Atenção!

As postagens abaixo são de datas passadas.

Para ter acesso ao nosso conteúdo exclusivo, assine o RR.

Planos

Observatório RR

Análises técnicas e independentes produzidas por especialistas em diferentes campos de atuação. Observatório RR traz uma visão única, inovadora e independente sobre temas que pulsam nos cenários nacional e mundial.

08.11.19

O Campeonato Brasileiro de Óleo e Gás

Observatório

Por Fabricio Dantas, sócio de Óleo e Gás e Infraestrutura de Vinhas e Redenschi Advogados.

O programa de desinvestimento da Petrobras é visto como a solução imediata para os estados e os municípios produtores. A conjuntura tributária e regulatória, entretanto, importa em alguns desafios para os eventuais interessados. Em primeiro lugar, a privatização de ativos antes monopolizados pela estatal, sobretudo as refinarias e a área de transportes de gás, teve seu plano adiado, por conta da falta de segurança e entendimento entre os estados, acerca da incidência do ICMS sobre o transporte. A imunidade interestadual do gás advindo do petróleo (GLP) versus a mesma molécula advinda do gás natural também suscitou dúvidas entre os estados produtores e os estados receptadores. Além disto, indefinições de conceitos, como pontos de recebimento e de entrega do gás natural, fizeram com que os Estados inaugurassem um grande contencioso fiscal contra a Petrobras que não interessa a futuros investidores.

A primeira questão foi solucionada através de um acordo entre os estados produtores e receptadores que atribui um percentual de origem de 40% ao gás não imune e de 60% de origem do gás imune. A mesma solução consensual, através de protocolos técnico no âmbito do CONFAZ – o Conselho que reúne os secretários estaduais de Fazenda, denominado ajuste SINIEF -, também foi adotada para a segunda questão. Atrasou, no entanto, em um mês o lançamento do plano de privatização da Petrobras, por falta de entendimentos sobre débitos inscritos em dívida ativa. Superado aparentemente esse problema, outro grande a ser enfrentado é a fixação das tarifas. Se antes o monopólio estatal não demandava regras claras e objetivas, a desestatização obrigará à ANP a realizar uma revisão sobre os critérios de formação do preço máximo, a fim de aumentar a transparência regulatória e, por via de consequência, o interesse do investidor privado.

A fixação de tarifas do transporte via oleoduto, submetido à livre concorrência, deverá adotar uma fórmula que, ao mesmo tempo remunere o investidor, e que possibilite a redução do preço da commodity, por ser um vetor importante da política energética do Governo Federal. A falta de regras tributárias e regulatórias claras poderá impactar na participação do setor privado no programa de desinvestimento. Situação interessante, aliás, ocorreu recentemente com a privatização da Liquigás. Às vésperas do leilão, o Diretor-Geral da agência divulgou que pensava em novas regras para o setor de GLP. Sob ameaça de o leilão ser deserto, teve de voltar atrás. Como no jogo, os investimentos privados exigem regras claras, transparentes e prévias. E mais: exige-se que não se mudem as regras com a bola rolando no campo.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

07.11.19

Descascando a jaboticaba da sociedade anônima do futebol (clube- empresa)

Observatório

Por Marcos André Vinhas Catão, Professor do Master de Direito Desportivo da Universide Complutense de Madri.

Existem atualmente no Congresso cinco projetos de lei que tratam da criação da sociedade anônima do futebol. Apesar da necessidade de uma lei a respeito, todas elas padecem do mesmo problema: a previsão de criação de um tipo de sociedade anônima específica para a chamada indústria do futebol. Tal modelo de S/A do futebol foi um rotundo fracasso nos países em que se adotou tal fórmula. Na Espanha (“Sociedad Anónima Deportiva – SAD”) três dos quatro maiores clubes (Real, Barcelona e Athletic de Bilbao) recusaram-se a transformar em “SAD”, e, curiosamente, faturam mais que todos as demais “SAD-clubes” da Espanha juntos (muitas delas hoje falidas). Isso não significa que o Brasil deva abandonar uma legislação sobre a criação do clube-empresa.

Mas antes é preciso estabelecer um regime de transição sobre questões não societárias, tais como regime fiscal/trabalhista e, principalmente, quanto à forma de endividamento e capitalização/funding, para futuros clube-empresas. Explica-se. Clubes de futebol – mesmo os maiores times europeus – estão longe se serem grandes empresas. Assim, não faz sentido ter um tipo societário complexo que requer  faturamento de uma Amazon e o compliance de um Google para entidades que faturam, no máximo, milhões de euros.

Também é paradoxal criar um modelo societário refinado, quando se esquece de algo básico: quem vai querer efetivamente comprar ações/cotas do clube-empresa. Investidor nenhum põe dinheiro em empresa sem rating e valuation bem feito. Não é necessário ir muito longe. A realidade atual das finanças dos clubes brasileiros é a de endividamento e de antecipação de receitas/securitização com taxas aviltantes, dado o altíssimo grau de risco dessas entidades. Mesmo os grandes clube-empresas europeus que abriram capital praticamente não tem free-float e, em sua maioria, são controlados por um ou alguns bilionários.

Veja o exemplo da Juventus, que está em fase de uma ampliação de capital que será possivelmente toda subscrita pela família Agnelli. Dessa forma, no Brasil será preciso criar uma alternativa à capitalização, que deve passar pela criação de um mercado alternativo do futebol, sem necessidade de estabelecimento de sofisticações como classes de ações ou mínimo/máximo de controle. As ações poderiam ser ofertadas aos próprios torcedores com custos de emissão e registro reduzidos, dentro de um mercado de bolsa alternativo, a exemplo do que existe hoje em todo o mundo. Essa perspectiva permitiria criar uma base de capitalização imediata na entrada e mais estável no tempo, uma vez que torcedores são menos exigentes do que o capital institucional, o qual reclama liquidez. Em síntese, o projeto de lei do clube-empresa deve vir o quanto antes. Mas deve ser simples, eficiente e adaptado à nossa realidade. Jaboticabas não dão certo, sobretudo quando são importadas.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

06.11.19

A rede do futuro

Observatório

Por Marcos Facó, professor e Diretor de Comunicação e Marketing da FGV.

O Linkedin possui características especiais, que nenhuma outra rede social engloba. Talvez por isso, tenha sido liberada a passar os muros digitais da China. Dita uma rede profissional, iniciou sua presença em 2003 com o objetivo de ligar profissionais e empresas, onde o ativo principal eram as vagas ofertadas, criando um ciclo virtuoso de oferta e demanda.

Pelo posicionamento idealizado logo excluía a entrada de certos perfis de usuários, como os mais jovens e não universitários, pela simples questão dos campos a serem preenchidos nas páginas (perfis), de cada pessoa (usuário) exigirem informações pessoais relevantes. Como o perfil é baseado na vida profissional e acadêmica, a presença nessa rede pressupõe dados reais, facilmente verificados por amigos, colegas, gerentes de áreas de recrutamento.

Eis o seu principal ativo. A verdade!

Não existe, ou quase não existem as famosas Fake News. Ninguém em sã consciência vai colocar sua imagem profissional em risco. Quem quer se expor ao escrutínio de seu atual ou futuro empregador? Muito difícil existirem perfis falsos, pois as empresas podem detectá-los e solicitar sua eliminação, bem como receber críticas de terceiros.

Tudo isto faz com que o Linkedin seja uma rede onde as pessoas investem o seu tempo e ao contrário das demais, não o gastem. As posições bipolares existentes nas demais redes não são comuns no Linkedin. Nesta, as pessoas falam como se estivessem em seus postos de trabalho. Estão preocupadas não somente com o que dizem, mas muito preocupadas, também, com suas imagens pessoais. Não querem se expor em demasia ou de forma agressiva.

Questões políticas também não ganham relevância pelos motivos expostos acima, o que colabora para a não polarização dos debates.

Enfim, uma rede mais pacifica e promissora para a troca de conhecimento em nível mundial.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

05.11.19

Refinarias podem entrar na Era de Ouro

Observatório

Por Leda Stein, economista e trader de petróleo, combustíveis e derivados.

Estimativas conservadoras apontam que 80% das transações comerciais de bens são entregues ao cliente pelo mar. Transportando para a escala monetária, cerca de 70% dos dólares transacionados nas relações de troca mundiais são movimentados por navios e embarcações. Dependendo do tamanho e porte da análise, estudos sinalizam a disponibilidade de 80 a 100 mil embarcações para frete marítimo. Esses barcos e navios têm como insumo principal para geração de energia o óleo combustível, também conhecido como bunker, que é uma corrente de petróleo pesada e poluente em função do sua alta concentração de dióxido de enxofre. Diante desse contexto de grande volume de movimentação de cargas e emissão de gases poluentes, a International Maritime Organization (IMO) vem implantando obrigações legais quanto ao limite de enxofre permitido para o óleo combustível.

Em 2012, o teto caiu de 4,5% para 3,5%, e, em 2016, o Comitê de Proteção ao Meio Ambiente da entidade decidiu baixar para 0,5% a partir de janeiro de 2020. Essas mudanças não ocorrem de forma incontroversa, uma vez que representantes das empresas de transporte marítimo questionaram a capacidade do parque de refino mundial para suprir o aumento da demanda pelo combustível mais limpo. Mesmo assim, a alteração foi ratificada em convenções posteriores.

A IMO é uma agência especializada da ONU, voltada para definições de normas relacionadas à segurança, proteção e desempenho ambiental do transporte marítimo internacional. Cabe à organização implementar a estrutura regulatória global para o setor, criando condições equilibradas de concorrência e incentivando a inovação, a eficiência e o desenvolvimento sustentável.

As empresas de transporte que ignorarem a mudança regulatória e continuarem consumindo combustível com alto teor de enxofre correrão o risco de serem penalizadas com multa, retenção da embarcação e suspensão da apólice de seguro. Não é uma opção atraente.

Para que as embarcações passem a respeitar a nova regra, terão a opção de: I. instalar sistema de filtragem nas descargas dos motores (scrubbers), gerando abatimento na emissão dos gases poluentes; II. converter seus motores para uso de combustíveis limpos com baixo teor de enxofre como GNL, biocombustíveis etc; ou III. simplesmente passar a consumir combustível com no máximo 0,5% de dióxido de enxofre.

As duas primeiras opções necessitam de capital livre para investimento em toda a frota de embarcações, lembrando que estamos tratando de escala global (80 a 100 mil navios). Além disso, não há disponibilidade nos estaleiros para promover essas alterações de uma hora para outra. O mais provável é que as empresas de transporte façam as mudanças aos poucos, aproveitando o cronograma de manutenção dos barcos.

Isso pode levar 10, 20 ou até 50 anos, a depender da oferta de vagas nos estaleiros pelo planeta. Portanto, a solução logística mais simples para atender a mudança da regulação será buscar o combustível com menor teor de enxofre no mesmo lugar onde se compra o combustível mais poluente, entretanto, com provável ágio no preço por se tratar de um produto mais processado.

Esse contexto não é uma surpresa para quem atua no ramo de logística marítima, refino de petróleo, distribuição e comercialização de bunker. Essas discussões são travadas pelo menos desde 2008, quando a Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (MARPOL) resolveu inserir a nova exigência no Anexo IV – Prevenção de Poluição do Ar. Inclusive, alguns países desenvolvidos já providenciaram as mudanças da IMO em suas regulações internas, forçando suas indústrias a anteciparem as obrigações de 2020.

A novidade é a venda de ativos de refino no Brasil, promovida pela Petrobras, que estará ocorrendo justamente no momento em que haverá inflexão positiva na curva de demanda por óleo combustível de maior valor agregado para abastecer as embarcações do mundo. Não é por menos que investidores chineses, os maiores interessados no abastecimento de embarcações para transporte internacional de cargas, rondam o território nacional se colocando à disposição das autoridades para participar de leilões de ativos.

A dinâmica dos preços tenderá a ajustar seu ponto de equilíbrio em favor da oferta, sendo provável que as margens de lucro do refino brasileiro tendam a aumentar já no próximo ano. Pela ótica do custo, o Brasil possui vantagem comparativa para essa mudança, pois o petróleo extraído no território nacional já possui taxas médias de dióxido de enxofre mais baixas, o que facilita a adaptação do parque de refino para alterar as características dos produtos finais. Além disso, muitos “revamps” já foram feitos para adequação das refinarias a essa nova necessidade.

O alerta importante aos acionistas da Petrobras é que essas projeções de aumento de demanda e vantagem comparativa sejam consideradas nos cálculos de valuation para negociação das refinarias que aguardam na fila do desinvestimento. Afinal, o valor de um ativo não é função do prejuízo gerado nas mãos do último dono, mas sim de seu potencial de lucro nas mãos dos próximos proprietários. A estatal pode estar se livrando de uma galinha velha que passará a botar ovos de ouro – com baixo teor de enxofre.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

04.11.19

O curto-circuito da representação local no Rio de Janeiro e a responsabilidade do empresariado carioca

Observatório

Por Christian Lynch, cientista político e professor do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ.

O declínio da cidade do Rio vem de longe, e há pelo menos vinte anos a “intelligentsia” da capital formada por economistas e empresários reúne-se periodicamente – e inutilmente – em eventos como o último “Reage Rio” para discutir o que fazer em reuniões que por vezes se assemelham mais a terapias de grupo voltadas para elevar o próprio ânimo diante da impotência. Não entendem por que o Rio não funciona como São Paulo, e não se interessam por entender a razão. Acham que a reação brotará da sociedade civil por partenogênese, contornando a política. Não à toa, o resultado dessas reuniões é inócuo politicamente, tendo em vista a falta de empenho em refletir politicamente sobre as causas do declínio.

Para entender o problema e começar uma reação efetiva, o empresariado precisa deixar de lado seus preconceitos doutrinários puramente liberais e compreender a situação da cidade do Rio cientificamente, ou seja, do ponto de vista histórico de constituição de sua cultura política. Parte substantiva do problema reside no fato de que, ao contrário de São Paulo, sempre houve no Rio uma desconexão do empresariado com a classe política. A cultura política da cidade do Rio de Janeiro sofre de um paradoxo. Por um lado, é berço da democracia brasileira. Na condição de mais populosa cidade do país até 1960, foi por muito tempo o único lugar do Brasil onde candidatos não apoiados pela oligarquia venciam eleições. Por outro lado, parece ter sempre prevalecido um curto-circuito entre sociedade civil e política local.

A precursora democracia carioca foi sempre tutelada pelo governo federal, em razão de sua função de capital federal: elegiam-se vereadores, mas o prefeito era nomeado pelo presidente, e as decisões do poder local ficavam sujeitas à confirmação pelo Senado. Daí que a grande política carioca fosse sempre feita por cima, em nível federal. O empresariado carioca, as associações comerciais ou de empregados no comércio e a federação das indústrias – era com o governo federal que eles se entendiam, e nunca com o municipal. Os assuntos miúdos, a pequena política, era tudo o que restava aos vereadores. Então, a cultura política carioca forjou-se nessa dicotomia: a alta política era a nacional, abstraída das contingências locais.

A esfera local era indigna de ser tratada por gente séria e, por isso, podia ficar na mão de políticos de baixo nível, de índole predatória e provinciana. Trata-se de uma desconexão que inexiste em São Paulo. Mas a cidade não sofria, porque era segurada pelo governo federal. A tragédia carioca reside no fato de que a mudança da capital para Brasília não modificou esse padrão. De pouco adiantou a cidade passar a eleger seus mandatários, porque continuou a cultura política que separa o nacional do local. O alto empresariado, as associações comerciais e a federação das indústrias permaneceram alienadas da política municipal.

A Câmara Municipal segue com sua péssima fama, mantendo o padrão de política miúda, sem ter conexões com o empresariado, mas também sem ter a tutela protetora do governo federal. Também é o menos fiscalizado dos legislativos pela própria imprensa carioca, que, refletindo a cultura política da antiga capital federal, só tem olhos para Brasília e, de quando em vez, para a Assembleia Legislativa. Nesse quadro, não espanta que, desde que a ditadura militar resolveu consolidar seu poder no isolamento do sertão goiano, bem longe do povo brasileiro representado pelo eleitorado carioca, a cidade tenha entrado em um imediato declínio econômico. O empresariado e seus economistas precisam perceber que a decadência econômica é consequência, e não causa, do declínio político. Talvez tenha chegado a hora de o empresariado carioca perceber que é vão esperar que, pela ação virtuosa de suas elites econômicas e sociais, a cidade se levante, por força de algum milagre, do leito em que se encontra paralítica.

A recusa do empresariado em conectar-se com a política municipal potencializa os efeitos daninhos de governos como o atual. Da mesma forma, é preciso perceber que a cultura política carioca não vai se modificar; que São Paulo não é, nem pode ser, um modelo para o Rio de Janeiro; e muito menos que rebaixá-la à condição de balneário turístico resolverá seus problemas. Se quiserem recriar um ambiente favorável aos negócios, o empresariado precisará se aproximar da política local em torno de um projeto POLÍTICO voltado para a reconfiguração da cidade do Rio no quadro da federação, de modo a resgatar formalmente sua centralidade política e, com ela, a responsabilidade da União Federal sobre sua segurança pública. Só assim se pode reduzir o hiato entre a cultura política de capital federal e o estatuto de mero município a que foi reduzida a cidade do Rio pela ditadura militar. Mas, para isso, o empresariado precisa despertar de seus sonhos de uma ação política sem política; que o Rio não vai reagir enquanto não resolver o curto-circuito de sua representação política.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

01.11.19

Mudança de regra no meio do jogo causa insegurança legal

Observatório

Por Fabricio Dantas, sócio de Vinhas e Redenschi Advogados.

O programa de regularização de ativos no exterior, conhecido como RERCT (Regime Especial de Regularização Cambial e Tributária) levantou mais de R$ 45 bilhões em tributos e multas. Este recurso manteve estados e municípios imunes à crise de 2016/17, principalmente na Região Nordeste, e ajudou a União a cumprir a regra de ouro de 2017. Também trouxe para a economia formal mais de meio trilhão em recursos enviados ao exterior, possibilitando investigações criminais sobre pessoas que não poderiam aderir ao regime, bem como estimulou a efetiva repatriação de boa parte de valores. Mesmo como esses predicados, o programa brasileiro esta em cheque.

Isto porque, contrariando o texto legal, a Secretaria Receita Federal (SRF) vem exigindo de alguns contribuintes a origem dos recursos declarados. A primeira triagem, além de uma seleção dos que não possuíam os requisitos para entrar no programa, como políticos e envolvidos na Lava-Jato, a SRF mirou contribuintes que recolheram o tributo com base na conhecida, ou seja, desconsiderando os valores consumidos. Estes contribuintes devem se preparar para uma batalha. A exigência da diferença virá com multa de 150%, além da possibilidade de um processo criminal. A defesa nas instâncias administrativas e, principalmente, no Judiciário, irá colocar, de um lado, o texto legal expresso, e de outro, a interpretação que o Governo Federal deu em perguntas e respostas tanto, ao longo do programa, como depois do mesmo estar encerrado.

Tudo isto tendo como pano de fundo a possibilidade da SRF fiscalizar crimes não relacionados com o recolhimento de tributos. Os contribuintes que aderiram ao programa e recolheram com base no valor consumido, por outro lado, também devem ficar atentos. Caso sejam chamados a declarar a origem dos recursos resistam judicialmente. Principalmente por conta da insegurança jurídica que a interpretação variante do órgão vinculado ao Ministério da Economia vem trazendo para um programa baseado na confiança de quem aderiu.

As recentes discussões acerca do poder de investigação da Secretaria da Receita Federal e sobre a posição do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) no organograma administrativo irão demandar uma estratégia jurídica complexa a ser adotada, tanto pelos que aderiram sem ter condição para tal, como para aqueles que o fizeram, confiando na lei e nas instituições. E promete ser uma das maiores discussões judiciais do País, no contexto de um programa que trouxe para a economia formal um volume de recursos antes inimaginável e que ajudou os entes públicos a superar a maior crise deste século.

 

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

31.10.19

Empresários precisam de uma nova Conclap

Observatório

Por Daniel Valente, economista, comerciante e estudioso das políticas corporativas e de entidades patronais.

O projeto do ministro Paulo Guedes de dinamitar o Sistema S (Sesc, Sesi, Senai, Senac, Sebrae) bem poderia incentivar as confederações e federações da indústria e do comércio a resgatarem um evento à altura dos realizados pelo Conselho Superior das Classes Produtivas.  Na verdade, seria um remake atualizado da Conclap. A entidade foi constituída como uma associação civil, criada em 1959 por um grupo de industriais, banqueiros, comerciantes e seguradoras, todos com poderio financeiro e político. A tropa de choque tinha por objetivo coordenar uma ação de vigilância e de defesa dos seus interesses econômicos e políticos.

Na versão aqui proposta participariam também as entidades sindicais patronais, vedados na versão original. Cada encontro da Conclap era um espetáculo, no qual era apresentado o documento com o pleito das “classes produtivas” – o trabalho, por não ter interesses comuns, não era incluso nas “classes produtivas”. A Conclap tinha um poder de lobby absurdo. Nos anos 70, última reunião da Conclap, quem fez o documento foi o ex-presidente do Banco Central e atual assessor do Ministério da Economia para assuntos externos, Carlos Langoni. Toda essa peroração diz respeito ao enfraquecimento da categoria empresarial, com especial destaque da indústria. O fracionamento da representação por unidades regionais e a falta de uma representação que congregue diferentes segmentos da atividade produtiva e financeira deixou o setor privado sem força reivindicatória.

Ao contrário, é permitido ao governo fazer o empresário de gato e sapato sem que haja uma ação coordenada de negociação ou mesmo enfrentamento. O episódio do corte linear de 30% a 50% no Sistema S, “determinado” pelo ministro da Economia é apenas um exemplo do tratamento a tacape na cabeça das entidades do setor privado. O Sistema S atende à demanda de educação técnica, cultura, esporte, saúde, lazer e entretenimento de cerca de 12 milhões de pessoas. Sua criação provém da década de 1940; portanto, a intenção de dinamitá-lo está em linha com a destruição do legado de Vargas que assola o liberalismo tupiniquim. Em nome da verdade, Paulo Guedes não é o primeiro com apetite vampiresco sobre o Sistema S. Fernando Haddad e Joaquim Levy também buscaram capturar os recursos que vão beneficiar o trabalhador.

Guedes, porém, é o que fala mais grosso, quer mais dinheiro e pretende jogar tudo na vala do déficit público. Não sejamos injustos que existem também boas ideias nesse deserto do predomínio do fiscal. O Ministério da Cidadania tomou a frente para uma negociação com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) para usar a estrutura do Sistema S na capacitação dos jovens beneficiários do Bolsa Família. Uma ação isolada da CNI, que poderia tornar-se uma política para todo o empresariado se fosse resgatado o modelo da Conclap. A questão do Sistema S é apenas uma azeitona amarga em um copo de fel.

Os dirigentes do setor privado terão que lidar com desafios de gigantesca monta, tal como as políticas de exposição da indústria aos bens importados e um novo modelo cambial, a destruição de setores inteiros como a construção pesada e, last but not least, uma reforma tributária na qual sua participação se dá sem força política, através de papeluchos técnicos enviados por uma ou outra entidade empresarial a título de contribuição. A congregação da categoria seguiria, por uma via transversa, na direção do bordão de Guedes: menos Brasília e mais setor privado. Do jeito que está, vamos combinando ditadura tecnocrática com pusilanimidade empresarial.

Obs: O Sistema S não é nenhum convento e precisa ser dedetizado, mas isso não é da seara de Paulo Guedes.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

30.10.19

No Zimbabwe, mulheres com treinamento de comandos caçam os caçadores

Observatório

Por Marcio Scalércio, historiador e professor de Relações Internacionais na PUC- Rio.

A caça é proibida no Parque de Phundundu, às margens do rio Zambezi na república africana do Zimbabwe. Segundo as leis locais, nas áreas de preservação, colecionar troféus e tirar selfies com carcaças da vida selvagem é crime grave. Na verdade, hoje em dia, os caçadores é que são impiedosamente caçados, e por mulheres. Elas patrulham o parque armadas com fuzis de assalto modernos e, exibindo altivez e apreço por seu trabalho, recebem um treinamento similar ao das tropas especiais da Austrália.

São as “Akashinga” – que significa “as Bravas” no idioma Shona. As Akashinga são recrutadas nos aldeamentos fronteiriços ao parque. O projeto é pago pela ONG International Anti-Poaching Foundation. Poaching significa “caça furtiva”. O encarregado direto do programa é o militar australiano aposentado das Forças Especiais Damien Mander. O projeto, além de tentar preservar a vida selvagem, procura melhorar as condições de vida da população paupérrima da região. Mander faz uso de dados da ONU e de organizações internacionais para conduzir suas práticas.

Segundo elas, as mulheres são mais resistentes ao suborno dos caçadores furtivos do que os homens. Além disso, segundo as pesquisas, gastam 95% do que ganham com suas famílias, ao passo de que os homens em média repassam apenas 35%. O projeto prioriza o recrutamento de mulheres que foram vítimas de traumas: órfãos de aidéticos e vítimas de abuso sexual ou violência doméstica. O duro treinamento a que são submetidas restaura-lhes o amor próprio e empresta-lhes um propósito. E, uma vez em serviço, a vida dos caçadores furtivos torna-se infernal. Nada de refresco. Elas não aliviam nada. No Parque de Phundundu, as Akashinga patrulham altivas. Bom para a vida selvagem, bom para elas e suas famílias, péssimo para os caçadores furtivos. Desde que passaram a agir, houve uma queda drástica na mortandade de elefantes e leopardos.


Referência: Wildlife Watch, National Geographic.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

29.10.19

Capital reputacional na corda bamba

Observatório

Por Ivana Quirce, publicitária, analista reputacional e gestora de marcas digitais.

Era fevereiro de 2012 quando a Melissa inaugurou sua primeira loja-conceito fora do Brasil. A Galeria Melissa New York, situada em um prédio do fim do século XVII, no descolado bairro do Soho, estava na lista dos projetos mais importantes da marca. Havia sido maturado ao longo de quatro anos e consumido, à época, R$ 4 milhões. O novo passo da Melissa era o símbolo concreto da sua globalização e o prenúncio da abertura de novas lojas em mercados da Europa e da Ásia.

A ideia de convidar duas blogueiras com grande audiência nas redes para cobrir a inauguração fazia todo o sentido e era parte da estratégia de comunicação. Afinal, a Melissa passou a ser uma lovemark depois de um bem-sucedido processo de reposicionamento, iniciado no fim dos anos 1990. Seus modelos viraram peça de estilo desenhada por fashionistas, objetos de desejo e até de luxo, como os sapatos cravejados de cristais swarovsky que custam alguns milhares de reais. O escorregão da Melissa foi ter convidado blogueiras que nunca falavam da marca em suas postagens e uma delas já havia admitido não gostar de usar plástico no pé. O deslize desencadeou uma forte reação negativa das melisseiras nas redes sociais.

Meninas que se dedicavam exclusivamente a divulgar os calçados se disseram decepcionadas, traídas e ofendidas e afirmaram que deixariam de consumir produtos da marca. Da revolta das seguidoras nasceu a hashtag #melissafail que ficou entre os trending topics do Twitter. A revolta dos fãs cresceu como uma avalanche e se voltou para os negócios da marca, como o questionamento dos altos preços dos sapatos e a disseminação da ideia de que eram produtos caros e excludentes. Como uma lovemark, a Melissa estava acostumada a colher, no mundo digital, declarações de admiração da sua legião de fãs e se declarou surpresa com as manifestações de fúria. O episódio dá uma mostra singela do que pode acontecer com a reputação de uma empresa depois de uma atitude bem intencionada, mas mal conduzida.

E não estamos aqui falando de falhas em produtos ou serviços, corrupção ou fraude. Da mesma forma como as mídias sociais ajudaram a construir a reputação da Melissa, bastou um simples deslize para arranhá-la. A empresa agiu rápido para reverter o quadro, soltou um comunicado, pediu desculpas, mas o fato ficou no histórico, é só dar uma googlada… Em uma sociedade interligada em rede, consumidores e empresas estão cada vez mais conectados, a mensagem sai do controle corporativo, o discurso do cliente se amplifica e ganha poder, as crises de imagem tornam-se difíceis de gerir. Uma pesquisa recente desenvolvida pela consultoria Aon, em parceria com a empresa norte-americana de análise de dados Pentland Analytics separou em dois grupos – os vencedores e os perdedores – empresas que passaram por uma crise de reputação. O estudo mostra que a tendência das empresas que em 2018 conseguiram ter sucesso no gerenciamento de uma crise de reputação é de valorização acionária de 20% nos próximos anos.

Aquelas que foram vencidas pela crise tiveram 30% de desvalorização dos seus papéis. Ainda de acordo com a pesquisa há um dado que impressiona: o impacto de uma crise sobre o valor das empresas é o dobro, tanto para vencedores quanto perdedores, na era digital quando comparado ao prejuízo que amargavam no período pré-mídias sociais. Como agem os vencedores? De acordo com a pesquisa, eles respondem rápido, quanto maior a demora, maior a perda de confiança; respondem globalmente, compartilham com todos os públicos as respostas enviadas, não fazem esclarecimentos de forma fragmentada; são decisivos, há o envolvimento direto do líder da empresa para tomar decisões efetivas no saneamento do problema; fazem reparações, assim não apenas reconhecem seus erros, mas compensam os atingidos por eles. A lição que fica é que não há mais espaço para amadorismo ou improviso no cuidado da reputação de empresas em um mundo conectado. É preciso melhor governança da comunicação, mais planejamento e habilidade para antecipar cenários de risco. O contrário disso pode ser mortal.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

28.10.19

Um ecossistema chamado Homem

Observatório

Por Leonardo Braga, Capitão Submarinista da Marinha Brasileira.

Em abril deste ano um estudo publicado na Revista Nature apontou resultados positivos no tratamento de doenças do espectro autista usando uma técnica aparentemente inusitada: o transplante de fezes. Não tome esta notícia como apenas uma curiosidade científica. Trata-se de uma revolução comparável à promovida por Copérnico e Galileu, com impactos que vão muito além dos benefícios imediatos à saúde humana. A concepção de vida microbiológica que habita o senso comum no século XXI foi mormente forjada a partir dos conhecimentos e procedimentos biomédicos desenvolvidos entre a Revolução Industrial e as pesquisas sobre os antibióticos no período que abrange as duas Grandes Guerras.

A invenção do microscópio no século XVII permitiu a descoberta dos então “animalúculos”, pequenas criaturas invisíveis a olho nu que pareciam estar em toda parte, sem que ninguém soubesse de onde vinham ou como surgiam. No século XVII, entre as teorias formuladas, mostrou-se vitoriosa a proposição de Pasteur, de que tais criaturas nasciam de outras por reprodução, em contraponto à ideia de que os micro-organismos surgiam de matéria não viva, por geração espontânea. Das experiências e técnicas de esterilização de Pasteur à compreensão de que os micro- organismos eram agentes causadores das doenças foi um pulo. Os tais pequenos animais ganharam nomes, e o termo bacteria surgiu para designar as cepas de bactérias em forma de bastão, tornando-se no século XX o termo utilizado para a categoria em geral.

No final do século XIX, a concepção de “agente patogênico” já estava consolidada, e a partir dela desenvolveram-se boa parte das medidas de higiene, tanto aplicadas ao ambiente hospitalar quanto aos espaços urbanos em geral; além, é claro, das medidas de saúde pública, incluindo o combate às doenças infectocontagiosas por meio das ações de prevenção, incluindo a prática de vacinação em massa e o saneamento básico. Os ganhos em expectativa de vida foram notáveis e ampliaram-se com o desenvolvimento dos antibióticos a partir da Segunda Guerra Mundial. Os micróbios tornaram-se inimigos, ora inertes e sorrateiros, ora agressivos e perigosos. A história das grandes epidemias mais do que justificava tal concepção. Mas, após o mapeamento do DNA humano no final do século XX (e a decepção quanto ao tamanho reduzido, em relação a outras espécies supostamente mais simples), seguiu-se um projeto menos pomposo, de mapeamento da microbiota humana.

Os resultados decorrentes desse projeto foram muito bem compilados e divulgados pelo trabalho da bióloga Alanna Collen em seu livro “10% Humano” (2015, editora Sextante). Collen aponta, para a surpresa geral, que o intestino sozinho tem mais micro-organismos do que o corpo tem células. E que no total apenas 10% das unidades que nos compõe são nossas de fato. Alanna aponta, a partir de vasto conjunto de evidências, que esse ecossistema participa ativamente de diversos processos metabólicos centrais, suplementando as capacidades que seriam proporcionadas exclusivamente pelo genoma humano, e que seu desequilíbrio precisa ser compreendido como um problema de saúde grave. E o mais importante: aponta como hipóteses promissoras que doenças como diabetes, obesidade, alergias e doenças do espectro autista poderiam ter no desequilíbrio da microbiota o fator preponderante.

Segundo Collen, o aumento das doenças no século XX coincide com… voilá… a disseminação do uso de antibióticos – armas de destruição em massa que não destroem somente os patógenos das doenças perigosas, mas também as espécies necessárias ao bom funcionamento do corpo. A equipe liderada pela pesquisadora Rosa Krajmalnik-Brown, partindo dessa hipótese, obteve resultados robustos e positivos fazendo transplantes de microbiotas saudáveis para os intestinos de pacientes vitimados por doenças do espectro autista. Outros cientistas têm se dedicado a estudar as conexões peculiares entre microbiota e comportamento humano, encontrando resultados igualmente surpreendentes. Nos próximos anos essas pesquisas poderão mudar radicalmente a forma como tratamos as doenças. E o mais importante – como compreendemos os seres humanos em geral. Em vez de organismos, somos verdadeiramente ecossistemas peculiares e conscientes.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.