08.10.18
ED. 5969

Bolsonaro não sabe que seu ministro é um furão

Nos idos dos anos 80 – quase 90 – o ex-governador Antônio Carlos Magalhães, em um dos seus raros intervalos fora do poder, decidiu criar um instituto de estudos na Bahia com o objetivo de manter seu nome em voga. ACM “fora do poder” é um eufemismo para ACM “com um pouco menos de poder”. O político baiano mandava à beça e os maiores nomes da academia iam discursar no instituto. ACM era muito amigo de Mário Henrique Simonsen – que foi discursar duas vezes no “think thank do Pelourinho”.

Pausa para uma ressalva: a iniciativa original do ex-governador da Bahia era quase informal, completamente distinta do atual Instituto Antônio Carlos Magalhães Ação, Cidadania e Memória, uma espécie de ONG voltada para iniciativas sociais e criada emm2010, três anos após o falecimento do orixá da política. Retornando a Simonsen, o ex-ministro era muito amigo do professor Moyses Glatt, seu fiel escudeiro. Glatt, que era criador – e excepcional vendedor – dos primeiros MBAs da FGV flertava com Paulo Guedes, à época presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec). Negociavam fazer um MBA piloto das duas instituições – ressalte-se que Glatt não tinha autorização para isso; era apenas uma das suas travessuras.

Guedes, por sua vez, nutria uma relação de amor e ódio com Simonsen, que não lhe dava a menor pelota. O fato é que para agradar Simonsen, que queria agradar ACM, Glatt trouxe para si a missão de convocar economistas e empresários para palestrar no instituto baiano. Glatt consultou Simonsen sobre o nome de Paulo Guedes. O ex-ministro aquiesceu com um muxoxo. Guedes vibrou. Tudo certo e combinado. Quando chegou a vez da palestra de “Paulinho”, em Salvador, com convidados ilustres e empresários na plateia, o economista simplesmente sumiu. Guedes não foi, nem deu satisfação.

Glatt, lívido, tentou localizá-lo por dias sem êxito, mas ele não atendia o telefone. Tornou-se seu desafeto para o resto da vida. ACM rugiu que, quando o encontrasse, ia mostrar-lhe o que se faz com um “garoto sem palavra”. Simonsen, que desdenhava do economista, tomou-se de antipatia eterna por ele. As portas da FGV se fecharam de vez para Guedes. Durante anos, quando ouvia que Glatt o odiava e pintava e bordava com seu nome na imprensa, Paulo Guedes fazia cara de espanto e respondia: “Não consigo o entender o porquê disso. Eu até gosto dele. Quase fizemos negócios juntos”. Glatt nunca mais falou com Guedes, que foi obrigado a vender a contragosto o Ibmec e partiu para fazer fortuna no Banco Pactual. Mas o virtual ministro de Bolsonaro ainda daria muitos bolos homéricos em sua trajetória de furão. O último sabido foi no evento da corretora XP. É da sua natureza.

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