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31.10.19

Empresários precisam de uma nova Conclap

Observatório

Por Daniel Valente, economista, comerciante e estudioso das políticas corporativas e de entidades patronais.

O projeto do ministro Paulo Guedes de dinamitar o Sistema S (Sesc, Sesi, Senai, Senac, Sebrae) bem poderia incentivar as confederações e federações da indústria e do comércio a resgatarem um evento à altura dos realizados pelo Conselho Superior das Classes Produtivas.  Na verdade, seria um remake atualizado da Conclap. A entidade foi constituída como uma associação civil, criada em 1959 por um grupo de industriais, banqueiros, comerciantes e seguradoras, todos com poderio financeiro e político. A tropa de choque tinha por objetivo coordenar uma ação de vigilância e de defesa dos seus interesses econômicos e políticos.

Na versão aqui proposta participariam também as entidades sindicais patronais, vedados na versão original. Cada encontro da Conclap era um espetáculo, no qual era apresentado o documento com o pleito das “classes produtivas” – o trabalho, por não ter interesses comuns, não era incluso nas “classes produtivas”. A Conclap tinha um poder de lobby absurdo. Nos anos 70, última reunião da Conclap, quem fez o documento foi o ex-presidente do Banco Central e atual assessor do Ministério da Economia para assuntos externos, Carlos Langoni. Toda essa peroração diz respeito ao enfraquecimento da categoria empresarial, com especial destaque da indústria. O fracionamento da representação por unidades regionais e a falta de uma representação que congregue diferentes segmentos da atividade produtiva e financeira deixou o setor privado sem força reivindicatória.

Ao contrário, é permitido ao governo fazer o empresário de gato e sapato sem que haja uma ação coordenada de negociação ou mesmo enfrentamento. O episódio do corte linear de 30% a 50% no Sistema S, “determinado” pelo ministro da Economia é apenas um exemplo do tratamento a tacape na cabeça das entidades do setor privado. O Sistema S atende à demanda de educação técnica, cultura, esporte, saúde, lazer e entretenimento de cerca de 12 milhões de pessoas. Sua criação provém da década de 1940; portanto, a intenção de dinamitá-lo está em linha com a destruição do legado de Vargas que assola o liberalismo tupiniquim. Em nome da verdade, Paulo Guedes não é o primeiro com apetite vampiresco sobre o Sistema S. Fernando Haddad e Joaquim Levy também buscaram capturar os recursos que vão beneficiar o trabalhador.

Guedes, porém, é o que fala mais grosso, quer mais dinheiro e pretende jogar tudo na vala do déficit público. Não sejamos injustos que existem também boas ideias nesse deserto do predomínio do fiscal. O Ministério da Cidadania tomou a frente para uma negociação com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) para usar a estrutura do Sistema S na capacitação dos jovens beneficiários do Bolsa Família. Uma ação isolada da CNI, que poderia tornar-se uma política para todo o empresariado se fosse resgatado o modelo da Conclap. A questão do Sistema S é apenas uma azeitona amarga em um copo de fel.

Os dirigentes do setor privado terão que lidar com desafios de gigantesca monta, tal como as políticas de exposição da indústria aos bens importados e um novo modelo cambial, a destruição de setores inteiros como a construção pesada e, last but not least, uma reforma tributária na qual sua participação se dá sem força política, através de papeluchos técnicos enviados por uma ou outra entidade empresarial a título de contribuição. A congregação da categoria seguiria, por uma via transversa, na direção do bordão de Guedes: menos Brasília e mais setor privado. Do jeito que está, vamos combinando ditadura tecnocrática com pusilanimidade empresarial.

Obs: O Sistema S não é nenhum convento e precisa ser dedetizado, mas isso não é da seara de Paulo Guedes.

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