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06.01.20

2020 preservará as sombras de 2019

Observatório

Por Rodrigo de Almeida, jornalista e cientista político

O choro pode durar uma noite inteira, mas a alegria vem pela manhã – assim sugere uma conhecida lição vinda das Escrituras. No amanhecer de 2020, a questão a saber é quanto tempo durará a noite (e o choro), e quando chegará a manhã (e a alegria). Qualquer prognóstico de tempo será impreciso, mas é fato: a noite será longa. A questão acima está posta, claro, do ponto de vista de um democrata. Ou das forças democráticas, sejam quais forem – à direita, ao centro e à esquerda. Porque, sob qualquer lógica democrata hoje no Brasil, 2020 será isto: um ano de continuidade à trágica corrosão da democracia iniciada em 2019. Portanto, um ano ruinoso. A preservação daquilo que há de pior seguirá seu curso. O presidente Jair Bolsonaro dará continuidade ao seu grande projeto de destruir a democracia, corroer a ordem institucional por dentro e manter as instituições democráticas no mesmo estado de colapso em que já se encontravam desde as manifestações de junho de 2013.

O projeto autoritário bolsonarista também seguirá atuando com seu braço liberal, sob a mão pesada do ministro Paulo Guedes. Este é tão ou mais radical quanto o chefe, e não à toa propõe tantas e tão simultâneas mudanças radicais que torna impossível a tarefa de debatê-las. É o sonho de todo governo autoritário. Pois o liberalismo autoritário de Bolsonaro seguirá requerendo a eficaz união de discursos demonstrada em 2019: o nacionalista, o religioso e o tecnocrata. Juntos, vão continuar avançando sobre os direitos tão lentamente conquistados pela sociedade e pelos Três Poderes nos últimos 30 anos.

Bolsonaro é e continuará sendo a voz arrivista de um deles. Guedes é e continuará sendo a voz autocrata de outro. A terceira ponta é e continuará sendo complementar, com jeito de risível por fora, mas profunda por dentro, uma facada certeira nos campos das relações internacionais, da educação, da cultura, do meio ambiente e dos direitos humanos. Também não mudará para 2020 a bem-vinda resistência institucional do Congresso Nacional, que moderou, pelo menos em 2019, os ataques de Bolsonaro aos muros de contenção do autoritarismo. Entre tantas continuidades, a aposta de novidade é complexa: a possibilidade de revisão de uma direita liberalconvertida em centro-social.

Se de fato ocorrer, será essa conversão o primeiro movimento visível da união dos campos democráticos contra o principal inimigo em comum: Jair Bolsonaro e seu liberalismo autoritário. Essa união não é, nem poderia ser, eleitoral. Essas forças, lideradas por Lula, Luciano Huck/João Doria e, por fora, Ciro Gomes, se manterão como adversárias até segunda ordem – ou segundo turno da campanha de 2022. Não se trata, portanto, de uma inviável união programática, mas da identificação (e ação) de um adversário comum. Para que isso de fato ocorra, serão imprescindíveis algumas mudanças de mentalidade. Primeiro: que a centro-direita liberal pare de reclamar da “polarização” entre lulistas e bolsonaristas. Caberá a este centro encontrar um discurso digno de ser ouvido, especialmente por uma extensa faixa do eleitorado que não deseja nem Bolsonaro nem Lula.

Segundo: que todas as forças democráticas – e nelas se inclui uma massa cada vez mais extensa de forças sociais e cívicas – parem de agir como se estivéssemos diante de um governo normal. Essa “normalização” leva um descolamento nítido entre a constatação de que a democracia está em risco e a falta de urgência na ação para combater tal ameaça. Difícil? Sem dúvida. Porém, mais difícil ainda será enfrentar a longa noite promovida por um presidente subestimado, mas exemplarmente eficaz até aqui. Sem reação competente, Bolsonaro aprofundará sua prescrição antissistema, segundo a qual a saída autoritária é não só a melhor, mas a única possível. É por isso que 2020 exigirá muito mais do que orações ou meros gritos indignados.

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