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25.04.19

Roman à clef sobre o perdão que talvez salve a todos

As noites secas de Brasília estimulam sonos voltívolos e insônia. Cabe nesses interstícios da quietação receber os duendes da incerteza. O ministro Gilmar Mendes tem sido visitado por esses pequenos seres. Mendes se considera um estadista. Talvez seja. Em plena madrugada suas meditações se entrecruzam: o julgamento da 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a estabilidade da Nação e a integridade do Judiciário. Mendes pensa em Jair Bolsonaro. Pensa em Lula. Na finitude. Na interseção da dor com o derrocamento. A lembrança de Lula é cara ao ministro. Mendes sabe que a culpabilidade do ex-presidente é relativa. Sabe igualmente que o Judiciário racionaliza os indícios na direção que as circunstâncias determinam. E as circunstâncias mudam.

O Judiciário cumpriu sua missão em relação ao ex-presidente. A Justiça, não. O episódio da morte do neto de Lula poderia ter sido o timing adequado para o início de uma distensão. Ao inverso, ficou a memória da intolerância, da vista cega da Justiça; e seu choro convulsivo de homem, despido do manto da autoridade, ao falar pelo telefone com um Lula dilacerado aos pés do esquife. Lembrança dolorida à parte, Gilmar não se deixa adocicar. E a responsabilidade do Supremo pelo bem maior do país? E o Estado da ordem? E o compromisso com a segurança nacional? O magistrado se lembra de Getúlio Vargas vilipendiado; Vargas tornou-se mártir em um átimo. Em uma bala. Imaginem se Lula adoece e queda-se na prisão, um tombo que seja, sem o direito de viver seus dias, talvez os últimos, dignamente em prisão semiaberta ou – por que não? – domiciliar, sendo visitado por entes queridos, respirando ao menos a liberdade vigiada.

Seria um risco minúsculo frente à inundação de raiva e protesto que tomariam o país se o ex-presidente fosse vítima de um infortúnio nesses dias sombrios de impopularidade e descontentamento dos brasileiros com os homens togados e circunspectos. Mendes, parafraseando o príncipe, sussurra para si mesmo: “Que o bem seja como o mal; que seja feito de uma só vez. Até porque precisamos todos, todos mesmo, nos proteger”. Os duendes persistem bailando nos cantos do cômodo, como travessos portadores de pensamentos indesejáveis. Gilmar Mendes persegue o sono, se é que existe um alívio possível.

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