor agregado e com matriz insumo-produto mais sofisticada, a participação do Brasil deixa a desejar, e além desses setores revelarem perda de vitalidade no período de 12 anos considerado acima. Metalúrgico, indústria química, máquinas e instrumentos mecânicos, material eletrônico e material de transporte e componentes não vêm apresentando trajetória dinâmica no mercado externo, e o efeito cambial será incentivo de curso longo. Caso a opção de política pública seja, ao que parece deixar os fatores de produção e a suposta competitividade brasileira ser a matriz espontânea da expansão das nossas exportações, brasileiras teremos anos à frente de mais do mesmo: o setor externo não será nos próximos anos um polo importante no crescimento econômico do Brasil.

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