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A diretoria do Banco Central tem mantido discussões sobre a necessidade de aumento das reservas de ouro do país. A autoridade monetária estuda retomar as aquisições do metal – as últimas operações foram realizadas em meados de 2021. O BC enxerga a realidade pelas mesmas lentes de tantos outros países que estão ampliando significativamente sua posição em ouro como hedge para uma possível guerra via taxa de câmbio.
No ano passado, os bancos centrais de todo o mundo compraram 1.045 toneladas do metal. Os estoques soberanos chegaram à marca de 36 mil toneladas, a maior desde meados dos anos 1960. Neste ano, a caça ao ouro prossegue. No primeiro semestre deste ano, as aquisições somaram quase 400 toneladas.
O que mais chama a atenção é o movimento da, sempre ela, China: o país tem adquirido ouro há 18 meses consecutivos. O metal já representa quase 9,1% das Reservas Forex chinesas – há quatro anos, essa proporção era de apenas 3,3%. Na última década, a China adicionou cerca de 1,1 mil toneladas de ouro às suas reservas – superada apenas pela Rússia, com a aquisição de 1,2 mil toneladas no mesmo período.
Russos e chineses, por sinal, já ocupam, respectivamente, o quinto e o sexto lugares entre os países com maiores estoques oficiais do metal – ambos com algo em torno de 2,3 mil toneladas. Mantido o ritmo atual, é grande a probabilidade de que ultrapassem França e Itália, que mantêm 2,4 mil toneladas de ouro em reservas. À frente, estão a Alemanha (3,3 mil toneladas) e os Estados Unidos, com o seu Fort Knox – 8,1 mil toneladas, ou mais de 20% dos estoques soberanos em todo o mundo.
Em 2021, no intervalo de apenas três meses – mais precisamente entre maio e julho –, o Banco Central do Brasil praticamente duplicou as reservas de ouro, saindo de 67,4 para 129,6 toneladas. Proporcionalmente, a participação do metal nas Reservas Forex brasileiras subiu de ínfimo 0,94% para 2,25%.
Desde então, com a elevação dos preços da commodity, o ouro já representa algo em torno de 5% das reservas totais do país (US$ 356 bilhões). Com a disparada das cotações (alta acumulada de 55% no ano), em termos absolutos o valor do estoque brasileiro do metal subiu de US$ 10,8 bilhões, no fim de 2024, para US$ 17,9 bilhões em setembro, segundo dados do próprio BC. Talvez o Brasil tenha uma dívida com a gestão de Roberto Campos Neto. Foi sob a sua regência que o Banco Central dobrou as reservas brasileiras de ouro.
A retomada das compras de ouro funcionaria como um hedge para uma sempre possível escalada do déficit das transações correntes. Nos 12 meses encerrados em agosto, o resultado negativo nas contas externas brasileiras chegou a US$ 76,2 bilhões, o equivalente a 3,51% do PIB. Em agosto do ano passado, o déficit acumulado em 12 meses era de US$ 43,6 bilhões, então correspondente a 1,95% do PIB.
Ou seja: há um risco de fragilidade nas contas externas do país que não pode ser de todo desprezado. Tradicionalmente, existem algumas formas de compensar esse saldo negativo. Uma delas são os investimentos diretos no país (IDP), que seguem uma toada sem maiores oscilações. Em agosto, o saldo acumulado em 12 meses estava em US$ 69 bilhões, ou 3,18% do PIB. Em agosto do ano passado, o estoque dos 12 meses anteriores era de US$ 70,6 bilhões, ou 3,19% do PIB.
Outra possibilidade de compensação do déficit em transações correntes é a emissão de títulos soberanos no exterior, na prática uma forma de alongar o perfil da dívida. Uma terceira hipótese é recorrer ao FMI. O Brasil, por exemplo, se enquadra nos parâmetros macroeconômicos estabelecidos pelo Fundo para acesso a linhas preventivas de financiamento, como a Flexible Credit Line. No entanto, bater à porta do FMI nunca é uma boa sinalização.
Todas essas medidas, ressalte-se, são mais radicais, um vidro a ser quebrado em caso de emergência – leia-se uma eventual piora no balanço de pagamentos, algo que não está no radar. De todas as opções para cobrir déficits em transações correntes, a melhor profilaxia neste momento é fazer o que o mundo está fazendo, ou seja, comprar ouro e aumentar as reservas monetárias.
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