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14.10.19

Sustentabilidade cada vez mais presente no campo

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior

A dinâmica e futuro do agronegócio brasileiro vão continuar dependentes da produtividade do agricultor produzir ao menor custo possível, na esperança de que os preços internacionais, formados por mercados futuros, com a crescente dominância de investidores utilizando modelos algoritmos, gerem algum caixa. As mudanças em marcha no mercado mundial não sopram a favor da evolução do Brasil de mero fornecedor de matéria-prima para player capaz de capturar parcelas na cadeia de geração de valor.  

A concentração em marcha nos canais de comercialização, as chamadas “trading companies”, cujas margens de rentabilidade estão ladeira abaixo, vem sendo comandada pela aliança do sistema mundial de crédito com os industriais.

Os industriais passaram a comprar de seus fornecedores a prazo; e os bancos financiadores das empresas comerciais globais querem que seus clientes estejam fortemente instalados nos países produtores das respectivas matérias-primas. Novas linhas de crédito estão sendo negociadas nas principais praças mundiais, obrigando empresas globais de commodities agrícolas terem rastreabilidade de fornecedores, informações da cadeia de suprimento, infraestrutura própria, entre outras exigências. O não cumprimento dos termos acordados entre o agente financeiro e a companhia comercial implica penalidades de alguns pontos e a revisão da taxa de juros para mais, devidamente pactuado no contrato original. E tudo isso empacotado em projetos de sustentabilidade. 

Para aqueles não familiarizados com o conceito do ecologicamente correto, esse tema, em suas faces econômica, social e ambiental, vem ganhando poder desde que a “consciência” de consumidores, investidores e governos de países importadores, particularmente da Europa, Japão e além-mar, descobriram o potencial não tarifário da ferramenta. Mais recentemente os bancos globais embarcaram na mesma canoa, mas com objetivo bem distinto e com propósitos de concentrar as chamadas “trading companies”.  

Há poucas semanas atrás a empresa Cofco Internacional, operadora da Corporação Cofco chinesa, anunciou a obtenção de uma linha de crédito de U$ 2,1 bilhões para projetos sustentáveis na soja. A Mercon, com sede na Holanda, cerca de U$ 450 milhões; a suíça Sucafina S.A., outro pacote. 

A taxa de juros básica de cada projeto varia de 1,75% a 2,75% ao ano, com prazos variados, mas nenhum inferior a 18 meses, com renovação automática se o tomador executar o acordo de crédito nos quesitos de operações de originação sustentável da matéria-prima em questão. As empresas globais de commodities agrícolas não têm outra saída que a de aceitarem a regra do jogo dos agentes financeiros na busca de linhas e mais linhas de crédito para sustentar a ampliação da escala de suas transações comerciais de baixa margem. É correr para os bancos com suas ofertas e ampliarem sua presença física e estratégica nos países produtores, concretamente com os produtores propriamente.

As empresas comerciais agrícolas formadas em países exportadores, ainda confinadas em vendas para embarque em seus respectivos portos – sujeitas a segmento de crédito com altas taxas de juros, de 150% a 400% acima das concorrentes globais, e custos de entrega nos portos e de emissão de documentos que as congêneres globais nem sempre estão sujeitas – não têm futuro promissor à vista. 

Os principais clientes das exportadoras agrícolas brasileiras, ou as de qualquer outro país exportador de matéria-prima, são justamente as empresas globais. O fato de a raposa estar sendo empurrada para o galinheiro pelos bancos e pelos setores industriais de cada segmento de negócio poderia até ser considerado a eliminação de intermediários, o que em tese daria maior margem aos agentes comerciais globais de pagarem melhores preços diretamente aos fornecedores, milhares de produtores espalhados em uma penca de países. 

Lamentavelmente o objetivo e a evolução do agronegócio na comercialização têm sido na direção oposta. 

No caso brasileiro, as portas estão escancaradas.

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