27.06.17
ED. 5648

Como diria Shakespeare, muito barulho por nada. Ou tudo

Circulou no Congresso Nacional a informação de que um triângulo das Bermudas estava se formando no cume da política brasileira. Seus vértices seriam o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, o Comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. O trio estaria articulando um manifesto contra o estado de anomia que domina o país. Os virtuais signatários se autodenominariam representantes da “sabedoria, Justiça e da força”. Um tanto quanto cabotino. Mas não se pode deixar de reconhecer que os três pontífices são um maná de capacitação e autoridade em meio ao atual deserto de homens e ideias.

O RR foi procurar uma fonte estratégica. Ela desdenhou do rumor, afirmando que “conhecia os três e que, apesar de vaidosíssimos, não fariam uma coisa dessas por temer os riscos de interpretações equivocadas”. Ponderou, contudo, que Fernando Henrique, Gilmar e Villas Bôas têm estado mais próximos recentemente. De fato, surgiram alguns pontos de interseção entre os três cardeais. FHC e Gilmar Mendes têm uma antiga afinidade. O ex-presidente é palestrante de eventos internacionais promovidos pelo Instituto Brasiliense de Direito Público, mais conhecido pelo acrônimo IDP.

Um dado curioso: a instituição de ensino pertencente a Gilmar consegue ao mesmo tempo ser patrocinada por empresas estatais e controlada por um ministro do Supremo sem que ninguém acuse um conflito de interesse. Em 12 de outubro do ano passado, o presidente Michel Temer chamou FHC e Gilmar Mendes para um almoço privado com o objetivo de “um aconselhamento de alto nível”. O Comandante Villas Bôas, por sua vez, foi cortejado em ambas as casas neste segundo trimestre. Deu palestra no dia 24 de maio no Instituto FHC.

O evento repercutiu e foi considerado inoportuno por parlamentares e militares da reserva devido à circunstância política. No último dia 20 de junho, VB compareceu ao IDP, de Gilmar Mendes, onde foi homenageado com o título de Doutor Honoris Causa. Frente a assunto de tal impacto, o RR decidiu tirar a limpo a história. Consultou FHC que não se fez de rogado: “É tudo fantasioso. Nunca estivemos os três juntos e, separadamente, nas raras ocasiões em que os vi jamais cogitei de manifesto algum, nem seria apropriado”.

O Comandante Villas Bôas já tinha se posicionado de forma lacônica e peremptória: “No Instituto FHC, tratei de Defesa Nacional, Vigilância de Fronteira e Segurança Pública – o papel das Forças Armadas. É uma discussão vital para o país.” O Centro de Comunicação Social do Exército também se manifestou para afirmar o caráter protocolar dos eventos: “O Exmo. Senhor General de Exército Eduardo Dias da Costa Villas Bôas compareceu ao Instituto Fernando Henrique Cardoso e no Instituto Brasiliense de Direito Público do Ministro Gilmar Mendes em sua condição de Comandante do Exército Brasileiro, representando a Força da qual está à frente, para proferir palestra e/ou participar de evento cultural como convidado.”

Villas Bôas, um oficial legalista e disciplinado, não transporia o Regulamento Disciplinar para assinar um manifesto no qual sua participação poderia ser confundida com a da Força Armada. O ministro Gilmar Mendes não respondeu por se encontrar no plenário do STF. De qualquer forma, bem melhor assim. Que os três se mantenham candidatos ao epíteto de estadistas, sem articulações ou manifestos que confundam ainda mais o ambiente político.

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